PESCA
Até aproximadamente o final da década de setenta, a pesca e a coleta eram em abundância e se pescava os variados peixes e crustáceos citados nos depoimentos Com o aumento da população da própria comunidade e da região como um todo (gerando tanto um aumento da concorrência, como da demanda) a produção pesqueira começou a escassear (aqui se referindo a produção da comunidade). Isso, aliado ao crescimento industrial, e por conseguinte dos dejetos lançados no estuário, começou a tornar a vida dos pescadores e coletores cada vez mais difícil. Os pescadores acabaram se fixando, não por escolha, e sim pela diminuição das variedades e quantidades de peixe, na pesca da tainha e do camarão, e na coleta de caranguejos e siris. Os depoimentos de moradores ligados à pesca, em sua maioria moradores mais antigos, atestam para a quantidade e facilidade que tinham outrora na obtenção de pesca e crustáceos no mar, mangue ou mesmo nas gamboas em volta. DEPOIMENTOS |
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(...) aqui dá pescada, robalo, parati, tainha, espada, peixe-galo,
paru, até sardinha, a legitima, a maromba, que chamam, nós
pegávamos um pouco, pegava os cardumes na barra, hoje não
entra mais por causa da poluição, de certo, sei lá
(...) aqui já foi matado baleia, tudo isso aqui na Conceiçãozinha,
né, a baleia chegava a entrar até aqui (...) de vez em quando
“se arruma” uma pra cá, então arpoava, agora
hoje não tem mais nada disso, até os botos, que tinha muito,
era cardume de boto, sabe o que é boto? Tinha cardume de boto,
hoje você não vê mais um boto, hoje você vai
ver um boto aonde, lá pro lado da Bertioga, quando calha de ver,
virar cambalhota, né? |
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(...) peixinhos: Carapicus, manjubinhas, savelha, robalinhos, carapebinhas,
além de sirizinhos. (...) Corvina, pescada, linguado, robalo, cação, (...) vem enguia, vem siri, vem caracol, às vezes vem golfinho (...) a anchova, pescadinha, o bagre (...) A sororoca é um peixe que dá no meio de junho, né? A tainha tinha muita tainha aqui no estuário, ta? Tinha o bagre cabeçudo, tinha muito, as guaivíras, tinha muito também, robalo que eu já falei e a garoupa vinha desovar pra cá também, perna-de-moça, espada, também tinha aqui o charéu, também o parú, tinha muito parú. |
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(...) por exemplo, a pesca do tribombó (Onomatopéia indicando
o som emitido na margem, era uma coisa fantástica, o pescador saía
em uma canoa, com um varão nas laterais, inclinado, uma rede esticada,
daí, uma pessoa saía pela margem batendo um tambor, os peixes
que estavam na margem se deslocavam em direção ao mar aonde
a canoa ia passando, nessa canoa tinha também uma lamparina na
proa e outra na popa. Quando os peixes iam passar por baixo da canoa eles
se assustavam com as lâmpadas e tentavam saltar por cima da canoa,
nisso eles batiam na rede e caíam dentro da embarcação.
Esta era uma das pescas que dava pra gente subsistir.
(...) aí, eles (Projeto Rondon), começaram a ensinar diversas técnicas pra gente, menos predatórias. Outro exemplo, a questão do uso da tarrafa, lançar a tarrafa no mar e trazer camarão, também trazia varias espécies de peixinhos: Carapicus, manjubinhas, savelha, robalinhos, carapebinhas, além de sirizinhos. Mas depois das instruções começamos a aproveitar esses restos de peixes como engodo pra pesca do camarão. Agora, mesmo assim ela achava um absurdo, mas fazer o que? A gente tinha que viver daquilo, né? Interessante é a auto-critica feita. O reconhecimento de que uma parte da degradação da pesca foi, ou é, responsabilidade dos próprios pescadores artesanais. (Profº. Carlos Eduardo Vicente). (...) Hoje já reduziu, né? Se tu for por na caneta hoje, eu duvido que durante esse ano já teve gente que pegou salgo aí dentro, salgo de dente que a gente chamava, o parú, não se encontra, a sororoca nem pra remédio se pega ela aqui no canal, ela não entra [...] então a sororoca não se encontra mais, o golfinho já não se vê mais aí, o bagre, só se pega bagrezinho pequenininho, ta? (...) em 1974 a pesca do mar já era farta, mas nós estamos falando de pesca no rio, pesca artesanal, que é com o caniço (Vara flexível, atualmente de material sintético, que durante muito tempo foi de um bambu, medianamente fino, e verde), a isca, a rede o espinhel (o espinhelutilizado pelos pescadores da Conceiçãozinha, consiste geralmente de apenas uma corda grossa com os anzóis presos a ela). (...) quando o porto e a Cosipa se instalam começa a escassez, os manguezais começam a ser invadidos pela população, aí começa a sumir o caranguejo, o siri. Ainda existe a pesca de maré, mas teve um desenvolvimento da pesca armadora, da pesca de mar, sardinha e camarão em abundância. |
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Eu me lembro que o emprego na área de pesca cresceu bastante, com
o crescimento e atividade forte das indústrias de 1974 para cá,
começa a poluição, em 1977 vem à deficiência
da pesca (...) a pesca ficou escassa e a gente teve que sair pro mar também,
e acaba gastando mais, com rede, óleo, extintor, salva-vidas (colete),
ou seja, uma estrutura que antes não precisava, tem que ter uma
série de coisas que os pescadores não conseguem, e tem a
concorrência, tem a pratica do arrasto, a gente tentou fazer
isso com nossos barcos, e vai uma porta de cada lado, a rede aberta e um saco, e vai levantando a lama e o camarão vai entrando pra dentro da sacola, essa é uma pesca de costeira. (...) e as firmas aí, que ta lascando a gente, fora às outras de Cubatão que vem pelo rio, o veneno também vem lá de cima, essas refinarias que jogam água suja na nossa água limpa, e nossa água limpa vira podridão, que nós vai comer? Pedra? Entendeu, nem caranguejo deu pra viver aí, que os mangues tão tudo poluído também. |
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Caranguejos
no meio da poluição |
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(...) poluição, nunca vi peixe cegar, cansamos de pegar
tainha cega, cega, os dois olhos brancos, os olhos do bichinho, do animal,
e peixe não é gente, é um inocente, um fruto de Deus,
e eles jogando química dentro da água, polietileno, esse
bagulho que vira vaselina, uns quadrados lá na água, trinta,
quarenta centímetros quadrados de um produto perigoso, na água,
brabo, sei lá, eu levo qualquer um lá e mostro os pedaços,
de vez em quando engata um na rede, na rede, na tarrafa, são cem
anos de água suja dentro da água, que nem isso aqui, nessa
água, sem vida.”
(...) a pesca do camarão atualmente é a única que realmente proporciona uma renda razoável, porém, há diversos aspectos que dificultam a sobrevivência através da pesca do camarão. Primeiramente é um tipo de pesca que pode ser qualificado como uma espécie de arrasto. As embarcações que vão para a pesca do camarão utilizam um guindaste no qual são amarradas as duas pontas da rede de nylon utilizada, deixando assim essa rede em forma de um para quedas, debaixo d’água. PORTAS DEFESO
DO CAMARÃO Essa é a lógica do mercado se aplicando nas relações de subsistência do pescador artesanal. Enquanto o camarão está escasso, por causa da proibição, algumas vezes os pescadores saem, ilegalmente pois a necessidade os impele, e nessa época o preço do camarão compensa o risco. Porém logo que acaba o defeso, e a pesca é liberada, o preço ainda permanece razoável por cerca de uma semana. Com a chegada das grandes embarcações o preço vai caindo até se produzir a cena relatada pelo pescador: tem-se o produto da pesca, entretanto não se tem como vendê-lo. (...) quer dizer, quando tem muito camarão o preço chega até oitenta centavos o quilo, quando tem bastante, entendeu? “Aí a ‘praça cai’ e daí, ninguém quer, tem vez que ninguém quer, nem o camarão, chega lá com o camarão e eles (os peixeiros, os Box da Ponta da Praia) falam: ‘não quero não’.” |
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Mercado
de peixe da Ponta da Praia em Santos |
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COLETA E as coletas, estão praticamente inviabilizadas no entorno da comunidade, por dois motivos: o primeiro é de fato a grande escassez de siris, caranguejos e mariscos; o segundo é a poluição oriunda do cais e das indústrias vizinhas à comunidade. Poluição esta que não só espantou e matou grande parte da diversidade da região, como torna impensável o consumo de qualquer crustáceo que por ventura seja capturado na área. |
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NOTA: Este Texto foi tirado do Trabalho de Conclusão
de Curso,2002: Sitio Conceiçãozinha O impacto da Urbanização
e Industrialização em uma comunidade tradicional caiçara,
do Profº. Carlos Eduardo Vicente. Email: eduprofessor_historia@ig.com.br |