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  • Lembranças da Cidade de Santos
    Texto publicado em 06 de Novembro de 2007 -

    por Laire José Giraud *
     
     

    Muitas vezes ouvimos falar que o Porto e a Cidade de Santos estão intimamente ligados - o que é uma grande verdade, por razões óbvias.

     


    O belo transatlântico italiano Surriento atracando no Porto de

    Santos, em 1952, com grande número de imigrantes, dos quais muitos

    desembarcaram em Santos e outros seguiram para Montevidéu e

    Buenos Aires. Foto: José Dias Herrera – Acervo: Laire José Giraud

     

    Algumas pessoas questionam: “Qual é a ordem correta? A Cidade do Porto de Santos ou o Porto da Cidade de Santos?”. A resposta fica por conta de cada um, pois cada cabeça, uma sentença.

     

    Da minha parte, prefiro a segunda colocação, embora ambas sejam verdadeiras.

     

    O Porto sempre foi um grande manancial de trabalho, onde - dia e noite – homens e máquinas, lado a lado, trabalham incessantemente para o desenvolvimento e a grandeza de Santos.

     

    Por outro lado, a Cidade sempre possuiu muitas coisas interessantes que encantavam os turistas do passado, chamados popularmente pelos santistas como forasteiros.

     


    Cena do dia-a-dia, por volta de 1936, do Centro de Santos, entre a

    Rua General Câmara e a Praça Rui Barbosa. Notam-se os trilhos dos

    bondes, a loja Ao Preço Fixo, a Casa Teixeira e o Restaurante Adega

    Central. Reprodução: Fundação Arquivo e Memória de Santos

     

    Das coisas interessantes que menciono a seguir, algumas coisas cheguei a ver, outras não. Apenas ouvi falar, li ou pesquisei em obras:

     

    ·         o Almanaque de Santos, de Olao Rodrigues,

    ·         do poeta Narciso de Andrade,

    ·         escritos de Bandeira Júnior,

    ·         do professor Nelson Salasar Marques,

    ·         da professora Wilma Therezinha e

    ·         em livros que contam fatos ocorridos em Santos.

     

    Portanto, este texto é uma fusão de várias informações que permitiram a elaboração do artigo.

     

    Na realidade, o que lembro são coisas ocorridas a partir da metade da década de 1950 - quando eu era menino.

     


    O Parque Balneário Hotel, o mais famoso que Santos já teve,

    avistado em rara imagem de 1928.  Acervo: L. J. Giraud

     

    Dentre tantas coisas interessantes para serem visitadas e vistas, podem ser citadas:

     

    - nossas praias,

    - os lindos jardins à beira-mar,

    - as praças,

    - as igrejas,

    - a vista panorâmica do Monte Serrat,

    - os cassinos (Parque Balneário, Atlântico, Monte Serrat e Miramar, que funcionaram até 1946),

     

    Praia do Gonzaga, em cartão-postal datado de 1949, em frente ao

    local compreendido entre os Hotéis Atlântico e Avenida Palace.

    Acervo: L. J. Giraud

     

    - nossos restaurantes

    Marreiro,

    Paulista,

    Roma,

    Roof Belmar – este, muito freqüentado por meu pai, com vista panorâmica de toda a praia, ficava no prédio onde está hoje a conhecida Confeitaria Joinville,

    Atlântico - o mais charmoso de todos os tempos,

    Vasco da Gama,

    Jangadeiro,

    A Paulicéia - onde era meu ponto, no Canal 5 com a praia,

    Don Fabrizio,

    Casa Esperia,

    Adega Central,

    Leiteria São João,

    Florença - fundado em 1954,

    Ponto Chic,

    Guanabara,

    Cantina Firenze,

    Valentim,

    Rocky,

    entre outros;

     

    - os famosos cafés:

    Atlântico,

    Tourino,

    Carioca,

    Caravelas;

     

    - as nossas lojas:

    A Casa dos 2 Mil Réis (atual Lojas Americanas),

    Lojas Brasileiras,

    Tecelagem Francesa,

    Paraíso das Sedas,

    Casas Sloper,

    Ao Preço Fixo,

    Casa Lemcke,

    Casa Lido,

    Casas Teixeira,

    Bazar da China,

    Tapeçaria Schültz,

    Casa do Disco,

    Discopa,

    Lojas Semog,

    Lojas Gomes (conhecidas por vender ternos gelados, próprios para o verão),

    Casa Natal,

    o empório Ao Anjo Barateiro,

    Mercearia Carioca (cujo proprietário foi o sr. José Bento Silvares, pai do jornalista José Carlos Silvares),

    Camisaria Paris,

    Camisaria Americana,

    Sears, Roebuck - que foi a maior loja de Santos e a primeira a exibir uma transmissão de televisão na Cidade e tantas outras cuja memória me trai.

     

    Também se destacavam:

    - o Estádio Urbano Caldeira, do Santos Futebol Clube, no Bairro da Vila Belmiro, que foi o primeiro campo do Brasil a receber, em 1934, iluminação para jogos noturnos,

    - o campo do Americana,

    - o Estádio Ulrico Mursa, da Portuguesa Santista e

    - muitos outros pertencentes aos times da várzea.

     

    O cartão-postal mostra como era em 1950 o trecho compreendido entre

    a Praça da Independência e as Avenidas Vicente de Carvalho e Presidente

    Wilson. A fotografia permite avistar o Parque Balneário Hotel, o Atlântico

    Hotel, as palmeiras imperiais e um dos confortáveis ônibus do serviço

    coletivo de modelo Coach – GM, além de automóveis da época, como dois

    Ford de 1949. Acervo: L. J. Giraud

     

    Também não podemos nos esquecer dos nossos hotéis. Entre eles:

    - o Parque Balneário Hotel, o mais famoso,

    e os não menos famosos:

    - Atlântico Hotel,

    - Hotel Internacional,

    - Hotel Palace,

    - Hotel Martini,

    - Hotel Belvedere,

    - Hotel dos Bandeirantes,

    - Hotel Avenida Palace,

    - Ritz Hotel,

    - Santos Hotel,

    - Hotel Washington,

    - Hotel Riviera – que ficava na Ponta da Praia, próximo ao Museu de Pesca, e

    o maior concorrente do Parque Balneário , o Grande Hotel do Guarujá, que ficou também conhecido como Hotel De La Plage.

     

    Vale lembrar que no passado o hoje Município do Guarujá fazia parte do Município de Santos.

     


    Um dos inúmeros cargueiros da empresa norte-americana Moore-

    McCormack Line em operação de descarga, onde é visto o famoso

    guindaste Sansão descarregando uma locomotiva diesel para uma das

    inúmeras ferroviárias que operavam no estado de São Paulo. – Década

    de 1950. Foto enviada por Wanderley Duck

     

    Conta João Emilio Gerodetti, no livro: “Lembranças de São Paulo – O Litoral”, uma interessante reminiscência:

     

     “O litoral, para mim, sempre foi fonte de alegre expectativa e prazer. Quando criança, aguardava ansiosamente a chegada das férias escolares, ocasião em que ia com toda a família passar dois meses em Santos. Ficávamos anos sucessivos no Hotel Parque Balneário (em Santos), em São Vicente e num apartamento na Praia do Embaré (Santos). Estão gravados nitidamente na minha memória fatos daquela época que são revividos através das imagens”.

     

    Naquele tempo não havia televisão e quase todas as pessoas freqüentavam os cinemas.

     

    Assim, lembramos o

    Cine Atlântico,

    Cine Gonzaga,

    Cine Roxy;

     

    no Centro:

    Cine Teatro Coliseu e

    Cine Guarani,

     

    os cinemas de bairro, como:

    Cine Dom Pedro II,

    Cine Avenida,

    Cine Macuco,

    Cine Santo Antonio,

    Cine Carlos Gomes,

    Cine Paramount,

    Cine Bandeirantes e

    Cine Ouro Verde,

    entre outros.

     

    Imagem do cartão-postal de um domingo do início da década de 1950,

    com vista dos jardins e de duas pistas de tráfego, uma para automóveis

    e a mais clara, exclusiva para os bondes. Surgiam os arranha-céus,

    notando-se também grande número das mansões à beira-mar.

    Acervo: L. J. Giraud

     

    A partir de 1950, surgiu a TV Tupi. Naquela década surgiram os cines:

    Caiçara,

    Iporanga,

    Praia Palace,

    Independência,

    Itajubá,

    Indaiá,

    Glória e,

    nos Anos 60, o Brasília.

     

    Ah... e as confeitarias e casas de chá...

    ... Yara,

    Belas Artes,

    Paulista,

    Rosário e

    Orquídea.

     

    A famosa Casa Lencke mantinha um desses salões no último andar do seu prédio, que ficava na Rua João Pessoa, na esquina com a Riachuelo, no Centro

     

    Santos também foi a Cidade mais desportiva do Brasil, onde era praticada a maioria dos esportes.

     

    Nossas equipes de natação, de atletismo e de esportes coletivos, como vôlei e basquete, ficaram célebres pelas inúmeras vitórias conquistadas. Até cricket era praticado - no Santos Athletic Clube (Clube dos Ingleses).

     

    Cartão-postal da festa da Padroeira da Cidade de Santos, Nossa

    Senhora do Monte Serrat, cuja comemoração é em 8 de setembro.

    Na vista panorâmica, vê-se claramente o pequeno número de edifícios

    na orla em 1951. Acervo: L. J. Giraud

     

    Com tudo isso de positivo, sempre existiram pessoas negativas, que diziam: “Santos e o cais estão falidos”. Infelizmente para aqueles negativistas, a Cidade e o Porto de Santos continuam fortes e coesos. Isto é, o cais continua supermovimentado e batendo recordes de movimentação de mercadorias. A cidade continua esplendorosa e ostentando o maior jardim de orla do Mundo, reconhecido pelo Guinness Book of Records, com uma qualidade de vida exemplar, um vasto patrimônio histórico preservado e ainda o titulo de capital brasileira dos cruzeiros marítimos.

     

    Depois de tantas boas lembranças - não dá para lembrar nem citar todas - o leitor está convidado a entrar no túnel do tempo para um retorno ao passado e ver coisas da época e resgatar a Cidade de antigamente através de 10 imagens dos áureos tempos.

     

    Cartão-postal da Rainha das Praças de Santos, a Mauá, com a

    Prefeitura ao fundo e suas belas luminárias e jardins, bem diferentes

    dos dias de hoje – 1955. Acervo: L. J. Giraud

     

    Vamos, assim, brindar a Cidade do Porto de Santos com os versos do poeta Aristeu Bulhões.

     

    Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente, mas muitas vezes o via, sempre elegante, passar pelas ruas do Gonzaga.

     

    Terra de Santos

    Aristeu Bulhões

     

    Ó terra de Santos, festiva, formosa,

    Franjada de rosa, beijada de sol!

    É justo o prestígio que sempre tu ganhas

    Com tuas montanhas, teu lindo arrebol!

     

    As praias de espuma da cor do alabastro,

    Teu céu cheio de astros, jardins dando flor,

    E teus edifícios, que beijam estrelas,

    São paisagens belas, recantos de amor!

     

    Na Ponta da Praia, nas noites de lua,

    A balsa flutua, parece dançar...

    Faróis que cintilam nos barcos pesqueiros

    Projetam roteiros de luz sobre o mar...

     

    A estátua do Santo, na frente da Igreja,

    Momentos enseja de crença, de fé.

    E ali, Santo Antônio, falando aos peixinhos,

    Sugere carinhos e ajuda o Embaré.

     

    Também Boqueirão, que a todos enleia.

    Com praia que é cheia de encanto e magia,

    Um cromo nos lembra de infinda ternura,

    Mostrando a doçura que o mar irradia!

     

    Imagem do grande fotógrafo Boris Kauffmann, mostrando a

    esquina mais famosa de Santos, Avenida Ana Costa com a praia,

    com a decoração típica natalina, no Natal de 1955. Acervo: L. J. Giraud

     

    À noite, que o Gonzaga parece uma aurora

    Que a fonte aprimora com jatos de luz!

    José Menino abre as cortinas do sonho

    E ao mundo risonho da vida conduz...

     

    Assim vejo Santos – Cidade feitiço

    Que nos dá tudo isso sem nada querer

    Se não que o turista de novo a procure

    E, amando-a, murmure: “Eu volto a te ver!”

     

    * Laire José Giraud é despachante aduaneiro, colecionador de cartões-postais da Cidade e de transatlânticos antigos. Colaborador da Revista de Marinha de Portugal. Publicou cinco livros, como autor e co-autor, sobre temas da Santos antiga.
    Enviado por Laire Giraud em 13/11/2007  (Santos)
    Ernesto, foi a maior satisfação receber seu comentário que, também me trouxe grandes lembranças da nossa infância, quando cursavamos o _ primário no Instituto Andradas(meados da década de 1950), ali na Cons. Nébias com Av. Afonso Pena.Foi uma fase muito feliz da minha vida. Quanto aos bonde está tudo correto. Obrigado pelas doces recordações e um beijão para sua mãe e sua irmã. Um abraço sincero
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