ATRAVESSANDO O MANGUEZAL

Um vento úmido sopra do mar, fazendo as árvores de mangue recurvarem-se. Uma fina neblina baixa recobre o solo lodoso, de onde brotam árvores esquisitas de raízes expostas e galhos retorcidos. A visão é a mesma de um filme de terror. Esta é a primeira impressão que se tem, quando se visita o manguezal no amanhecer, para observar as aves. Levado pela curiosidade, você decide entrar neste complexo ambiente.

 
 
Árvores esquisitas de raízes expostas e galhos retorcidos.
 
Então, naturalmente, você põe o primeiro pé no manguezal. E eis que acaba atolando até o joelho. Dá outro passo, e acaba também atolando a outra perna. Você tenta tirar uma perna, enquanto a outra continua afundando naquela lama escura e fria. Não tem outro jeito. Você vai ter que enfiar suas mãos na lama para retirar uma perna. Após algumas manobras que só um contorcionista profissional ousaria fazer, você se vê livre para caminhar, após ter enlameado sem querer noventa por cento de seu corpo. E aí vem a triste constatação: suas pernas estão livres, mas onde estão os seus sapatos? Então você tem de voltar ao exato ponto onde havia atolado e enfiar o braço inteiro no lodo para retirar seu sapato, exatamente como um catador de caranguejos faz para ganhar a vida.
 
 
 
Mangue-branco
 
Saracuras
 
 
Após este batismo, você encontra um solo um pouco mais estável, pois ele está recoberto pelas raízes do mangue-branco (Laguncularia racemosa). Por ali é possível caminhar mantendo o máximo de dignidade possível. E não há nada mais humilhante do que ver uma saracura-três-potes (Aramides cajanea) caminhando sossegada pelo manguezal, sem afundar. Esta espécie arisca caminha por dentro da floresta de mangue atrás de pequenos caranguejos e o que mais puder engolir. No alto das árvores, um bando de pequenos sebinhos-do-mangue (Conirostrum bicolor) parece rir de sua “desgraça”. São passarinhos da mesma família do sanhaço, mas que preferem passar suas vidas no manguezal.
 

Pequenos caranguejos no manguezal
 
Você então nota que pequenos caranguejos escalam os troncos das árvores, de maneira bem habilidosa. São os marinheiros (Aratus sp), que sobem nas árvores para fugir da maré e para se alimentar das folhas.

Pousado num caule-escora do mangue-vermelho (Rizophora mangle), está um belo socó-caranguejeiro (Nyctanassa violacea) com seus grandes olhos vermelhos. Esta espécie, como o próprio nome já diz, adora comer caranguejos, e sai principalmente à noite para caçar, passando o dia descansando.

 

Revoada de Guarás-vermelhos (pequena)
 
De repente, como se tivessem sido enviados por algum ser maligno, nuvens de mosquito pólvora lhe cercam. Em pouco tempo, você é tomado pelo desespero e por uma fúria de coçar todas as partes de seu corpo ao mesmo tempo. E então, após esta tortura, eles somem, respondendo ao chamado se seu mestre oculto. Não sem antes você sentir a dura realidade de uma picada de mutuca no pescoço. Você já está prestes a explodir, quando algo o chama a atenção. Algo tão impressionante que o faz se esquecer por um tempo da coceira. Afinal, não há nada como uma revoada de centenas de guarás-vermelhos (Eudocimus ruber), com sua cor vermelho-vivo contrastando com o verde do manguezal. Entre eles, há jovens, de cor ainda marrom-escura, pois ainda não comeram caranguejos o suficiente para ficarem vermelho.

E você se põe a pensar na importância deste ambiente, tão ignorado por nós ao longo de muitos anos. Este que é o berçário da vida marinha (que, aliás, faz parte de nossa dieta alimentar), vêm a cada dia perdendo espaço para as indústrias e para a ocupação desordenada.