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  • Digno de filme

  • Vicente de Carvalho, cineasta
    Texto publicado em 29 de Janeiro de 2008 - 02h14

    por Alessandro Atanes *
     
     

    Horas mortas. Inverno. Em plena mata. Em plena Serra do Mar.

     

    A frase acima, de marcação acirrada, se parece com as indicações de cenas de um roteiro cinematográfico. Mas na verdade, este é o verso inicial de Fugindo ao cativeiro, poema já centenário de Vicente de Carvalho, incluído no volume Poemas e Canções (1908).

     

    Fugindo ao cativeiro, como o próprio nome entrega, relata uma fuga de escravos. Eles descem a serra com o objetivo de alcançar o quilombo do Jabaquara, em Santos, considerado por muitos pesquisadores um dos maiores que o Brasil já teve, ainda que de curta duração.

     

    E a narrativa do poema é mesmo cinematográfica. Dividido em quatro partes, ele começa com a apresentação do cenário. As imagens da serra são como tomadas gerais (“amplidões do horizonte”, “cordilheira”, “o chão corre às soltas”). É só na 28ª linha que começamos a perceber a presença humana entre moitas, cipós, e troncos.

     

    E em cada árvore altiva, e em cada humilde arbusto,

    Há contorções de raiva ou frêmitos de susto.

     

    A partir daí, o poeta muda a escala de observação. De majestosa, a vegetação passa a obstáculo do avanço do grupo:

     

    - Uma vegetação turbulenta e bravia

    Rasteja, alastra, fura, enrosca-se, porfia:

    Moitas de craguatás agressivos; rasteiras

    Tapoeirabas tramando o chão todo; touceiras

    De brejaúva, em riste as flechas ouriçadas

    De espinhos; e por tudo, e em tudo emaranhadas,

    As trepadeiras, em redouças balançando

    Hastes vergadas, galho a galho acorrentando...

     

    De ruídos e dificuldades continua o avanço. Só mais à frente é que o poeta nos apresenta seus personagens, já para lá da linha 60:

     

    São cativos fugindo ao cativeiro. O bando

    É numeroso. Vêm de longe, no atropelo

    Da fuga perseguida e cansada. Hesitando,

    Em recuos de susto e avançadas afoitas,

    Rompendo o mato e a noite, investindo as ladeiras,

    Improvisam o rumo ao acaso das moitas.

     

    Na segunda parte, meio caminho andado, o poeta aproxima ainda mais a sua lente e, do plano geral do bando em fuga, passa ao close que nos mostra a mãe que perde o filho, fraco, que não resiste ao frio da serra e ao esforço de sua ultrapassagem.

     

    Vai-lhe morrer, morrer nos próprios braços,

    Morrer de fome, o filho bem-querido;

    E ela, arrastando para longe os passos,

    O amado corpo deixará, perdido

    Para os seus beijos, para os seus abraços...

     

    O episódio cria a tensão necessária para a valorização da esperança, logo a seguir, na terceira parte, quando, amanhecendo, os olhos dos escravos reconhecem a planície litorânea, “clara, risonha, aberta, verdejante”, num verdadeiro contraste com o desconforto da selva. A partir daí, começa a “íngreme descida” pela “floresta espessa”. Mas descem rindo, felizes, sem lembrar que:

     

    Fica um pouco de trapo em cada espinho

    E uma gota de sangue em cada trapo

     

    Indícios que, desde o início da fuga, são o bastante para atrair os capatazes e seus cães. A aproximação da “soldadesca" é dramática:

     

    Foge... Rompendo o mato e rolando a montanha,

    Foge... E, moitas adentro e barrocais afora,

    Arrasta-se, tropeça, esbarra, se emaranha,

    Arqueja, hesita, afrouxa, e desanima, e chora...

     

    Até que um dos fugitivos, no clímax, entrega a vida com o objetivo de retardar o encalço. A batalha é violenta:

     

    Erguendo o braço, ele ergue a foice: a foice volta.

    E rola sobre a terra uma cabeça solta.

    Sobre ele vem cruzar-se o gume das espadas...

    “Ah, prendê-lo, jamais!” respondem as foiçadas

    Turbilhonando no ar, e ferindo, e matando.

     

    De lado a lado o sangue espirra a jorros... Ele,

    Ágil, possante, ousado, heróico, formidando,

    Faz frente: um contra dez, defende-se e repele

     

    E não se entrega, e não recua, e não fraqueja.

    Tudo nele, alma e corpos ajustados, peleja:

    O braço luta, o olhar ameaça e desafia,

    A coragem resiste, a agilidade vence.

     

    E, coriscando no ar, a foice rodopia.

     

    Não é uma luta digna de ser filmada? E assim ela continua até que o guerreiro, um homem, não um escravo, caia com um tiro de arma de fogo. Sua resistência é suficiente para que o resto do grupo, inclusive aquela mãe que perdeu o filho, chegue “na abençoada terra / onde não há cativos”.

     

    Referência

    Vicente de Carvalho. Fugindo ao cativeiro. In: Melhores poemas. Seleção de Cláudio Murilo Leal. São Paulo: Global, 2005.

     

    * Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.
    alessandroatanes@correios.net.br
    Enviado por sophie em 30/01/2008  (Santos)
    É maravilhoso a maneira como o Alessandro nos mostra o trabalho de nossos escritorores. Adorei.
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