Pescadores resgatam tartarugas

Por Fabiana Frayssinet*

Uma iniciativa de conservação incentiva pescadores do sul do Brasil a combater a captura acidental de tartarugas marinhas.

Florianópolis, 10 de março (Terramérica) - São cinco horas da manhã quando os pescadores de Barra da Lagoa embarcam para ver que oferenda o mar deixou em suas redes. No escasso fruto desta noite, não encontram tartarugas feridas ou agonizando em suas armadilhas. Em grupos de seis e divididos em duas coloridas embarcações, os pescadores entram no mar a leste de Florianópolis, capital de Santa Catarina. O Terramérica os acompanha em outro barco do Projeto Tamar (Programa Brasileiro de Conservação de Tartarugas Marinhas), executado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) por meio do Centro Brasileiro de Proteção e Pesquisa de Tartarugas Marinhas.

O projeto controla oito redes, que pegam acidentalmente cerca de 25 tartarugas marinhas por ano, conta ao Terramérica o veterinário Eduardo Tadashi. De sete variedades de tartarugas marinhas, que se agrupam nas famílias Chelonidae e Dermochelyidae, cinco estão no Brasil, todas na lista do Ibama de espécies ameaçadas. A captura destas gigantescas espécies marinhas, existentes há mais de 150 milhões de anos, está proibida no país. A missão do Tamar em Florianópolis é conscientizar a população local sobre a necessidade de conservar as tartarugas e trabalhar junto aos pecadores para reduzir as capturas acidentais.

Os animais chegam a esta região antes de sua maturidade reprodutiva – entre 23 e 25 anos – para se alimentar, explica ao Terramérica Eron Lima, biólogo que coordena o Projeto Tamar em todo o sul do Brasil. As águas desta região são ricas nos alimentos preferidos pelas tartarugas: peixes, caranguejos e algas. Porém, junto a esse banquete as tartarugas também encontram as armadilhas humanas: redes e anzóis, nos quais ficam presas, freqüentemente até morrerem. O pescador Josemar Teixeira disse ao Terramérica que, até alguns anos, cada vez que uma tartaruga caia em suas redes era dividida entre todos como alimento. Mas, desde que o Projeto Tamar chegou em 2005 à ilha (Florianópolis, cuja maior parte é território insular), já não o faz, “porque agora se sabe que é proibido”, acrescentou.

Os pescadores artesanais ganham, em boas épocas, pouco mais de um salário mínimo. Por isso, e por tradição, é difícil deixar de lado um alimento tão apreciado para seus paladares e sua economia de subsistência. Agora, não se limitam a não capturá-las nem comê-las se caem em suas redes. Segundo Teixeira, levam os exemplares encontrados até a sede do Tamar onde são recuperados e devolvidos ao mar. “Há pouco peguei uma tartaruga maior sobre outra menor que quase não podia respirar. Hoje em dia, ninguém mais mata” tartarugas, e ultimamente se vê mais exemplares no mar, assegura.

Para os pescadores é um problema pegar tartaruga por acidente, pois isso lhes custa um tempo que necessitam para pescar a “jóia do mar”, um peixe-espada gigante, dos mais cotados no mercado, vendido a cerca de R$ 85 o quilo, enfatiza o coordenador do projeto. No Centro Tamar de Barra da Lagoa, com várias piscinas onde são expostas tartarugas nascidas em cativeiro, Lima destaca que o projeto experimenta novos anzóis para peixe-espada – cerca de cem por espinel (linha em que são presos) – que ferem menos as tartarugas. Ao contrário dos anzóis tradicionais, em forma de J e mais pontiagudos, estes são redondos e cerrados, o que dificulta que a tartaruga fique enganchada neles e, caso isso ocorra, “diminui o impacto do ferimento”, destaca o biólogo.

Em um ano de testes com os novos anzóis, as tartarugas pegas pelos pescadores estão muito menos machucadas. O Centro reabilitou 94 exemplares em 2007. Os pescadores participam cada vez mais, comemora Lima. A função educativa é outro dos êxitos do projeto, que recebe cerca de 40 mil visitantes anuais e também inclui os estados do Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Rio de Janeiro. O Projeto Tamar, patrocinado pela Petrobras, também é financiado com arrecadação obtida com visitas aos seus centros e venda de camisetas e outros produtos.

* A autora é colaboradora da IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Envolverde/Terramérica)