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  • Porto e cinema

  • Hitchcock e o porto do suspense
    Texto publicado em 06 de Novembro de 2007 - 03h23

    por Alessandro Atanes *
     
     

    Uma vez escrevi como uma personagem de Jorge Luis Borges, Emma Zunz, vai ao porto como parte de seu plano para compor uma história convincente que parecesse com legítima defesa o assassinato que havia planejado. Nesse caso, o porto é um mercado de ofertas narrativas.

     

    I

    Na contramão desse função do porto, destacamos hoje um filme em que o porto é, além de lugar de transbordo de cargas, um local de passagem também de condição social de seus personagens. Em Marnie, confissões de uma ladra (1964), de Alfred Hitchcock, Tippi Hedrenn, que também foi a principal atriz de Os pássaros, interpreta a ladra do título, uma golpista que, sob nomes falsos, emprega-se em empresas para lhe aplicar calotes. Ela é elegante, bem vestida, polida e belíssima e não atrai suspeitas entre escritórios da área comercial da cidade de Maryland, nos Estados Unidos.

     

    Entre um e outro golpe, ela visita a mãe. Depois do assalto e de um passeio de cavalo (outro sinal “aristocrático” cultivado pela personagem), a imagem abaixo é a porta de entrada para um novo cenário, o lar da infância de Marnie, quando sua mãe costumava sair com marinheiros para conseguir sustentar a família.

     


    O cenário do porto de Maryland, EUA

    A partir daí, um táxi sobe a rua e Marnie desce do carro para voltar à casa da mãe na zona portuária, em que as meninas pulando corda na rua reforçam a cena de volta à infância.

     

    O retorno ao porto da infância

     

    O destino de Marnie se altera quando conhece Mark Rutland, personagem interpretado por Sean Connery, herdeiro de uma das empresas “visitadas” que sofreram o golpe. Rutland desconfia de Marnie desde o primeiro momento, mas apaixona-se pela ladra e ainda se casa com ela. Preocupado em desvendar os motivos que a levaram para esse caminho, Rutland inicia uma investigação sobre o passado da esposa que culmina em segui-la até a casa da mãe. É ali, no cenário portuário, que ele faz com que Marnie confronte o trauma de infância que a levou ao crime na vida adulta. Como num bom filme de suspense, e esse é um deles, o clímax do enredo ocorre durante um dia de chuva torrencial.

     

    Chuva e suspense no porto


    II

    Traçando as linhas acima percebi uma analogia entre a infância desamparada em Marnie, confissões de uma ladra e a infância em torno do porto em Querô, uma reportagem maldita (1975), de Plínio Marcos, romance cuja adaptação ao cinema foi lançada agora em 2007 (creio que eclipsado pelo fenômeno social de Tropa de elite). Do suspense de Hitchcock à denúncia social em Plínio Marcos, fica o porto enquanto espaço de uma infância perdida.

     

    Epílogo   

    Falando em cinema e porto, fechamos a semana com uma passagem do documentário A Odisséia Musical de Gilberto Mendes, em que o maestro criador do Festival Música Nova fala sobre sua juventude na Ponta da Praia, em Santos, e de como gostava de remar com amigos e conhecidos pela baía. Um navio, ao fundo, entra na barra em direção ao canal do porto e apita assim que o maestro termina a frase, como um ponto final sonoro marcando a fala do compositor.

     

    Quem sabe ouvir os apitos conhece a força dessa música!

     

    "Pegou isso?", pergunta o maestro após o apito

     

    Referências

    Mernie, confissões de uma ladra.

    Direção: Alfred Hitchcock.

    Elenco: Tippi Hedrenn, Sean Connery, Diane Baker, Martin Gabel.

    Universal, 1964.

     

    A Odisséia Musical de Gilberto Mendes.

    Direção, produção, roteiro e edição: Carlos de Moura Ribeiro Mendes.

    Berço Esplêndido, sem data.

     

    * Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.
    alessandroatanes@correios.net.br
    Enviado por Alessandro Atanes em 06/11/2007  (Santos)
    Site: www.portogente.com.br
    O primeiro parágrafo ficou truncado e peço desculpas aos leitores por isso. O correto é uma "história convincente que fizesse parecer legítima defesa um assassinato que havia planejado".
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