Quando se fala em mulher na atividade portuária, a primeira palavra que vem à tona é preconceito. Afinal, se no setor administrativo já se tornou comum ver mulheres gerenciando empresas, ainda é raro ver trabalhadoras do sexo feminino desempenhando importantes funções na beira do cais. Entretanto, no Porto de Navegantes, em Santa Catarina, a jovem Marcela Harbs, de apenas 26 anos, tenta quebrar esse paradigma ao deixar de lado os olhares desconfiados e partir para a batalha diária, comandando equipamentos modernos no embarque e desembarque de contêineres.
Só por isso, a jovem catarinense já mereceria uma reportagem a seu respeito. Mas a sua história de lutas é bem extensa, o que a torna uma personagem rara, dotada de muita vontade de vencer na vida. Ela mesma conta que tentou trabalhar durante alguns anos no Porto de Itajaí, mas nunca conseguiu chegar perto dos grandes equipamentos. Mesmo procurando sindicatos e explicando seu desejo de entrar no ramo portuário, Marcela sentia as portas se fecharem cada vez mais.
“Eu estava no setor administrativo, mas adorava observar o pessoal trabalhando com os equipamentos modernos, sempre curti isso. Mas os sindicatos dificultavam minha vida, talvez por eu ser mulher mesmo, mas botei em minha cabeça que jamais desistiria dos meus sonhos. Se eu conhecia porto, o entendia plenamente, porque não poderia trabalhar nele, mas lá na base, junto com o pessoal?”.
Foi aí que a sorte da hoje operadora de equipamentos Marcela Harbs começou a mudar. Depois de traçar um objetivo de vida, ela viu que um novo porto surgiria ao lado de Itajaí. O anúncio dos investimentos da Portonave em Navegantes a fez abrir os olhos e despachar currículos, além de se informar sobre os tipos de cargas que lá seriam movimentadas. E o destino deu mais um empurrãozinho...
“Após um tempo, consegui conversar com pessoas ligadas ao Porto de Navegantes, que apoiaram a idéia de ter uma mulher lidando com os equipamentos modernos e caríssimos. Hoje, estou em treinamento e mexo até com transtêineres de última geração. Quando conto isso para minhas amigas, elas se assustam de cara, mas após eu repetir e explicar como e porque faço isso, me apóiam”.
Se em Itajaí ninguém se acostumava com a idéia de Marcela se tornar uma trabalhadora portuária, a coisa mudou em Navegantes. Sorte dela, que agora consegue ajudar nas despesas de sua casa. O marido, aliás, é uma das pessoas que mais apoiou a portuária na decisão de lutar contra o preconceito e não desistir da idéia de trabalhar em um cais. Casada e mãe de uma filha de seis anos, ela conta que o número de mulheres interessadas na atividade aumenta gradativamente em Santa Catarina.
“Aqui mesmo em Navegantes tem mais mulheres trabalhando no porto. E os cursos estão começando a inscrever mais jovens, que não se intimidam com o preconceito. Eu já sofri bastante e sei como é duro ter gente olhando torto para você só porque você é mulher. Pelo menos em casa nunca tive problemas, meu marido sempre me incentivou e minha filha fica feliz ao me ver chegar do trabalho, sempre. E olha que em casa, muitos acham que as profissões são trocadas, me divirto com isso. A mulher da casa é portuária e o marido é confeiteiro, e com uma mão ótima [risos]”.