SEXTA-FEIRA
30 de Julho de 2010
Relógio Mundial
boletim: 
arquivo: 
Dia-a-DiaBlog
> Argentina restringe caminhões brasileiros em Buenos Aires
> Empresários do agronegócio querem valorização do próximo presidente
Sua Opinião
Em Debate
 Colunas
Carlos Pimentel
O Brasil
nos trilhos
Transporte Modal
Canal do Reno ao Danúbio (3)
Ponto a Porto
Parte II - Os dez mandamentos
Hermann Marx
O novo IDH
do Brasil
Debate Sindical
Telemarketing pode matar
Porto Literário
O Dia
do escritor
Porto-Cidade
Retângulo com três retas
Recordar
Navios italianos e novela Esperança
Alto Astral
S.C.A. inaugura loja em Santos
Voz do Povo
Em que páginas você mais gosta de navegar no PortoGente?
Notícias e reportagens
Serviços
Editorial e opinião
Colunas
» VOTAR » RESULTADOS
Google
 

Porto Literário

 
  • Cinema

  • Nova York, Liverpool, Marlon Brando, Beatles e os portos
    Texto atualizado em 30 de Setembro de 2008 - 06h45

    por Alessandro Atanes *
     
     

    Além de suas qualidades estéticas, dois filmes que vi no domingo parecem, para mim pelo menos, uma boa oportunidade para tratar mais uma vez das relações entre história e literatura. O melhor de tudo é que cada um deles tem um porto: Sindicato dos Ladrões, no qual o sindicato dos estivadores é comandado por criminosos, e Across the Universe, em que canções dos Beatles contam o século XX.

     

    1

    O nome do filme pode fazer com que o expectador portuário não se sinta atraído, mas não foi o diretor que traduziu On the waterfront para Sindicato dos ladrões para o público de nosso País. Um tradutor nascido em porto brasileiro teria transcriado o título para À beira-mar, Na orla ou ainda No estuário, nomes mais próximos do original e que, assim como ele, sugerem a ligação das pessoas a um determinado espaço, ao qual pertencem. É aí que está a força desse filme de 1954 dirigido por Elia Kazan. O título brasileiro, que nos limita ao componente ligado ao crime, dificulta essa forma de ver o filme. Incrível o que uma tradução mal feita pode fazer.

     

    Logo no início, pouco tempo depois do assassinato da abertura, um dos estivadores comenta que o porto é um espaço à parte: é “como se fosse fora do país”. Essa é questão do filme: não é a covardia, mas o isolamento do espaço portuário que impede os estivadores de buscar a proteção das autoridades, que, por sua vez, criminaliza a todos. Na primeira oportunidade, contudo, os estivadores buscam a reação, quando, chamado a agir pela irmã do homem assassinado, o padre local convoca uma reunião. Sua enunciação é a de quem se vincula ao espaço:

     

    – Esta é a minha paróquia!

     

    É o pertencimento ao porto, e não à cidade, que explica o pacto de silêncio que permite à máfia tomar aquele lugar. E só um aliado interno, no caso o padre da paróquia, que consegue romper a inércia. Outro componente narrativo que estimula a ação vem do campo do melodrama: é o amor do personagem de Marlon Brando pela irmã do amigo que havia morrido. Só nessa situação ele nota que o irmão mafioso a quem sempre protegeu deveria ser arrancado do sindicato.

     

    A partir daí, a história caminha para um desfecho em que a mudança da configuração interna do espaço portuário segue em direção ao clímax e desfecho. Um tipo parecido de isolamento percebemos no enredo do romance Navios Iluminados (Ranulpho Prata, 1937), no qual os personagens mal deixam o bairro portuário do Macuco, saindo dali apenas em ocasiões especiais, como quando o portuário protagonista se desloca à casa de um figurão para pleitear uma vaga na estiva. Nesse romance, assim como no filme, o bairro portuário se configura mais como um apêndice do cais do que uma parte efetiva da cidade.

     

    Em Sindicato dos ladrões, o porto está por todos os lados. Notamos isso nas cenas que ocorrem nos telhados dos prédios pobres da área portuária, em que personagens cuidam de pombos, ou quando um grupo de estivadores foge pelos telhados após a reunião na igreja da qual são perseguidos por mafiosos.

     

    Bem, será que a pessoa que determinou o título no Brasil pisou na bola por descuido, por preconceito de classe ou por motivação ideológica contra os grupos sindicais? Apesar de suas próprias decisões éticas, Kazan não fez o filme para que as pessoas tivessem a oportunidade de repetir as coisas que já acham do mundo, como o preconceituoso:

     

    – Tá vendo? Sindicato só tem ladrão mesmo! 

     

    Ou o famigerado:

     

    – É culpa do sistema!


    O filme é um espetáculo de imagens de forte impacto que confirma aquele postulado de Franco Moretti de que cada espaço encoraja seus próprios tipos de histórias. O componente histórico do filme se encontra justamente nesta apresentação que o filme faz de um local de trabalho isolado por suas características próprias de regime de trabalho que promovem, em razão disso, uma específica cultura e modos de estar no mundo.

     

    2

    Para quem a música dos Beatles é sempre um bom programa, Across the Universe já vale a locação. Qualquer um pode não gostar de uma ou outra música (eu não gostei de Helter Skelter, por exemplo), mas a qualidade das versões é indiscutível e grande parte delas é muito inventiva. Para completar, somos brindados ainda com participações especiais de Joe Cocker, Bono Vox e Eddie Izzard. Os dois últimos encarnam personagens como Dr. Robert, canção de George Harrison, do álbum Revolver, de 1966; ou Mister Kite de Being for the benefit of Mr Kite, de John Lennon, do Sgt. Pepper’’s Lonely Hearts Club Band, de 1967.

     

    Jude se despede da namorada no bairro portuário de

    Liverpool, antes de partir para os Estados Unidos

     

    Já os protagonistas, no caminho inverso, encarnam os títulos: Jude, um doce jovem estivador de Liverpool, e Lucy, a ativista sonhadora, formam o casal que se apaixona na Nova York da década de 60. Temos ainda a cantora Sadie – de Sexy Sadie, de Lennon, do chamado Álbum Branco – e Rita, de Paul McCartney, da canção Lovely Rita, também do Sgt Pepper’s. E as referências continuam por todo o filme...

     

    Mas em Across the Universe o porto desempenha uma função narrativa diferente da que exerce em Sindicato dos ladrões. No musical, Liverpool é ponto de partida de Jude, assim como foi para os próprios Beatles (eles tocaram por muito tempo também nos bares do porto de Hamburgo, na Alemanha), e a viagem de Jude, além de uma jornada pessoal, é também uma viagem por parte da história do século XX.

     

    O motivo de viajar embarcado até o continente americano é que Jude tem uma origem comum a muitos dos garotos que formariam aquelas bandas nos anos 60, isto é, foram concebidos em encontros entre soldados aliados e jovens inglesas durante a Segunda Guerra. Jude parte para encontrar seu pai, um ex-soldado dos Estados Unidos. É a sua geração, a dos filhos da guerra, que promove o que o historiador Eric Hobsbawn chamou de revolução cultural dos anos 60. Assim, e com o apoio narrativo das canções, o filme consegue traçar uma relação direta entre jornada individual e sucessão histórica dos fatos. E ao dar nomes de canções aos personagens, o filme ainda promove uma pequena história do trabalho artístico de John, Paul, George e Ringo Starr, uma espécie de almanaque afetivo.

     

    Epílogo

    Em comum nos dois casos, a manifestação de como, por meio do uso que fazem dos espaços portuários, os filmes conseguem trazer as questões históricas para o expectador sem que este precise ser lembrado que a história é “baseada em fatos reais”, uma verdadeira praga que impede que a colaboração da ficção para o conhecimento das coisas do mundo fique limitada à confirmação dos fatos. Cabe ao cinema, bem como à literatura e artes em geral, propor reflexões que, por meio da expressão estética, só o campo da ficção pode oferecer à sociedade. É o que fazem estes dois filmes portuários.

     

    Referências

    Across the Universe. Julie Taymor (direção). Com Evan Rachel Wood, Jim Sturgess, Joe Anderson. Estados Unidos: Sony Pictures, 2007.

     

    Sindicato dos Ladrões. Elia Kazan (direção). Com Marlon Brando, Eva Marie Saint, Lee J. Cobb. Estados Unidos: Columbia Pictures, 1954.

     

    * Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.
    alessandroatanes@correios.net.br
    Enviado por Antenor Nascentes em 01/10/2008  (Rio de Janeiro)
    Perdoe-me, Atanes. Escrever não é tarefa banal e não-compromissada. Expressar nosso sentimento através da escrita é coisa para poucos. Embora, mais uma vez, eu não tenha conseguido o meu objetivo, você traçou meu perfil de forma sintética. Sou tudo isso que você falou e mais algumas coisas que você não percebeu. Antes de continuar: "Seja a vossa virtude o vosso si-mesmo, e não qualquer coisa estranha, uma epiderme, uma capa: eis a verdade do fundo de vossa alma!" Isto aqui é Rio de Janeiro, Atanes. Aqui, pisa-se no seu pé, você pede desculpas e, de quebra, levas um tiro no rosto. Se eu colocar a cara aqui para chamar meu sindicato de ladrão vai morrer a minha família toda. Sou covarde, sim, Atanes. Não me dói o que sou: dói-me, sim, o que podem fazer com os meus. Você já leu Nietzsche? Há quem diga que suas linhas são cheias de raiva. O que vocês chamam de raiva tem nome, Niilismo: absoluta falta de crença. Não acredito em nada nem confio em ninguém. Meu nome não é Antenor, Dr. Jekyll ou Mr. Hyde. Estes são pseudônimos que retiro da literatura para poder escrever aqui. Desculpe-me qualquer coisa, não foi minha intenção magoá-lo. Só não esqueça: "Seja a vossa virtude o vosso si-mesmo..."
    (4)
     
     
     
    27/07 |  2:24 
      Dia do escritor
    20/07 |  2:27 
      Vicente de Carvalho e Quentin Tarantino
    13/07 |  1:09 
      Pagu e Italo Calvino
    06/07 |  4:17 
      Pagu e Vicente de Carvalho
    29/06 |  4:02 
      Poesia e desterro
     
     
     

     
    RSS PortoGente Siga o PortoGente no Twitter
     
     
     
     
     
     
         
     www.portogente.com.br © Todos os direitos reservados