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RIO
DA POUCA SAÚDE O que chamamos de rio, na verdade trata-se de uma gamboa. Esta designação, totalmente popular, é o nome dado a um braço de rio de mangue, que não tem nascente e está sempre sob influência da maré. Tanto que na maré baixa uma gamboa pode ficar completamente seca (ou mesmo o próprio rio). |
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O
rio da Pouca Saúde, anteriormente denominado “gamboa do Juca”,
atinge uma região além da estrada da Conceiçãozinha,
passando bem ao lado do Hospital Santo Amaro, em Guarujá (SP).
Não se pode dizer que o rio nasce ali, pois uma gamboa não
tem nascente. Mas é garantido que ele “morre” ao passar
por ali pelas palafitas existentes ao longo de seu curso.
SURPRESAS
NUM RIO ABANDONADO |
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Entramos
no rio tendo a Citrosuco à nossa direita, e um pequeno banco de
lodo à esquerda. Nele, pequenos caranguejos chama-maré (Uca
sp.) moviam-se rapidamente e entravam em suas tocas com a aproximação
do barco. Ao longo das margens, avistamos bandos de socós-caranguejeiros
(Nyctanassa violacea), um notável habitante dos manguezais,
predador de caranguejos. Alguns urubus (Coragyps atratus) empoleiravam-se
nos galhos e caules-escora dos mangues-vermelhos (Rizophora mangle),
de onde observavam o rio à procura de peixes mortos. Para eles,
alimento ali não era problema. |
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Algumas
garças-brancas-pequenas (Egretta thula) corriam nas margens
lodosas, pescando pequenos peixes. Sua bicada é certeira, e raramente
erra o alvo. Um longo pescoço de repente emergiu da água
escura, e então vimos um biguá (Phalacrocorax brasilianus)
que pescava mergulhando atrás de suas presas. É impressionante
como o biguá consegue enxergar os peixes debaixo das águas
turvas, principalmente num rio como esse.
De
repente, um bando de agitados passarinhos azuis cruza o rio voando, indo
pousar numa alta árvore de mangue-branco (Avicennia shaueriana).
Eram os alegres figuinhas-do-mangue (Conirostrum bicolor), uma
espécie extremamente adaptada à vida nas árvores
do manguezal. Eles cantavam sem parar enquanto procuravam por insetos
nas folhas do mangue. Em poucos segundos, um casal de marrecas-toucinho
(Anas bahamensis) sobrevoa a superfície do rio, passando
ao lado do nosso barco, e logo desaparece na próxima curva. Ficamos
muito surpresos por encontrar aves vivendo num rio que, como o próprio
nome já diz, não é dos mais saudáveis. Mas
nós ainda nem imaginávamos o que estava por vir... |
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Barco
da Secretaria de Meio Ambiente de Guarujá para fiscalizar as áreas
de preservação (1) |
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Diminuímos a velocidade do barco, pois o motor já estava
quase encostando no leito. Aquele era um trecho raso, onde era preciso
tomar muito cuidado para não encalhar. Desligamos o motor e deixamos
que a maré enchente nos levasse até uma margem onde, ao
invés de árvores de mangue, cresciam palafitas. Nossa presença
foi rapidamente anunciada por um casal de quero-quero (Vanellus chilensis)
que procurava alimento no lodo. Mas foi só chegar mais perto e
vimos que eles não eram os únicos que se alimentavam ali.
Pequenos batuíras-de-bando (Charadrius semipalmatus) corriam
velozmente, como se tivessem rodinhas nos pés. Mais adiante, um
grande bando de maçaricos-de-perna-amarela (Tringa flavipes)
também se alimentava, caminhando na beira da água com suas
longas pernas amarelas. Ambas são espécies migratórias,
que “fogem” do Canadá quando chega o implacável
inverno. Então, um bando de oito maçaricos-pintados (Acitis
macularia) passa voando rente à água. Eis aí
outra espécie vinda do Hemisfério Norte.
Ficamos mais que contentes ao ver que aves migratórias ainda utilizam nossos agonizantes manguezais como ponto de repouso e alimentação. Não há como não pensar na distância que estas aves percorrem para aproveitar o calor e a generosa abundância de alimento dos trópicos. É uma pena que nós não possamos oferecer uma hospedagem melhor, sem poluição. Rios mais limpos e manguezais mais saudáveis atrairiam não só as aves de fora, mas também turistas interessados em observar e admirar a natureza. |
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| (1) Agradecemos o Secretario do Meio Ambiente de Guarujá, Elcio Maceió, pela apoio . | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| REFERÊNCIAS
BIBLIOGRAFICAS BRETAS, E. & SIGRIST, T: Desenho Científico de Aves. Anais do V Congresso Brasileiro de Ornitologia, UNICAMP, Campinas, 1996. FRISCH, J.D. & FRISCH C.D. Aves Brasileiras e plantas que as atraem. Dalgas Ecoltec, SP. 2005 HÖFLING, ELIZABETH-ALMEIDA DE CAMARGO, HÉLIO F: Aves no Campus – Edusp. São Paulo (3ª Edição), 1999. MOORE, HOWARD R, A:. A complete checklist of te birds of the world. 2. ed. London, Academic Press. 622 p. 1991. OLMOS, F & SILVA, R.S. Guará-Ambiente, Fauna e Flora dos Manguezais de Santos-Cubatão. Ed. Empresa das Artes, SP 2003 RUSCHI, AUGUSTO: Aves do Brasil – Editora Rios, São Paulo, 1981. SCHAUENSEE, R.M: A Guide to the Birds of South America. ICBP, 498 p., 1982. SICK, HELMUT: Ornitologia Brasileira. Ed. Nova Fronteira, 1997. SOUZA, DEODATO: Todas as aves do Brasil. Editora DALL. 1998. |
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