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Entrevista com o Sr. Yassuo Kinjo, dia 24/05/07, em sua
casa, em Santos.
Em 1960, vindo da Ilha de Okinawa, o
Sr. Yassuo Kinjo chega ao Brasil com a família. Foi fotógrafo de vários jornais,
hoje aposentado. Em sua carreira recebeu inúmeros prêmios como profissional de
destaque, entre eles como Melhor Fotógrafo da Baixada Santista dos anos de
1968/69.
Ma: O senhor saiu de lá com que idade?
Y: 17 anos.
Ma: Qual foi o navio que o senhor veio?
Y: navio holandês
Tissadane.
Ma: Como era a vida no Japão na sua época?
Y: naquela época... ainda
o Japão não tinha ser recuperado da 2 º Guerra Mundial. Ainda [sic] tava um
pessoal saindo pra fora do país, para ver se conseguia vida melhor, né?
Ma: estavam incentivando o povo a sair?
Y: Esse era o normal,
só que... o caso da minha família teve aquele problema do tufão...o famoso
tufão da nossa ilha, naquele ano [sic]dos anos sessenta...grande tufão.
Ma: Quer dizer que, além do problema da guerra, teve o
problema do tufão?
Y: Nossa casa, nossas
casas vizinhas, umas cinco casas... tudo foi soterrado no deslizamento de
terra. Nessa mesma vila, morreram dezessete pessoas inclusive... nós tivemos
sorte e minha família se salvaram todos.
Ma: E esse tufão foi quando?
Y: 1960.
Ma: Nessa época seu irmão já tinha vindo?
Y: Já, meu irmão veio
em 1958. Então parte de minha família veio por causa disso também... por causa
de termos perdido tudo. Aí meu irmão ficou sabendo... nós mandamos cartas pra
cá [sic] pro Brasil. Ele achou melhor chamar a família toda...porque lá
perdemos tudo.
Y: Nessa época do
tufão eu estava na capital.
Ma: Ah o senhor não estava lá?
Y: Estava estudando
na capital, fazia Ciências Contábeis.
Ma: Em Tóquio?
Y: Não, não... nossa
ilha é Okinawa. Capital de Okinawa se chama Naha. Nossa ilha é no extremo sul
do Japão... nossa família é do norte da ilha e eu estudava no sul, uma viagem
de mais ou menos três horas.
Ma: fale um pouco de sua família, quantos vieram pra cá?
Y: Nós somos cinco irmãos...
o mais velho, o que veio pra cá, meu segundo irmão também já tinha se formado
na parte de Arquitetura e [sic] tava começando a trabalhar e eu cursava o
segundo ano de Ciências Contábeis e com tido esse motivo o meu irmão também
chamou, eu tive que parar no meio do ano e vim pra cá trabalhar.O caçula que é
meu irmão Paulo , que ainda estava no primário no sexto ano, e outro irmão que
estava no oitavo ano...como eles eram[sic] mais crianças, chegando no Brasil,
logo entraram na escola.
Ma: Vocês desembarcaram em Santos também?
Y: Chegava [sic] no
porto de Santos e ia para o interior, cidade de Tupã.
Ma: E lá vocês foram direto para os cafezais?
Y: Sim, fazia dois
anos que meu irmão estava lá.
Ma: Quer dizer que, para estudar vocês não tinham
oportunidades aqui?
Y: Pra mim [sic]
não... só meus irmãos mais novos estudavam.
Ma: o senhor quanto tempo lá em Tupã?
Y: Fiquei um ano só...
como eu tinha estudado um pouco lá no Japão Ciências Contábeis, eu tinha uma
noção de comércio e achava que ficar lá não ia dar em nada...meu irmão tudo bem,
ele tinha feito Agricultura, estava no ramo...aí eu e meu outro irmão viemos
para São Paulo tentar alguma coisa...aí consegui um emprego na Penha, num
estabelecimento de fotos, um estúdio né? Aí eu comecei a trabalhar como fotógrafo
aprendiz, então eu desci com parentes que me apresentaram outros fotógrafos em
Santos, na “Foto Gonzaga”... trabalhei com eles uns cinco anos mais ou menos,
quando abriu o Jornal Cidade de Santos...
Ma: O senhor foi trabalhar lá?
Y: Me chamaram, como
eu era fotógrafo e trabalhava nesse ramo...fazia reportagens e tudo, fui
trabalhar lá no jornal...até me mandaram para o Paraguai a serviço sem falar
português.
Ma: Ah... era isso que eu queria saber, a dificuldade com
a língua!
Y: Muita dificuldade
no começo... também na alimentação. Esse trabalho me marcou muito, foi em 1968,
houve um tornei no Paraguai e eu fui representando o jornal Cidade de Santos, o
time do de Voleibol do Clube Internacional de Santos foi jogar lá... fui
escolhido como jornalista fotógrafo...aí a Tribuna também mandou o José
Herrera...nós dois fomos juntos, eu fotografava os jogos e com a ajuda de um
fotógrafo de Assunção que me comprava os jornais, e eu recortava de noite todas
as notícias e mandava tudo pelo avião.
Ma: O senhor tinha que se virar na marra?
Y: Na marra...!!!
Ma: O senhor trabalhou quantos anos como fotógrafo?
Y: 38 anos de
profissão.
Ma: Então o senhor se aposentou?
Y: Sim... já.
Ma: Eu queria perguntar sobre a tradição, porque vocês
têm uma cultura muito forte no Japão e o que o senhor pensa disso, da tradição
japonesa? Vocês ainda mantêm essa tradição aqui no Brasil?
Y: No meu caso, por
exemplo, estou afastado da família há muito tempo, nossa família ficou em São
Paulo, freqüenta muito uma Associação de descendentes de Okinawa, eu como vim
sozinho tentar a vida aqui em Santos, quase não tinha contato e só trabalhei
muito como fotógrafo e não tinha tempo para outras coisas.
Ma: Mas aqui em Santos o senhor vai às festas e reuniões?
Y: Eu vou [sic] nas
comemorações do Atlanta, onde freqüentam o pessoal da ilha e Okinawa.
Aqui
em Santos o Sr. Yassuo desenvolveu seu olhar para captar imagens e por anos
este foi seu ofício. Por vezes sem poder se comunicar verbalmente, conseguiu se
expressar através da lente de uma câmera, fazendo dele uma figura perseverante
respeitada e única em nossa cidade.
Entrevista com a Sra. Maria Elisa
Kanashiro, dia 22/06/07
Em 1937, nascia em Santos, Maria
Elisa Kanashiro, terceira filha de quatro irmãos. Filha de mãe nissei e pai
japonês; cresceu nos arredores da Vila Mathias, de onde guarda fortes
recordações de sua infância e de sua mãe, que viúva muito cedo necessitou
vender verduras pelo bairro. Atualmente Elisa preserva os costumes de sua
família, tanto como esposa e quanto como mãe, sendo peça fundamental na
preservação da tradição japonesa em sua casa.
*Ma: Marise Escobar
(entrevistadora)
*E: Maria Elisa Kanashiro
(entrevistada)
Ma: Seus pais são japoneses?
E: Só meu pai era
japonês, minha mãe era nissei; ela nasceu em Itanhaém...ela só falava japonês
porque meus avós eram japoneses.
Ma: Quando seu pai veio para o Brasil?
E: Meu pai veio no
final da década de 20, ele era de Okinawa...aqui ele veio trabalhar como
encerador de assoalho. Fazia esses serviços em casas...(sic)antigamente era
tudo assim.
Ma: Que lembranças você tem de seus pais?
E: Do meu pai eu não
me lembro...minha mãe dizia que eu era muito apegada (sic) com ele. Meu pai
faleceu com 35 anos... eu só tinha 3 anos...minha mãe era do lar, quando meu
pai faleceu deixou 3 filhos, sendo que ainda estava grávida...lembro de minha
mãe vendendo verduras com tabuleiro na cabeça...nunca me esqueço(sic)...ela
grávida...ela trabalhava com um tabuleiro...ela pegava as verduras no mercado
municipal e saia com o tabuleiro na cabeça, depois com muito sacrifício comprou
uma barraca na feira.
Minha
mãe nunca mais casou...criou a gente. A gente só teve o curso primário(sic)...a
gente não podia estudar muito.
Ma: Que influências da cultura japonesa você teve ao
longo de sua vida?
E: Na religião, minha
mãe preservou (sic) a religião de Okinawa. Minha mãe continuou a cultuar os
antepassados...mas só o filho homem mais velho da família é que tem o dever de
cultuar. Minha mãe continuou fazendo o culto...para passar para meu
irmão(sic)...mas meu irmão tinha que ser, pois era o mais velho, mas ele não
quis. Eu quando casei continuei a cultuar por causa do meu marido que é o mais
velho.
Ma: Na cultura japonesa o filho mais velho tem o dever e
responsabilidade de cuidar dos pais e do resto da família. Se o mais velho
renegar, o seguinte pode assumir?
E: Não...só o mais velho, senão morre ali a tradição, porém
no culto dos antepassados estou cuidando de cinco antepassados. Eu queria
passar essa tradição para o meu filho mais velho...mas ele não quer mais continuar.
Ma: Como é esse culto?
E: Fazemos oferendas para as pessoas(antepassados)em seus
aniversários de morte, de acordo com o que elas gostavam e nos dias um e quinze
de todos os meses dá-se o café da manhã.
Ma: Você não aprendeu a língua?
E: Eu fui aprender o japonês, mas eu não quis continuar
porque é muito difícil. Mas o meu irmão fala e minha sobrinha dá aula de
japonês.
Ma: Que outros costumes você aprendeu?
E: Um pouco de uma dança com meu tio, isso quando
criança...apanhei muito na mão com aquelas varas de bambu por não saber virar a
mão nos ensaios de dança com o quimono, porque tinha uma maneira certa de
movimentar as mãos.
Ma: Você aprendeu a culinária japonesa?
E: Minha mãe fazia mais arroz, feijão e verdura. Hoje eu
misturo tudo, é mais fácil e rápido de se preparar e meu marido gosta. Meus
filhos já preferem carne e batatas fritas, mas como eles estão no Japão, eu e
meu marido não comemos frituras.
Ma: E sobre a sua família, seu casamento e seus filhos?
E: Eu casei com 26 anos. Aí meu sogro veio morar comigo,
porque a família dele tinha cinco mulheres e meu marido é o mais velho. O
casamento foi fora da tradição...casamos só no civil...tive quatro filhos,
todos homens...perdi dois filhos, um com 24 anos e outro com 26 anos. O caçula
morreu no Brasil, depois que veio do Japão. Hoje meus dois filhos moram no
Japão e já tenho netos, mas não os conheço pessoalmente, só por fotos e pelo
computador.
Ma: Quanto às festas tradicionais, quais você conhece?
E: A festa do casamento é uma das mais importantes, muitos
convidados e muita fartura. Lembro quando menina da mesa de uma noiva que os
enfeites era todos de origami e frutas, que representavam dois animais, a
cegonha para trazer a fertilidade para o casal e a tartaruga trazendo a
longevidade. A festa da primavera a gente sempre faz, aqui em Santos é em
setembro... seu símbolo é a Sakura( flor da cerejeira). Tem também no dia
primeiro de maio o Undo Kai...quando todo mundo se reúne para praticar alguma
atividade física, várias gincanas...no ano novo fazemos uma reunião com toda a
família pra romper o ano dentro de casa, para não trazer maldição. No dia
primeiro de janeiro, a primeira visita tinha que ser de um homem(sic)... homem
traz sorte para família...mulher não.
Ma: A sua família sempre morou em Santos?
E: Houve uma época que tivemos que fugir pra outra cidade,
não lembro porque era muito pequena, mas meu marido conta... em 1940 até 42
muitos japoneses tiveram que sair. Meu marido teve que sair...foi pra Marília.
Lembra das chácaras da ponta da praia? Foi nessa época. Tiveram que fugir de
Santos para Marília porque senão seriam mortos. Estocaram comida por medo, mas
nem puderam levar. Quando meu marido voltou vendia brinquedos de madeira na
praia...fazia baldinhos de lata para as crianças brincarem na areia e também
vendiam petecas.
Ma: Seus filhos brincaram com esses tipos de brinquedos?
E: Meus filhos só gostavam de autorama e vídeo game,
brinquedos mais modernos né?
Entre memórias e saudades, assim é Dona Elisa, que insiste em
sorrir sempre para a vida. Aprendemos com sua história, apesar de não ser
japonesa de nascimento, ela mantém as tradições nipônicas, garantindo a união
da família, mesmo que longe. Nas funções de mãe e mulher, ela é um exemplo de
dedicação e doação para os que ama.
Entrevista com a Sra. Alice Naka Hashimoto, dia 14/07/07
A Sra. Alice Naka Hashimoto é filha do Sr. Bungoro Naka, que no ano de 1908 chega no navio Kasato Maru para trabalhar nas fazendas de café do interior de São Paulo. Infelizmente seus pais já faleceram, mas como descendente, lembra de muitas passagens interessantes da vida e das dificuldades que os primeiros imigrantes enfrentaram.
*Ma: Marise Escobar (entrevistadora)
*A: Alice Naka Hashimoto (entrevistada)
Ma: A senhora é descendente de imigrantes japoneses?
A: Sim, meu pai veio porque na época o Brasil precisava de mão-de-obra na lavoura de café, então eles vieram... Principalmente do lugar do meu pai... Da ilha de Okinawa. O maior número de imigrantes era da Ilha de Okinawa, lá estava muito ruim.
Ma: Eles vieram para qual fazenda?
A: Fazenda eu não sei... Sei que todos desceram aqui em Santos e ficaram aqui numa hospedaria e daqui foram para São Paulo e depois para a fazenda.
Ma: O seu pai já estava casado?
A: Não. Ele veio com 21 anos.
Ma: Os seus pais se conheceram aqui?
A: É, minha mãe é do segundo casamento... O primeiro casamento meu pai teve 3 filhos, aí ficou viúvo...depois casou com minha mãe.
Ma: Quanto tempo ele ficou na fazenda?
A: Não sei... Ele veio direto pra Santos trabalhar no negócio de pesca né? Ele trabalhava num barco pequeno, em alto mar e pescava sardinha.
Ma: Ele vendia o peixe lá no entreposto?
A: Não, naquele tempo se entrava aqui na rampa do mercado e tinha que tirar os mastros para poder entrar...(sic) Daí ele descarregava o peixe e punha gelo para vender. Depois com a construção do entreposto de pesca lá na ponta da praia ele teve que comprar um barco maior... Ele comprou dois.
Ma: A vida inteira dele foi trabalhar na pesca?
A: É, aí então ele tinha dois barcos de camarão, até a pesca ficar ruim... Ele teve que vender tudo.
Ma: Ele se casou da primeira vez e ficou viúvo?
A: Sim, já tinha três filhos quando casou com minha mãe.
Ma: Sua mãe é japonesa também?
A: É também.
Ma: Teve mais quantos filhos depois?
A: Teve 2... Eu e meu irmão.
Ma: Ele continuou com a pesca depois?
A: Não... Daí veio a segunda guerra e tiveram que sair daqui.
Ma: Foram para onde?
A: Como ele tinha irmão que morava no interior, perto de Ribeirão Preto... Eles foram para lá e nós ficamos aqui... Porque eu tinha irmão maior de idade, nós pudemos ficar, e os barcos, meu irmão cuidava. Foi só meu pai e minha mãe que foram.
Ma: Eles que tinham que sair, os descendentes não?
A: O negócio era assim... O meu pai era naturalizado brasileiro, para poder trabalhar com o barco. Para continuar com o barco funcionando tinha que ter óleo diesel e mesmo naturalizado, na época da guerra, eles não vendiam pra ele...(sic). Ele teve que comprar no câmbio negro. Então, foi assim até que prenderam ele (sic)... Por causa disso. Ele precisava sustentar a família, como todos iriam comer?
Ma: Ele ficou lá no interior até acabar a guerra?
A: É, aqui nós vivemos vida normal... Eu estudava no Colégio “Coração de Maria” e era a única nissei da escola. Ninguém ficou aqui com filho pequeno. Por exemplo, a família do meu marido, foi uma que saiu só com a roupa do corpo.
Ma: Isso aconteceu com muitas famílias?
A: É, depois eles só falavam japonês e tiveram que sair todos.
Ma: A senhora fala japonês também?
A: Não.
Ma: Seus pais não lhe ensinaram?
A: Não, meus pais só falavam em português com a gente, porque ele trabalhavam no barco de pesca e só lidavam com os tripulantes, que também falavam só português... Os caiçaras.
Ma: Para eles, que eram japoneses, isso foi uma quebra de cultura?
A: É, lá em Okinawa, o povo é mais alegre e mais fácil de adaptar em outros lugares. Os meus pais eram de Okinawa, já a família de meu marido era da ilha maior do Japão. A cultura era diferente, língua diferente. O povo da ilha maior conserva mais a tradição, enquanto que os de Okinawa são mais fáceis de se adaptarem ao lugar onde vivem.
Ma: Seus pais trouxeram as tradições japonesas para cá?
A: Não, veja eu tenho 74 anos, sou católica e minha mãe me batizou com cinco anos, eles conservaram a religião que escolheram.
Ma: Eles freqüentavam algum clube ou associação de imigrantes?
A: Não, por causa da guerra, muitos foram embora, depois com o tempo começaram a voltar, sabe? Aqui em Santos não existia nenhuma associação naquela época.
Ma: Sobre as festas do centenário, vocês vão participar?
A: Bom, nos 50 anos da imigração, meu pai recebeu um diploma do irmão do “Imperador Hiroito”, que veio para as festividades aqui no Brasil. Teve uma festa muito grande no “Clube Atlético”. Foi muito bonito. As pessoas me procuram muito, porque meu pai veio no Kasatu Maru.
Ma: Deve ter sido difícil para os que chegaram primeiro para se adaptarem aos costumes?
A: Sim, muito.
Ma: Esse foi o primeiro impacto?
A: Ah sim, para todos. Porque minha mãe foi para o interior, casou lá, teve filhos, ficou viúva e sem ajuda de ninguém, voltou pra Santos. Veio trabalhar na casa de meu pai, cuidando dos filhos dele... Depois se casaram, teve mais dois filhos. Minha mãe foi uma lutadora; meu pai ficava até 15 dias fora, no barco, pescando e minha mãe, com todos esses filhos, ainda saía, comprava melancias, cortava, fatiava, colocava num tabuleiro e ia vender no mercado. Depois começou a fazer comida de pensão para os japoneses que não se acostumavam com a comida brasileira.
Dona Alice diz que não tem história, mas como podemos comprovar, ela é um relicário de historias da imigração japonesa. Hoje, rumo ao centenário, ela nos presenteia com essa rica herança deixada por seus pais.
Entrevista com a Sra. Vilma Kaminari, dia 09/07/07
A Sra. Hideko Kaminari, também chamada de Vilma é filha de Kishiro Yanaguisawa, sendo o primeiro administrador da chamada “Colônia Katsura”, primeiro Núcleo de Iguape, desde 1913, no Sítio Jipovura. Ela nos conta suas recordações da infância e adolescência neste núcleo.
*Li: Lígia Helena Boppré (entrevistadora)
*Vi: Vilma Kaminari (entrevistada)
Li: Como é o nome da sua mãe e do seu pai?
Vi: Iki Yanaguisawa, mãe e papai Kishiro Yanaguisawa.
Li: Vieram do Japão para o Brasil?
Vi: Sim.
Li: Vieram direto para Iguape ou pararam em outra cidade?
Vi: Vieram para plantação de arroz, em Jipuvura, em Iguape.
Li: A senhora lembra se eles tiveram alguma dificuldade quando chegaram aqui?
Vi: Papai falou que quando ficou doente, nunca esquece, queria comer um ovo e não sabia falar, então fazia gesto com as mãos em formato de ovo e cacarejava.
Li: Ele ficou doente aqui ou no navio?
Vi: Aqui no Brasil, pegou maleita (febre amarela). As dificuldades eram muito grandes. Tinha um padre chamado Guilherme, que vinha de cavalo, e levava uma semana pra chegar ao sítio, vinha de São Paulo.
Li: Ele prestava assistência para as pessoas daqui?
Vi: É, porque todos tinham dificuldade de falar o português, parecíamos uns bichos do mato. Daí papai era muito amigo do Padre. [sic] Papai falava... “Olha esse padre fez grande sacrifício para nos ajudar e fala muito sobre a Bíblia, então eu poderia me batizar como eu sou o cabeça do núcleo, os outros viriam atrás também”.
Li: No Japão as pessoas tinham outras crenças, quando chegaram ao Brasil converteram-se ao catolicismo?
Vi: É, depois disso todos se batizaram na Igreja Católica... Eles construíram a igreja lá no Sítio Jipuvura, foram esses da Associação Japonesa. Ali eu fui batizada e todos se casaram.
Li: A colônia japonesa era grande?
Vi: Era... era.
Li: Estudaram aqui o japonês?
Vi: Eles construíram uma escola, um clube, [sic] né? E perto da Capela, um campo de futebol; faziam brincadeiras, gincanas também. Eles montaram um engenho, moinho de arroz, tinha três vendas de secos e molhados, vendia carne, roupas, tinha correio, tinha pensão, porque os professores não tinham onde pousar. O barco entrava para levar banana, arroz. Quando eu já estava na escola, com seis anos, já tinha aquele vapor que subia, que nem ônibus, até Chiririca (Eldorado); Juquiá, tudo pra lá [sic].
Li: Os seus pais vieram com que idade pra cá?
Vi: Recém-casados. Todos os filhos nasceram aqui. Meus pais tiveram quinze filhos e depois meu pai fazia pinga, plantava bastante cana, e a pinga chamava “Mourão Ribeira”, e a gente trabalhou enchendo garrafa.
Li: A senhora nasceu em que ano?
Vi: 1934.
Li: A senhora lembra-se da época da guerra?
Vi: Ah! Coisa muito ruim [sic] né? Porque os brasileiros diziam “vamos pegar vocês”.
Li: Como foi a relação com os brasileiros durante o período da guerra?
Vi: Nossa! Sofremos muito; minha mãe tava [sic] grávida da última filha; quem era japonês tinha que sair, nós éramos todos pequenos. Daí meu pai tinha muito conhecimento e tinha um médico que era nosso amigo, ajudou e nós não precisamos sair. Chamavam a gente de “Quinta coluna” né? Não sei que sentido tem isso aí, tinha medo mesmo.
Li: A senhora casou com que idade?
Vi: Eu tinha 21 anos.
Li: como é o nome do seu marido?
Vi: Paulo Takachi Kaminari.
Li: Então seu nome ficou Vilma Kaminari?
Vi: Não, meu nome em japonês é Hideko Kaminari, mas todos me chamam Vilma.
Li: A senhora casou em que ano?
Vi: Em julho de 1955.
Li: Veio morar aqui em Iguape ou ficou lá em Jipuvura?
Vi: Não, morei sete anos no Paraná.
Li: O seu marido era de lá?
Vi: Sim, depois de 1960, vim morar pra cá e estava com quatro filhos, daí tive mais cinco filhos aqui, então são nove.
Li: O seu pai ensinou japonês pra vocês?
Vi: Até os meus irmãos mais velhos estudaram com meu pai; eu tinha seis anos e não aprendi, mais quando fui para o Paraná eu estudei japonês, agora já sei ler e escrever em japonês. Até fui pro Japão.
Li: Os seus filhos também sabem japonês?
Vi: Só os que estão no Japão.
Li: A senhora tem parentes no Japão?
Vi: Só os primos, os tios já morreram todos. Só os meus filhos que foram pra lá também.
Li: Os japoneses têm várias festas tradicionais, vocês ainda comemoram alguma?
Vi: O ano-novo é muito comemorado.
Li: Mas vocês comemoram no estilo brasileiro?
Vi: Agora mais no estilo brasileiro. Natal, Páscoa.
Li: As festas da primavera que são famosas, vocês não comemoram aqui?
Vi: Não. Tem um passeio, excursão pra ver a cerejeira, mas tá [sic] acabando essas coisas.
Li: Como as famílias de vocês vieram para Iguape, lá do Jipuvura?
Vi: Minha família veio pra cidade por causa do comércio da pinga. Por causa do meu irmão que vinha pra engarrafar a pinga aqui na cidade, todos nós viemos pra ajudar.
Li: A Fábrica era lá?
Vi: Era, mas agora já vendeu né?
Li: Seu pai já faleceu?
Vi: Sim com 86 anos.
Li: E sua mãe?
Vi: Minha mãe morreu com 98 anos e o meu tio com 99.
Li: Vieram todos juntos do Japão?
Vi: Sim, meu tio veio com papai e mamãe. Ele trabalhou no Rio de Janeiro, de copeiro no Palace Hotel.
Li: A festa do seu casamento foi no estilo japonês?
Vi: É, porque os homens querem fazer o deles né? Uma semana antes foi no civil, na casa de minha irmã. Depois o casamento na igreja e depois a festa foi lá na casa do noivo também japonês.
Li: A festa tem alguma característica diferente?
Vi: A gente usa uma árvore forte, centenária, como é o bonsai, tipo árvore pinheiro, árvore de natal. Depois aquele bicho, tartaruga, que vive muitos anos. É como um presépio com todas essas figuras que significam muitos anos de vida e prosperidade para o casal. Naquele tempo não tinha Champanhe, tinha saque para tomar e fazer brinde.
Li: A senhora casou de vestido de noiva?
Vi: Sim, de traje normal de brasileiro, a única coisa é que levei um cordão de filha de Maria no pescoço.
A Sra. Vilma Kaminari faz parte de uma família que marcou a história da presença japonesa na cidade de Iguape, conhecendo muito dos vestígios dessa história, que narra em fragmentos, deixando testemunhos de como a primeira colônia japonesa do Brasil se solidificou.
Relato da entrevista com o Professor José Adelson, dia 16/08/07
O Prof. José Adelson é um entusiasta quando se trata de Cultura Japonesa. Desde 2002, leciona Língua Japonesa em algumas instituições de ensino da Baixada Santista. É o primeiro professor de japonês não NIKEI (Japonês). É também Oficial de Justiça aposentado, classificador de café e nas horas vagas é jogador de Gateball no “Clube Estrela de Ouro”.
José Adelson nos surpreende com sua alegria e entusiasmo ao falar sobre a Cultura Japonesa e a influência que ela tem sobre sua vida.
Desde pequeno, quando morava na Ponta da Praia, especificamente na Capitania dos Portos, onde seu pai trabalhava, teve o contato com os imigrantes japoneses que se instalaram naquela área; assim como pescadores e chacareiros, iniciando assim a paixão pela língua e cultura japonesa.
Quando adulto conheceu uma professora de japonês; isso faria com que fizesse o primeiro curso sobre a língua.
Em 1990, foi em viagem para o Japão, um sonho realizado, pois foi o único brasileiro não descendente a ser convidado na Comitiva da Família Real Japonesa. A viagem foi realizada a convite do Governo Japonês. O professor Adelson desembarcou em Nagazaki, onde acabou sendo considerado amigo da cidade de Nagazaki.
Em 1996, inicia aulas particulares no “Kosei Home”, onde ensinou japonês aos filhos de imigrantes e por uma questão de preservação da cultura, todos os recursos eram doados a Casa de Reabilitação.
Nos últimos anos Sr. Adelson descobriu o seu gosto por escrever e principalmente divulgar a Cultura Japonesa, focando a cidade de Santos e, às vezes, fatos não revelados no Brasil; passa a escrever alguns artigos em jornais locais.
Comentando sobre o que é ser professor de japonês, e ser brasileiro, ele brinca: “no início foi muito diferente, quando entrava na sala de aula... será que vai dar certo? Mas eu já dizia... sou um japonês de Okinawa [se referindo a ser diferente dos japoneses mais tradicionais e também por ser negro], o idioma não se prende a uma sala de aula, ultrapassa a sala, aprendemos com os alunos também”.
No Japão, o aluno para aprender o idioma, tem que estudar 12 anos, porque o idioma compõe-se de três tipos de grafia e dois alfabetos: O Hiragana, o Katakana (eles usam para palavras estrangeiras); e um alfabeto de Ideogramas (Kandi), ideogramas oriundos da China e introduzidos no Japão, no séc. VI.
Toda trajetória dessa paixão é registrada e guardada em seus álbuns, que testemunham diferentes aspectos da presença japonesa em Santos.
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