OBSERVAR AVES
Atualmente, nos cursos de Ciências e de Biologia, pouca atenção é dispensada ao estudo dos vertebrados vivos, o seu comportamento e ao reconhecimento mesmo que das espécies mais comuns. O estudo dos vertebrados normalmente restringe-se a aspectos anatômicos e, quando muito, fisiológicos. Os vertebrados, inclusive as aves, são apresentados a crianças e jovens como corpos abertos ou como coleções de órgãos, aparelhos e sistemas cujas funções devem ser decoradas para a prova. Se, por um lado, alguns livros ao menos apresentam experimentos com invertebrados vivos (insetos, crustáceos, estrelas-do-mar), por outro lado percebe-se a ausência praticamente total de referências à biologia e ao estudo de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e peixes da fauna brasileira.

A observação de aves, ou birdwatching, é uma prática que envolve milhões de pessoas em todo o mundo. Nenhum outro grupo de animal silvestre exerce maior atração sobre as pessoas, para sua simples contemplação. Certamente algumas qualidades notáveis das aves são responsáveis por isto, como a capacidade de vôo, invejada pelo homem por milhares de anos; seu colorido, muitas vezes impossível de ser retratado numa pintura, já que algumas cores são decorrentes de iridescências devidas à própria estrutura das penas; e seu canto, melodioso e agradável ao ouvido humano.

 
Observação de aves perto do Forte dos Andradas, Guarujá
 
A observação e reconhecimento das espécies de aves podem ser feitos em grande parte pela sua simples visualização e escuta. Prova disto é que muitos moradores das áreas rurais são grandes conhecedores das aves de sua região.

Há os que se contentam simplesmente em observar aves que freqüentam seus jardins e quintais. Outros aproveitam viagens ou passeios em clubes de campo, sítios e fazendas para observarem as aves. Por fim, há aqueles que transformam a observação de aves em verdadeiros hobbies, dedicando grande parte de seu tempo nesta atividade. Alguns se destacam tanto no conhecimento das aves e da ornitologia que podem ser chamados de ornitólogos amadores ou autodidatas, podendo dar grandes contribuições a esta ciência, mesmo não tendo se formado em biologia ou ciências afins. A intensa participação de leigos na prática da observação de aves levou um ornitólogo norte-americano a definir a ornitologia como “uma curiosa mistura de um passatempo popular com uma ciência precisa”.

A observação de aves é uma atividade que traz diversas vantagens aos que a praticam. Como envolve freqüentemente caminhadas por áreas naturais, é uma excelente atividade física. É também uma oportunidade de relaxamento e descanso mental, cada vez mais necessários ao homem moderno, além de ser uma excelente maneira de se conhecer pessoas e fazer novas amizades.

 
Equipamentos p/observação
Bando de corta-mar observado no manguezal
 
EQUIPAMENTOS NECESSÁRIOS

Entre os equipamentos normalmente utilizados pelos observadores destaca-se binóculo. Ele permite observar as aves de perto e visualizar detalhes de sua plumagem, auxiliando na identificação da espécie que está sendo observada. Ao contrário do que muitos pensam, os melhores binóculos para observação de aves não são os com maiores aumentos. Aumentos muito grandes, acima de 10 ou 12 vezes, dificultam a focalização da ave e ficam trêmulos em nossas mãos. O ideal para esta atividade são binóculos com aumentos entre 7 e 10 vezes. Outras qualidades importantes do binóculo são sua leveza e luminosidade. Um binóculo pesado pode tornar a caminhada cansativa.

O observador de aves experiente reconhece em campo a maior parte das espécies pela sua vocalização. (a vocalização refere-se a todas as expressões vocais da ave, que podem ser cantos, pios, chamados, gritos de alarme, etc.). Este recurso é de extrema utilidade no caso de alguns grupos de aves em que as espécies são muito parecidas entre si. Para aprender os cantos das aves são de grande utilidade os discos e fitas de vozes de aves. Os discos pioneiros no Brasil foram editados por Johan Dalgas Frish e mais recentemente diversos CDs já foram produzidos, como o CD-ROM Brasil 500 Pássaros.

Também de grande utilidade são os guias de campo, que são livros, em geral em formato de bolso, com desenhos ou fotos de todas as aves de determinada região. Há guias para todo o país, ou para apenas um estado ou mesmo para uma localidade restrita, como o Aves no Campus (EDUSP), que retrata as espécies de aves da Cidade Universitária da USP, em São Paulo, e o Guia de Campo Aves da Grande São Paulo (Aves e Fotos Editora). Dois guias de abrangência nacional foram publicados no Brasil: Aves Brasileiras (Dalgas Ecoltec) e Todas as Aves do Brasil (Dall).

BLOCO DE NOTAS
Sabemos que os guias são essenciais para identificar as aves, mas um bloco de notas é o melhor modo de treinar a vista para aprender a observar as características de cada espécie. Esboços de plumagem, padrões de vôo, hábitos, tudo é importante. Não é preciso ser artista para desenhar aves. Lápis de cor traçam detalhes bem melhor do que uma descrição de muitas palavras.

HORÁRIOS
As aves podem ser observadas em qualquer horário do dia. Naturalmente, existem também aves noturnas, como as corujas e curiangos, mas seu estudo é muito mais difícil. Elas são ativas o dia todo, porque desde o nascer do sol existem aves voando, cantando e se alimentando. Nos períodos da manhã, até mais ou menos 9 horas, e da tarde, depois das 15 horas, a atividade é maior. Isto ocorre porque, logo após o nascer do sol, todas as aves vão procurar alimento, já que passaram a noite toda sem se alimentar e agora é hora de repor as energias. Do mesmo modo, antes de dormir elas também saem à procura de alimento, preparando-se para passar a noite.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
DEVELEY, PEDRO F & ENDRIGO, EDSON: Guia de Campo, Aves da Grande São Paulo. Editora: Aves e Fotos, SP. 2004.


HÖFLING, ELIZABETH & ALMEIDA CAMARGO, HÉLIO F: Aves no Campus. EDUSP, Editora da Universidade de São Paulo. SP. 1999.

ARGEL, DE OLIVEIRA, M.M. (org.), 1987. Observações preliminares sobre a avifauna da cidade de São Paulo. 1986. Bolm CEO, (4): 6-39.

SICK, H: Ornitologia brasileira: uma introdução. Editora da Universidade de Brasília. Brasília, 1984.
www.ib.usp.br/ceo - Centro de Estudos Ornitológicos –CEO.