Santos em 1908 – portal de entrada da imigração
Qual
foi a cidade com que se depararam os primeiros imigrantes japoneses chegados à
Santos?
A
foto abaixo foi tirada antes de 1909, quando da inauguração do prédio do Corpo
de Bombeiros de Santos, e depois de 1907, já que a Praça dos Touros, atualmente
área ocupada pelo Coliseu, já havia sido inaugurada. Então, provavelmente, a
paisagem vista pelos primeiros colonos japoneses foi muito semelhante a essa.

Panorama
de Santos entre 1907 e 1909. Fotografia da Coleção Romano de Moura.
A
partir de 1904 a cidade de Santos recebeu um novo impulso de desenvolvimento
com a construção do primeiro trecho de cais linear de porto. Em 1907, o
primeiro trecho de canalização do Ribeirão dos Soldados, que corresponde ao
canal um, também foi inaugurado.
O
desenvolvimento urbano de Santos, até os anos 10 do século XX, levou a cidade a
expandir-se em novas direções. Desde a implantação do povoado e porto de
Santos, no século XVI, até a segunda metade do século XIX, a área urbana de
Santos permanecia restrita a áreas próximas ao antigo porto, hoje centro
antigo.
O
mapa a seguir, de 1905, preparado sob a supervisão do engenheiro chefe
Francisco Saturnino de Brito para o projeto de saneamento de Santos, demonstra
como até essa data a área urbanizada da cidade estava restrita a área abrigada
dentro do canal do estuário. O espaço que corresponde hoje às praias e aos
famosos jardins da orla estava ainda desocupado.

Drenagem
Superficial e Pluvial. Saneamento de Santos. Mapa de 1905.
Nesse
mesmo mapa, as linhas coloridas que sinalizam as áreas de canalização das
águas, demarcam também as novas áreas de expansão da cidade, correspondendo à
construção das novas vias de acesso às praias como a Av. Ana Costa e a Av.
Conselheiro Nébias, que permanecem até hoje como avenidas importantes para a
circulação urbana de Santos.
O
mapa seguinte, realizado cinco anos depois, com o projeto de urbanização de
Saturnino de Brito para Santos, permite perceber as estratégias de crescimento
urbano da cidade e os novos desenhos que a acompanharam, demonstrando as
intensas mudanças com as quais a cidade dos novos imigrantes tinham de
conviver.

Santos.
Planta e Projetos. Engenheiro chefe Francisco Saturnino Rodrigues de Brito.
Comissão de Saneamento, 1910.
Foram
poucos os imigrantes japoneses que permaneceram em Santos em 1908, já que sua
chegada já estava ligada ao trabalho nas fazendas do interior, entretanto os
anos seguintes vivenciaram o retorno desses mesmos imigrantes à cidade em busca
de novas oportunidades nesse espaço urbano em intensa transformação que
constituía a Santos de então.
Fases
de uma cidade – de 1870 a 1908.
A
Santos que os primeiros imigrantes japoneses encontraram, era muito diferente
algumas décadas antes de sua chegada e, em
um curto período, que data do final do século
XIX ao começo do século XX, a cidade sofreu grandes transformações na sua
estrutura urbana. Santos, identificada como a
cidade do café, caminhava para o progresso econômico
portuário.
O
comércio do café foi responsável por mudanças importantes em Santos.
Sua comercialização trouxe a necessidade de investimento numa infra-estrutura que pudesse atender a demanda do crescimento econômico da
cidade. Entre
o final do século XIX e o início do XX, a cidade de Santos apresentava
quadros críticos na área sanitária e urbanística. Esse
quadro foi agravado com o aumento da população e pelos
numerosos cortiços, pela precária situação de
saneamento devido à insuficiência de água e esgoto na cidade, pela
duvidosa vigilância sobre os navios vindos de portos infectados e também
pelo descaso de autoridades.
O
governo foi
pressionado a reagir a esses problemas, não por razões
humanitárias, mas econômicas, pois o comércio de exportação de café estava sob ameaça caso o porto da cidade não se tornasse um lugar seguro. A
partir da virada do século XX surgiram projetos para uma melhoria na estrutura da cidade.
Destacam-se
entre eles a organização do porto, cujo primeiro trecho de cais linear foi
inaugurado em 1904 e a construção dos canais de Santos, entre os quais o canal
um, com a canalização do Ribeirão do Soldado, foi inaugurado em 1907, mas o
movimento de urbanização iniciou-se ainda no século XIX.
Os
contratos com a Companhia Inglesa Santos Improvement, para abastecimento de
água, transporte público e iluminação a gás, datam de 1870. A firma tinha por obrigação fornecer água boa e em quantidade suficiente. A venda de água era
feita pela Companhia por canos ou carroças.
Em
1888 um grupo de empresários sediados na capital do país, comandados pelos engenheiros
Cândido Gaffreé e Eduardo Guinle, assumem o projeto para a construção dos
primeiros 260 metros do cais.
O
governo estadual nomeou duas comissões: a Comissão sanitária de1894 e a
Comissão de Saneamento de 1903, o que significava a reparação de medidas,
através da medicina e da engenharia. A primeira teve sua fase sob o comando do
médico Guilherme Álvaro e a segunda, sob o engenheiro Francisco Saturnino
de Brito.
O
projeto de saneamento escolhido propunha o sistema reparador absoluto, com a
separação do esgoto, das águas da chuva e esgotamento dos despejos pelo sistema
de estações elevatórias, sendo os dos morros recolhidos por um canal de
contorno. O sistema geral de Brito consta de nove canais, dos quais o maior é o
canal um, que vai da Bacia do Mercado até a praia do José Menino e recebe as
águas do morro do Jabaquara, Marapé e José Menino e de outras áreas da cidade,
através de cinco canais respectivamente, canais 2, 3, 7, 8, 9.
A
entrega festiva de 2.030 metros de canal de drenagem, iniciada com o canal um,
realizada em 27 de agosto de 1907, foi um acontecimento cuja finalidade, mais
do que inaugurar uma obra pública, era celebrar uma nova etapa da vida urbana. A
empresa Cit. off Santos colocou luz elétrica no
trecho inaugurado.
Havia
motivos para se comemorar, as epidemias tinham sido declaradas extintas e os
canais constituíam uma garantia de que elas não voltariam.
A
história da cidade de Santos pode ser dividida em duas etapas, antes e depois
do saneamento. Os canais, criando linhas mestras, além de transformarem, a face
urbana, afetaram a psicologia do santista. Através
dos canais e das avenidas Conselheiro Nébias e Ana Costa, a cidade construiu
uma nova tendência de valorização da a orla da praia em
detrimento ao “centro antigo”, de onde a cidade foi originada.
Já
na virada para o século XX, com a modernização, saneamento e expansão da
cidade, ocorreu a ocupação da beira mar e os
primeiros loteamentos que ofereciam possibilidades de residências em locais
aprazíveis para quem tinha dinheiro.
Apesar
de todas essas mudanças, em Santos, mesmo com a
agitação do porto, a vida não diferia do ritmo pacato das demais cidades. Para
indicar as mudanças na vida urbana e a ruptura com o passado colonial, diversos
memorialistas e viajantes destacavam o surgimento de uma vida noturna, de
teatros, restaurantes e hotéis.
A
presença de um comércio mais ativo em que as lojas exibiam
belas vitrines com multiplicidade
de produtos, associada à rua com calçadas que permitiam a população passear e
usufruir das novidades, eram também indicadores importantes das transformações. Por fim as estações da estrada de ferro e os
novos prédios e monumentos, como hospitais, parques e jardins públicos com
estátuas compunham o cenário da modernidade procurada.
Referências:
ANDRADE,
Wilma T. F. de. Reportagem. A Tribuna, 31/07/1994.
BANAT,
Ana Kalassa El. Certas imagens de uma cidade... ou certas cidades entre
imagens In: Revista Ceciliana, ano 12, no. 16, ago./dez. 2001.
BANAT,
Ana Kalassa El e NUNES, Luiz Antonio de Paula. Uma aula de 500 anos - parte I
In: Revista Ceciliana, ano 10, no. 12, ago/dez. 1999.
__________
Uma aula de 500 anos parte II In: Revista Ceciliana, ano 11, no. 13,
jan./jun. 2000.
__________
Santos, jardim da orla - referência urbana para a comunidade In: Revista
Ceciliana, ano 11, no. 14, ago./dez. 2000.
LANNA,
Ana L. D. Uma cidade na transição – Santos: 1870 – 1913. São Paulo: HUCITEC,
1996.