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Texto publicado em 04/09/2007 - 00:07
Navios brasileiros e os cruzeiros (2)
por Laire José Giraud *

No artigo da semana passada foi mostrada a oportunidade perdida pelo Brasil em se tornar uma nação proprietária de navios de cruzeiros. Na matéria desta semana, vamos comprovar que poderíamos estar presentes neste setor do turismo e, para isso, vamos recordar um cruzeiro feito a bordo do navio de passageiros Almirante Alexandrino do Lloyd Brasileiro, no longínquo ano de 1950, conforme informações recebidas do amigo Julio Augusto Rocha Paes, que por sua vez, as recebeu do já falecido agente de viagem, Valdomiro Villaça Filho, com quem mantinha grande amizade.

 

 
O agente de viagem Valdomiro Villaça Filho (já falecido), foi um dos

muitos brasileiros que fizeram cruzeiros pelo Brasil em navios do

Lloyd Brasileiro, como o realizado em 1950 a bordo do Almirante

Alexandrino, aqui visto entrando em Santos no final dos anos 40.

Acervo: L. J. Giraud

 

O Famoso Almirante Alexandrino

Um cruzeiro marítimo é para sempre. Mesmo depois de meio século, as imagens permanecem na memória de quem já experimentou navegar em um transatlântico. Ainda mais se a viagem aconteceu na década de 50, época de ouro dos navios de passageiros, quando os grandes empresários dividiam espaço com políticos, artistas e outras personalidades.

 

O Almirante Alexandrino, um navio do Lloyd Brasileiro, que na metade do século freqüentava o Porto de Santos, fazia parte de uma série de navios alemães, apreendidos pelo Brasil em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial. O seu nome anterior era Cap Roca e navegou sob a bandeira brasileira até meados da década de 60, quando as grandes excursões marítimas deram lugar, definitivamente, às viagens aéreas.

 


O Almirante Alexandrino, anteriormente foi o alemão Cap Roca,

construído em 1900. Tinha capacidade para transportar 80 passageiros

na primeira classe e 500 na terceira. Media 125,32 m de comprimento.

Acervo: L. J. Giraud

 

O agente de viagem Valdomiro Villaça Filho, foi um dos muitos brasileiros que conheceram bem o Almirante Alexandrino. A sua primeira viagem, de Santos a Manaus, quando tinha 12 anos de idade, demorou nada menos do que 60 dias.

 

Ele recorda que as excursões da década de 50 eram bem diferentes dos cruzeiros de hoje, principalmente quanto à duração.

 

Naquela época, a viagem de Santos a Manaus chegava a demorar 60 dias, porque o navio fazia escalas em todos os principais portos da costa brasileira. Hoje, os cruzeiros demoram no máximo dez dias, e em regra, vão apenas de Santos a Buenos Aires (Argentina) ou de Santos a Salvador (Bahia).

 


A bordo do Raul Soares foram feitas muitas excursões organizadas

por operadoras de turismo nos anos 30. Antes era o Cap Verde, e no

final de sua carreira foi utilizado como navio-prisão na época da

revolução de 1964, tirando assim o brilho de um navio que muito fez

para o progresso do Brasil. A culpa não foi  do navio, mas sim, dos

homens que o utilizaram como cadeia flutuante. Acervo: L. J. Soares

 

Nos últimos anos, justamente devido à falta de tempo dos passageiros, as operadoras também passaram a realizar minicruzeiros, com duração de três ou quatro dias, indo normalmente até Itajaí ou Florianópolis (Santa Catarina), ou até Búzios, no litoral norte fluminense. Acho que, embora o Lloyd Brasileiro possuísse vários transatlânticos em sua frota, tanto a companhia estatal como outras famosas armadoras estrangeiras, não sabiam explorar essa atividade, naquela época.

 

Seguindo uma tradição, que vinha do início do século e continua até hoje, de batizar suas unidades com nomes de cabos, rios e montes, o navio construído em 1900 recebeu o nome de Cap Roca. Ele transportava 80 passageiros em primeira classe e cerca de 500 na terceira.

 


O D. Pedro II, que fazia par com o D. Pedro I, também era

utilizado para excursões pela costa do País. Aqui vemos o navio

atracado no porto de Recife.  – Década de 1930. Acervo: Edson Lucas

 

O transatlântico media 125,32 metros de comprimento; 14,72 de largura (boca), e 5,43 de calado; viajava a 12 nós (22,22 quilômetros por hora) e tinha arqueação bruta de 5.732 toneladas. Logo após a sua apreensão em território brasileiro, o navio recebeu o nome de Itu. Mais tarde, quando a posse se tornou definitiva, por indenização de guerra, foi rebatizado Almirante Alexandrino.

 

O mundo naquele tempo era uma festa, lembra Valdomiro Villaça. Em cada porto, havia recepções das autoridades e da própria população, orgulhosa de ver um transatlântico brasileiro, tripulado por brasileiros e com passageiros brasileiros passeando pelas costas do Brasil. Pois, no início da década de 50 o transporte de passageiros já era dominado por navios estrangeiros.

 

A bordo, a vida não era menos alegre, prossegue Villaça. As festas eram constantes, indo desde o Carnaval em alto-mar até os jantares de gala, acontecimentos sobretudo de cunho social.

 


Participantes da excursão Santos-Manaus de 1950, fotografados

no tijupá (a piso mais elevado do navio), do Almirante Alexandrino.

Foto do acervo da família de Villaça.

 

Por outro lado, embora pouco luxuoso, o Almirante Alexandrino não oferecia o mesmo conforto dos transatlânticos de hoje.

 

Por exemplo, não havia ar condicionado e, no Norte e Nordeste, o calor era tão insuportável que os passageiros faziam canudos de cartolina e os instalavam nas vigias (janelas), contra o vento, para aumentar a ventilação dos camarotes.

 

Às vezes, a viagem se tornava tão difícil que a escala se transformava em um oásis. O navio parava até 10 vezes antes de chegar a Manaus.

 


Foto dos alegres participantes,

cruzeiristas da época – 1950.

Acervo: Família Villaça.

 

Já o corretor de imóveis Julio Costa Paes, que morou em Santos trabalhando na importação de carvão, é um apaixonado por pintura e modelismo. E grande parte de sua arte está imortalizada em veleiros e navios.

 

Mas ele também é um colecionador de relíquias. Tem postais raros e um arsenal de histórias, como a de Villaça, retratando o esplendor da época, em que o transporte de passageiros era parcela muito importante do transporte marítimo.

 

Segundo Paes, os encontros informais, os seminários, feiras e leilões dos quais participa também servem para garimpar histórias.

 


Foto dos oficiais do Almirante Alexandrino, tirada durante a

viagem de 1950, rumo a Manaus. Acervo: Família Villaça

 

E não existe nada mais obsessivo do que pesquisar os acontecimentos por intermédio de antigos álbuns fotográficos.

 

Colecioná-los, tem o seu lado positivo, entre eles o aumento do conhecimento e o abrir de um grande leque de amizades entre colecionadores, pesquisadores, historiadores e amantes das imagens que ficam congeladas no tempo.

 

No dia 27 de junho de 1900, o navio alemão Cap Roca, que viria a terminar os seus dias como Almirante Alexandrino, no Rio de Janeiro, saía do Porto de Hamburgo (Alemanha), em viagem inaugural para o Brasil.

 


O comandante e passageiros festejam o carnaval de 1950. No

centro da foto, o menino Valdomiro Villaça. Acervo: Família Villaça

 

O transatlântico pertencia à poderosa armadora Hamburg-Sud, que naquele ano colocou três navios semelhantes – Cap Verde, Cap Frio e Cap Roca – no serviço regular entre os países da Europa e os da América do Sul.

 

Esses navios reservaram grandes espaços no transporte de pessoas , tanto para atender aos mais afortunados, que descobriram os prazeres das viagens marítimas, mas também para atender à crescente demanda de imigrantes europeus, com destino à América.

 

Durante a Primeira Guerra Mundial, assim que o Brasil entrou no conflito, declarando guerra à Alemanha, o Cap Roca foi aprisionado no Porto do Rio de Janeiro, passando a fazer parte das forças aliadas, com o nome de Itu.

 


Fotografia do último navio de passageiros do Lloyd Brasileiro a passar

por Santos em 02 de abril de 1998, o Odysseus, ex-Princesa Isabel.

Foto: L. J. Giraud

 

Mais tarde, em 1926, bem depois de terminado o conflito, o navio foi transferido para a frota do Lloyd Brasileiro e rebatizado de Almirante Alexandrino, sob o qual navegou até meados da década de 60.

 

Em 1966, finalmente foi desativado e desmontado por um estaleiro do Rio.

* Laire José Giraud é despachante aduaneiro, colecionador de cartões-postais da cidade de Santos e de transatlânticos antigos. Colaborador da Revista de Marinha de Portugal. Publicou cinco livros, como autor e co-autor, sobre temas da Santos antiga.
Comentários ( 8 )
Enviado por Roberto Dieckmann em 04/10/2007 (Rio)

Em 1974, fiz uma viagem de Manaus para Belém, em barcaças, que formavam um comboio e eram tracionadas, a contra-bordo, pelo navio Almirante Alexandrino, então anunciado como de 1905. Como é conflitante com o anúncio do desmanche de 1966, pode tratar-se de outro navio, mas resolvi comentar.
Enviado por EDUARDO GOMES REGRA em 15/06/2008 (novo hamburgo rs)

Foi grande satisfaçao que encontrei este site . Vou explicar porque minha mae andou cou este navio quando morava na alemanha e existia uma oportunidade de quem tivesse um brasileiro na familia ganharia passagem pra retornar ao Brasil . Quer dizer minha mae fez parte da historia deste navio tambem eu gostaria de receber alguma resposta deste comentario OBS , MINHA MAE ESTA VIVA UM ABRAÇO
Enviado por laize em 04/04/2009 (sao luis)

o navio almirante alexandrino fez parte da vida de meu pai, ele atracou no estado do pará, onde se encontrava toda a nossa familia siqueira.
Enviado por Monika Ana Greiter Geller em 25/09/2009 (cruzalia)

Obrigada pelo belo relato a respeito do navio Almirante Alexandrino. Ele faz parte da minha vida já que meu pai e avós chegaram em 27 de Junho de 1927 no porto de Santos vindos de Hamburgo à bordo desse navio. Estou escrendo a história de meus antepassados e quero agradecer por disponibilizar informaçoes e fotos. Sou apaixonada por fotos antigas, Agora me resta pesquisar a lista de passageiros da época. Valeu e muito obrigada mesmo
Enviado por Paulo da Mata-Machado Jr. em 04/05/2010 (Brasília)

Caro Laire, gostei do seu texto sobre os antigos navios do Lóide Brasileiro. Um pouco antes da viagem relatada (1950), em setembro-dezembro de 1949, meus pais e nós, filhos, fomos do Rio até Manaus. Há alguns anos escrevi um relato da viagem. Fui ajudado por minha mãe (já que tinha, na época, apenas seis anos de idade), então viva e com excelente memória. Não publiquei ainda, mas se você quiser, posso mandar uma cópia. Mande um e-mail para mim. Paulo
Enviado por Ieda Palladino em 06/01/2011 (Rio de Janeiro)

Laire, estou escrevendo a monografia para o MBA de Turismo e gostaria de agradecer a sua memoria, pois os seus textos estão me ajudando muito. O sr. é a historia viva dos cruzeiros marítimos no Brasil contemporâneo. Quando estiver no Rio de Janeiro, me avise por e-mail, gostaria muito de conhecê-lo.
Enviado por Jose Roberto Camacho em 22/01/2011 (Uberlandia - MG)

Prezado Laire. Foi uma satisfação imensa encontrar em sua página na internet fotos do transatlântico do Lloyd Brasileiro o Almirante Alexandrino. Segundo o Memorial do Imigrante, este navio trouxe para o Brasil como imigrantes no início de 1929 os meus avós, pais de minha mãe. A viagem do porto de Vigo (Espanha) até Santos durou 22 e dois dias. Foi uma satisfação imensa ver fotos deste navio. Um grande abraço.
Enviado por emilio jose cavalcante em 02/06/2012 (manaus)

meu amigo (tomo essa liberdade ) para mim que pela primeira vez que entro nessa, foi uma surpresamuito grande ver novamente mesmo que por foto, famoso almirante alexandrino, pois essas imagens me transportaram de volta aos meus 10, 12 anos quando admirava aquele grande monumento atracado no porto de minha cidadezina de itacoatiara (Am). como tenho um sonho, e esse sonho envolve historia que relaciona o almirante, pedi ajuda para pesquisar o grande navio . hoje moro em manaus. parabens, parabens, parabens.


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