O retorno das discussões sobre os atos de tortura praticados por agentes da ditadura militar é um bom motivo para uma nova discussão sobre as relações entre Literatura e História. Na coluna anterior (O porto lírico de Juarez Bahia), pude tratar dessa discussão a partir do livro Ensina-me a ler, romance de Juarez Bahia sobre um intelectual santista que chega à maturidade no período democrático entre 1945 e 1964 e, após o golpe, acaba preso no navio-presídio Raul Soares.
Consultando o Sombras sobre Santos, livro de Carlos Mauri Alexandrino e Ricardo Marques da Silva, verifiquei que o próprio Juarez Bahia foi preso ali. Vamos ao texto (aviso: como o autor escreve nomes e expressões em itálico, em respeito à edição esta coluna adotará a citação entre aspas):
“O navio expõe uma morbidez que antecipa o destino de ferro-velho – alquebrado, violado, diminuído em sua fé de ofício, não exatamente por piratas ou aventureiros do mar, mas capturado pela própria Marinha e transformado em cobaia de experiências psicológicas. Sai de Manaus, liberado pela última vistoria, passa pelo Rio e, requisitado ao Lloyd Brasileiro, aqui se encontra como presídio flutuante. Seu Diário de bordo não será localizado. Quem viola o navio também viola sua história. Nos relatórios e registros nenhuma informação sobre a missão como praça de guerra para presos políticos. Confidencial e clandestino, dir-se-ia dele, nesses tempos de 64, o suficiente para atribuir ao Raul Soares a única mancha na sua folha de serviços”.
Ao tratar do próprio navio como vítima do golpe, Juarez Bahia faz uma metáfora da degeneração do próprio poder militar que, ao permitir a tortura em seus porões (não só os do navio), perde qualquer resquício de legitimidade (lembremos que o golpe recebe apoio da imprensa, da classe média e de boas parcelas da população).
A morbidez da transformação do navio em presídio é um dos aspectos de Raul Soares, um navio tatuado em nós, livro em que a jornalista Lídia Maria de Melo testemunha a prisão de seu pai em 1964 no navio-presídio. Apoiado nas memórias da infância da autora e no testemunho do pai, Iradil Santos Mello, então sindicalista, o livro se mostra um documento valioso do sofrimento de famílias inteiras por causa dos desmandos da ditadura. O livro começa com uma descrição da vida política do pai em 1963, da tentativa de ser eleito vereador em Guarujá à conquista da presidência do sindicato em Santos, episódios entremeados por memórias familiares da pequena Lídia, então com cinco para seis anos. Até que chega o golpe e Iradil é preso duas vezes seguidas, uma no Palácio da Polícia, na Rua São Francisco (também cenário do romance de Juarez Bahia), e outra no próprio Raul Soares. Lídia relata a memória e as dificuldades de um dia de visita (em seu livro, as palavras acentuadas estão em negrito e outra em aspas, aqui trocadas por aspas simples):
“Uma lancha apanhou-nos no porto, em frente à alfândega.
Havia muitas mulheres, além da minha mãe e tia Neuza. E ainda outras crianças, além de mim, minhas irmãs, Laura e Lúcia, e nossa prima Sônia, de 3 anos.
Desembarcamos, perto da Ilha Barnabé, em um flutuante que balançava muito, amarrado no navio preto, adernado, o Raul Soares. Eu que sempre morri de medo do balanço de barca.
Os policiais marítimos, com uniformes de mescla azul, estendiam as mãos para nos ajudar.
Minha mãe com Lúcia, bebê, no colo, e aquela escada estreita, mole, tão insegura!
Que medo de cair!
Do flutuante, os policiais observavam nossa subida. E todas as mulheres e meninas de saia ou vestido. Naquele tempo, não era permitida a entrada de mulheres de calça comprida nos estabelecimentos públicos.
E eles lá embaixo olhando... Ódio é o que eu sentia!
Por dentro, o navio parecia maior.
Ficamos num salão repleto de mesas longas e... policiais marítimos.
Não sei da sensação de rever meu pai, mas não esqueço de que reclamei de dor de cabeça. Um policial trouxe um comprimido cor-de-rosa. Acho que Melhoral infantil.
Recusei. Meu pai insistiu. Tomei, revoltada por ele ainda agradecer e sorrir para o ‘polícia’, como eu dizia.
Pouco depois. Pedi para ir ao banheiro.
Tia Neuza me acompanhou. O polícia correu na frente. A privada estava suja e sem descarga. Ele forrou o fundo com papel higiênico. Ela não me deixou sentar.
Desde então, fiquei com ódio de todo e qualquer policial marítimo. Não podia ver farda de mescla azul. Ofegava, emburrada.”
A memória da jornalista mostra bem como a violência do regime substitui lembranças: ao invés de lembrar do pai, a recordação é a dos que o mantinham preso, os “polícias” da Marítima. Enquanto os crimes permanecerem sob responsabilidade de ninguém, é assim, dessa forma enviesada, oblíqua, que os segredos da repressão continuarão a ser mantidos.
Para os que não vêem grandes traumas na memória da infância tomada pelo regime opressor, vamos a outra passagem do romance de Juarez Bahia que mostra como funcionava a tortura no navio.
“Os presos considerados insubordinados pelo chefe da guarda são levados para celas contíguas à caldeira ou ao frigorífico, para esquentar ou esfriar. A crueldade é a mesma. Esquentar é permanecer por alguns dias numa cela-fornalha e de lá ser transferido imediatamente para cela-frigorífico. Esfriar é fazer o movimento inverso. As celas de castigo são solitárias enquadradas nas regras da operação psicológica: humilham, constrangem, torturam, abalam a saúde e minam resistências, como acontece ao portuário e ex-pracinha de guerra, e ao estivador Zeca, que morreram após a passagem pelo Raul Soares; e o Tomochi Sumida, relacionado na memória de outros presos como um prisioneiro sistematicamente punido com resfriamento – era obrigado a ficar horas dentro de uma geladeira, cuja porta se abria por dez minutos e voltava a ser fechada. A crise nervosa de Batista é curada pela solidariedade de um companheiro de cela. Os presos mais antigos se sentem como gado às vésperas do corte.”
O texto de abertura de Sombras sobre Santos, uma reportagem histórica, faz referência aos episódios de esquentar e esfriar. Entre os depoimentos do livro, os autores registram o do portuário José Barbosa Leite Júnior:
“Barbosa, assim como Afonso e Waldemar Neves Guerra, e vários outros prisioneiros, também foi um dos hóspedes da caldeira do navio, onde a temperatura passava de 50 graus. Ele conta: ‘Numa das ocasiões em que fui levado para essa caldeira , me assustei, é lógico, e fui agredido fisicamente. Passei ali um grande tempo, em completa escuridão, até que vieram me tirar. (...) Alguns companheiros, como Sérgio Martins e Osni Néri dos Santos, estiveram também na parte gelada do navio e eram levados do frio para o quente e do quente para o frio. Isso era comum lá. Acredito que ele não desejassem matar ninguém, mas amedrontar, castigar’.”
Esquentar e esfriar, assim com texto destacado em itálico, são expressões provavelmente criadas por algum preso ou guarda, isto é, são metáforas, palavras emprestadas da descrição de fenômenos térmicos para a ação de torturar.
Essas palavras ganham vida, fazem parte das conversas, das ameaças e, finalmente chegam ao registro literário. São elas que formam a ponte entre a ficção e o mundo real, e não a descrição literária (por mais realista que seja).
Com isso, o ato de construir a metáfora faz da abstração do ato literário criador um componente de intervenção na realidade ao traduzir e dar condições de se pensar sobre a História e, ao racionalizar, se proteger psicologicamente (os autores de Sombras sobre Santos registram também que os detentos davam nomes de boates do cais às celas do navio).
Essas duas metáforas, esquentar e esfriar, também fornecem matrizes narrativas, sugeridas pela transformação de um estado térmico a outro, induzem à memória e, em conseqüência, ao testemunho. São engrenagens da grande máquina de narrar.
Com suas palavras em itálico, negrito ou aspas, as duas obras fornecem para a análise histórica uma idéia de como entender – e entender para combater – o discurso de que os crimes se equivalem (acredito nisso porque o Estado não pode cometer crimes, só punir criminosos dentro das leis). Os que defendem o jogo sujo do governo ditador usam muito o itálico: é só perceber no noticiário algumas expressões definidoras, mas vazias, como “falsa polêmica”, “o passado já passou” (Nelson Jobim, ministro da Defesa). Não dizem nada, mas são faladas assim, como se estivessem escritas em itálico.
O passado nunca passou: ele está escrito na memória da garota de cinco anos que visita o pai no navio-presídio; está impresso no estilo do intelectual que foi testemunha de seu tempo, está em cada um que, como este escriturário das palavras, entrou na escola já baixo à degradação do ensino promovida pelo regime militar, quase sem História (com H maiúsculo, mesmo); sem francês e sem música no primário; sem Filosofia ou Sociologia no colegial, e ensino universitário que prefere a técnica à universalização do conhecimento.
Epílogo
Prestando atenção nos itálicos é que devemos também ouvir palavras como reserva ou caserna, assim mesmo, sem aspas ou itálico, para que reserva não queira dizer mais que um aposentado de quepe e que caserna não passe do lugar onde dormem os soldados sob as ordens do povo.
Referências
Juarez Bahia. Ensina-me a ler. Petrópolis: Vozes, 1989.
Lídia Maria de Melo. Raul Soares, um navio tatuado em nós. São Paulo e Santos: Pioneira e Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes, 1995.
Ricardo Marques da Silva e Carlos Mauri Alexandrino. Sombras sobre Santos: o longo caminho de volta. Santos: Secretaria de Cultura, 1988.
Para uma história do Raul Soares antes de ser transformado em presídio, Raul Soares – Tempos de glória, de Humberto de Lima Moraes, aqui no PortoGente.
Entrevista de Lídia Maria de Melo a Amanda Guerra para o Unisanta Online, Um dia para lembrar a censura à imprensa.
Raul Soares, o navio-prisão, reportagem de Carlos Mauri Alexandrino, publicada no jornal Preto no Branco na edição de setembro de 1979 e reproduzida em Novo Milênio.