A instalação de uma usina siderúrgica no Ceará está se tornando uma novela sem fim, para azar dos investidores e da própria população do Estado, que poderiam ganhar muito com o surgimento de mais de 3,6 mil empregos e lucros acima de US$ 40 milhões anuais, mas precisa aguardar a definição do impasse entre Petrobras e os empresários que estão bancando o projeto.
Esse clima de “vai-não-vai” deve-se à tarifação do preço a ser pago pelo gás natural usado como base para a produção do aço no complexo, previsto para ser instalado no Porto de Pecém e que aumentaria consideravelmente a capacidade de escoação de cargas no cais local. Os empresários querem que o valor do gás seja de US$ 2,44 por milhão de BTU, enquanto a Petrobras pretende reajustar a tarifa para até US$ 5,90 por milhão de BTU, mais que o dobro do previsto originalmente e que inviabilizaria qualquer negócio.
Até mesmo por isso, o financiamento para a Ceará Steel, nome escolhido para essa empresa siderúrgica, ainda não foi liberado de forma definitiva pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O grupo de investidores, formado pelos grupos Danieli, da Itália, Dongkuk, da Coréia do Sul, Vale do Rio Doce, do Brasil, e o próprio governo cearense, já pensa em trocar a matriz energética do gás natural para o carvão.
O objetivo é ampliar a capacidade de produção de aço e fugir do impasse que se tornou a fixação do preço do combustível gasoso por parte da Petrobras, que quer aumentar a tarifa de qualquer maneira para cobrir os prejuízos recentes na Bolívia, onde suas instalações de produção de gás natural foram nacionalizadas do dia para a noite pelo presidente boliviano Evo Morales.
O Governo Federal, em seus diferentes setores, tenta justificar o atraso no início dos trabalhos da seguinte forma: o objetivo de tanto estudo e demora é aumentar a capacidade original da Ceará Steel, passando de 1,5 milhão de toneladas de aço exportadas para 4 milhões de toneladas por ano. No entanto, vale lembrar que o BNDES liberaria, originalmente, R$ 341,8 milhões para a construção do complexo siderúrgico no Porto de Pecém.
E com a possível substituição do gás pelo carvão, o valor deve subir. Entretanto, não se sabe quanto de dinheiro será liberado, nem quando isso vai sair do papel. A preocupação pode ser medida pelo recente encontro entre o executivo da DongKuk, Mauricio Chu, e o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), que chegaram a conversar, inclusive, sobre a possibilidade de uma outra empresa siderúrgica ser formada, deixando de lado o projeto baseado no gás e apostando no carvão mineral desde o início, com investimentos que ultrapassariam os R$ 3 bilhões.
Enquanto nada se resolve, quem perde com esse jogo de “empurra-empurra” é a população do Ceará, que fica sem empregos, os trabalhadores portuários avulsos cearenses, que teriam muito mais carga para embarcar no Porto de Pecém, e o próprio Estado, que deixa de lucrar milhões enquanto a decisão final sobre o preço do gás não sai do papel, uma prova de quem, em alguns casos, nem mesmo a profissionalização das gestões públicas resolve certos impasses no Brasil.
Website: www.cearaportos.ce.gov.br