Texto publicado em 07/10/2008 - 00:04
Os espanhóis que deixaram saudade
por Laire José Giraud *
Dois belíssimos transatlânticos espanhóis ficaram muito conhecidos nos anos dourados, em Santos e pelos portos onde escalavam. Seus nomes eram Cabo San Vicente e Cabo San Roque, da armadora Ybarra Y Compañia. Certamente muitos ainda se lembram deles. Esses dois navios de passageiros são da época em que o Porto de Santos dividia os passageiros em viagens internacionais, com os aeroportos de Congonhas e de Viracopos.

O belíssimo cartão-postal do Cabo San Roque, gêmeo do Cabo San
Vicente (deslocamento: 18.000 toneladas), impresso em 1959.
Acervo: L.J.Giraud.
O primeiro a ser construído foi o Cabo San Roque, que fez viagem inaugural para a América do Sul, em abril de 1957. O Cabo San Vicente teve a viagem inaugural em 1959. Suas dimensões eram: comprimento 169,55 metros, largura 21,09 metros. Transportavam 241 passageiros na classe cabine e 582 na turística. O estaleiro construtor foi Sociedade Española de Construcción Naval – Bilbao. Tinham seus cascos e superestruturas na cor branca e chaminé em preto fosco com o emblema da Ybarra. Os gêmeos eram vistosos e tinham um belo designe, o que chamava atenção por onde passavam.
O conhecido empresário Armênio Mendes, quando emigrou para o Brasil, veio no Cabo San Vicente, conforme conta no prefácio do livro de minha autoria – “Transatlânticos de Cruzeiros Marítimos, O Passado no Presente”, lançado em novembro de 2003, na Pinacoteca Benedito Calixto. Eis parte do texto: “Confesso que vi o mar pela primeira vez em 1963, quando saí da minha aldeia – Chão de Couce – Ansião – Distrito de Leiria, viajando no transatlântico espanhol Cabo San Vicente. Fiquei muito apaixonado por meio desse transporte, tanto que já fiz diversos cruzeiros, sempre com renovada emoção”.

O transatlântico Cabo San Roque, navegando pelo Estuário do Porto
de Santos, no início da década de 1960. Acervo: Jones Pereira Walfall.
Ézio Begotti, pessoa, muito conhecido na navegação, onde trabalhou por muitos anos, hoje aposentado, fez um cruzeiro marítimo em 1965, com escalas em Buenos Aires e Ushuaia (a cidade mais austral do mundo), a bordo do Cabo San Vicente. Begotti contou muitas coisas interessantes da viagem. Houve muitas festas naquele cruzeiro realizado há 43 anos. – A santista Ingrid Sarti foi a Rainha do Cruzeiro.
Os transatlânticos operavam regularmente na linha Europa/América do Sul, escalando os portos de Genova, Marselha, Barcelona, Malhorca, Algeciras, Lisboa, Tenerife, Rio de Janeiro, Santos, Montevidéu e Buenos Aires. Realizavam cruzeiros de verão pelos Estados Unidos, Europa, Extremo Oriente e pela América do Sul. Segundo informações confiáveis, ambos ultrapassaram a marca de 600 cruzeiros marítimos. Naquela época os cruzeiros nos Estados Unidos e na Europa já tinham uma boa participação nesse na área do turismo, onde vários navios eram fretados. No Brasil estavam surgindo, como contamos em recentes artigos neste espaço com os títulos “Os Cruzeiros Vieram para ficar 1 e 2”.

O Cabo San Vicente, em foto de J.C.Rossini, passando
pela Ponta da Praia, em Santos, no início de 1970.
Vale recordar que a célebre Ybarra, fundada no século XIX, na cidade de Sevilha, possuiu dezenas de navios, todos começando com Cabo, no Brasil os de passageiros que ficaram famosos foram: Cabo San Antonio (1929), Cabo San Augustin (1931), Cabo San Antonio (1931) e Cabo San Tomé (1931).
Marcaram época, também, dois transatlânticos da década de 1920, de construção estadunidense, que originalmente foram o Presidente Wilson e Presidente Lincoln, adquiridos em 1940 pela Ybarra e batizados respectivamente com os nomes, Cabo de Hornos e Cabo de Buena Esperanza, com a chegada dos novos e modernos transatlânticos Cabo San Roque e Cabo San Vicente foram desmanchados em 1959.

O cardápio de almoço do Cabo San Vicente,
no dia 5 de março de 63. Acervo: L.J.Giraud.
O presente artigo não tem a finalidade de contar a história dos navios da Ybabra, mas sim de mostrar como eram esses navios que trouxeram muitos emigrantes espanhóis e portugueses, e de outras nacionalidades para o Brasil. Os que prosperam viajavam com seus familiares para suas terras de origem para rever parentes e amigos, nesses navios que marcaram época.
Vale recordar, que em 9 de janeiro de 1968, o Cabo Yzarra, a mais nova unidade da armadora espanhola, fez um cruzeiro que terminou em 19 de fevereiro. Os portos visitados foram Montevidéu, Buenos Aires, Punta Arenas, Valparaiso, Calão, Balboa, Colón, Ilhas Santo Anrdrés, Oito Rios, San Juan de Puerto Rico, St.Thomaz, Antigua, La Guayra, Port of Spain, Salvador –Bahia, Rio de Janeiro e Santos.

No salão de festas do Cabo San Vicente, o amigo Ezio Begotti, se
divertindo à valer, durante uma das várias comemoraçoes, no cruzeiro
de dezembro de 1965, a bordo - Acervo: L.J.Giraud.
No final de 2005, a germânica Hamburg-Sud adquiriu a direção da Ybarra. Cia. Sudamerica S/A, que passou a ser a Ybarra Sud.
Por volta de 1955, ainda menino, na companhia de meus amigos, os irmãos Arleson e Alfeu Praça Fonseca (Engenheiro Certificante da Alfândega de Santos) estávamos no Studbaker Comander, ano 1952, de propriedade do pai deles, o prático aposentado Gerson da Costa Fonseca, hoje com 90 anos de idade, meu tio por afinidade, quando próximo às balsas, na Ponta da Praia, avistamos o Cabo de Hornos, deixando a Cidade, rumo a mais uma viagem com destino à Europa. Essa foi a única vez que vi esse navio. Já o Cabo de Buena Esperanza, nunca cheguei a vê-lo, mesmo com as suas inúmeras passagens por Santos.

Jogos no convés do Cabo San Roque. Catálogo
publicitário da Ybarra, que apresntava as atrações
de bordo do belo navio - 1960.
Ressalto que tive o privilégio de estar a bordo dos gêmeos cabo San Roque e Cabo San Vicente, nos anos 60. Caso não me falhe a memória, algumas das suas dependências lembravam um pouco o interior dos cisnes brancos Anna Nery e Rosa da Fonseca.
Quem desejar saber mais sobre a História da Ybarra Y Compañía, recomendo a leitura do livro “Navios e Portos do Brasil, nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembranças” (2006), de autoria dos amigos João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo (veja reportagem sobre o lançamento da obra).

Cartão-postal apresentando um dos salões dos navios Cabo
de Hornos e Cabo de Buena Esperanza. Acervo-L.J.Giraud.

O salão de estar dos gêmeos Cabo San Augustin e cabo San Tomé.
Anos 30 - Acervo: L.J.Giraud.

Cartão-postal original da Ybarra Y Cia., estampado com o belo
Cabo de Buena Esperanza. Acervo: L.J.Giraud.

Fechando com chave de ouro, o Cabo San Augustin, que
fez viagem inaugural em 1931, media 152,5 metros de
comprimento, transportava 512 passageiros. Reprodução.
* Laire José Giraud é despachante aduaneiro, colecionador de cartões-postais da cidade de Santos e de transatlânticos antigos. Colaborador da Revista de Marinha de Portugal. Publicou cinco livros, como autor e co-autor, sobre temas da Santos antiga.
Enviado por REGIS NELSON AMORETTY SOUZA em
01/02/2009 (FLORIANÓPOLIS, SC)
Estive em ambos: Cabo San Roque e Cabo San Vicente. Em um, fui à Europa, em outro, voltei. Foi em 1965, com a turma da Faculdade de Medicina da URGS, e foi FORMIDÁVEL. Uma viagem muito agradável, que gostaria de repetir agora.
Gostaria de saber o destino destes navios, e, se não estiverem em atividade, quais os que fazem este tipo de viagem.
Agradeceria informações.
Inclusive dos meus colegas de então.
Saudações.
Regis.
Enviado por Daniel Regino Tobio Portela em
01/04/2009 (brasilia)
eu tive a sorte de poder viajar para Espanha no Cabo San Vicente,em 1973,onze dias inesqueciveis,saindo de Santos,parando no Rio,com o prazer de entrar na baia de Guanabara e disfrutar de um vissual inpar,depois seguio para Tenerife,Lisboa e finanlmente Vigo,em Galicia,terra das minhas origens.Festas,almoços e jantares,lanches,piscinas,sol,mar e muitas recordaçoes,enfin,saudades do Cabo San Vicente,que foi vendido pra India e nunca mais ouvi falar,so nas minhas fantasias,com vontade de voltar no tempo.
Enviado por AGUSTIN em
20/05/2009 (TERESOPOLIS)
Fiquei muito contente com a materia, pois eu vim moorar no Brasil, e viajei no Cabo San Roque, e mesmo sendo muito pequeno (tinha quase 4 anos) ainda me lembro de algumas coisas da viajem no navio, mais a que mais me marca foi nas ilhas canarias (não lembro se estavamos chegando ou partindo), mas era noite e conforme o barco ia se afastando, via-se as luzes da cidade e muitos fogos de artificios.
Eu ainda tenho a postal da foto do barco, a mesma do inicio da materia.
gostaria de obter mais fotos da embarcações.
Enviado por elisa em
20/05/2009 (saõ paulo)
Sou a irmã mais velha do Agustim ,que comentou sobre o Cabo San Roque , fiquei emocionada de ver a matéria já que fez parte de nossa historia ,eu tinha 7anos e viemos para o Brasil como emigrantes ,e devo confessar que foi maravilhoso porque eu conhecia quase todo o navio (aquilo que uma criança da minha idade poderia frequentar ) desde o salão de chá ,de jogos ,biblioteca ,mas o que mais me encantava era o restaornte que era chamado de comedor ,era lindoeu me sentia em um verdadeiro palaci ,que pelo qual o era só que sobres as ondas .adorei a reportagem e gostaria muito de saber mais sobre o que foi feito desses navios tão maravilhosos.
Enviado por Pedro em
21/05/2009 (Madrid)
Eu sou irmao dos outros Gonzalez e obviamente também viajei no Cabo San Roque indo para o Brasil. Tinha 3 meses e só sei das histórias que me contaram, como por exemplo que eu vim chorando toda a viagem dentro de uma mala (meu berço), que meu irmao mais velho quase se afogou na piscina e minha mae disse q foram os piores dias da vida dela, nao pela embarcaçao mas sim por tinha que cuidar sozinha de 4 filhos. Hoje voltei pra Espanha, mas optei pelo aviao, nao vim chorando, nao tinha a possibilidade de me afogar numa piscina e nem vim dentro de uma mala.
Enviado por rui soares em
02/09/2009 (PORTO ALEGRE)
tive oportunidade de fazer a viagem Lisboa para Santos com escala em Tenerife e Rio de janeiro , em setembro de 1963.
Foi uma viagem de cerca de 11 ou doze dias e foi muito interessante e embora hoje sejam passados 46 anos ainda me recordo com saudades dessa travessia do atlantico nesse navio san roque . foi ótimo
Enviado por Miguel em
11/10/2009 (São Paulo)
Quando tinha 12 anos de idade em 1961 fui obrigado a vir da Espanha para o Brasil, por falta de recursos, vim com toda a família como imigrante, essa viagem foi a coisa mais linda que já aconteceu na minha vida até hoje, tinha 12 anos e hoje com 60, não consigo esquecer as amizades, as festas, as brincadeiras no Cabo de San Vicente.
Enviado por MANUEL VILA RAMIREZ em
03/08/2010 (São Paulo )
Parabéns a Laire José Giraud por trazer esta reportagem sobre os Navios Ybarra C. Nascido em Porriño na Galicia vim para o Brasil, com 7 anos de idade, em fins de 1957 junto com minha mãe e meu irmão (falecido). Vim no Cabo San Roque, embarcando no dia 21 de Dezembro de 1957 desembarquei em Santos no dia 04 de Janeiro de 1958. Foi uma viagem inesquecivel. Foram 14 dias que jamais sairão da memoria. Da saída em Vigo, muitos choros de emoção. Me lembro dos momentos inesqueciveis a bordo. Jogando bola. Perdi a bola no mar. Fiquei um longo tempo olhando para aquela bola indo para longe, no infinito azul do mar. Da beleza e da imensidão do mar. Agua para todos os lados. Do cinema a bordo. Do restaurante, da piscina e das esperanças na mente de todos, alguns vinham para o Brasil a maioria ia para Uruguai e Argentina. Eram esposas casadas por procuração. Maridos idos a fazer a "américa". Belo Navio, nunca mais visto. Uma recordação que persiste. Uma bela epopeia de gente valente. Que desafiando o desconhecido ia e ia com a expectativa de uma nova vida nestes paises a desenvolver. Parabéns para todos. Navio Ybarra C Cabo San Roque que bela recordação. Obrigado Laire por nós trazer tão afável lembrança.
MANUEL VILA RAMIREZ.
Enviado por Aspasia Coumiotis em
03/07/2011 (Porto)
Eu e minha família fomos do Rio de Janeiro para Gênova no Cabo San Vicente da Ybarra,com paragens em Santa Cruz de Tenerife e Palma de Mallorca em abril de 1964,foi uma viagem inesquecível,de Genova esperamos uma semana por um navio grego que nos levaria ao Porto de Pireu na Grécia.A volta foi a bordo do Cabo San Roque.Adorei rever o navio.Que bom existir gente como você.Muito obrigada!
Enviado por luis carlos velazquez pereda em
01/10/2011 (Itatiba - SP)
Caros,
Meus pais vieram da Espanha em 1959 no Cabo São Roque e guardam até hoje o cartão postal com a cabine onde se hospedaram durante a viagem, saíram do porto de CÁDIZ na espanha e desembarcaram em SANTOS, a primeira coisa que minha mãe notou em SANTOS foi o delisioso cheiro de café. Eu cresci ouvindo o nome do CABO SÃO ROQUE e guardo lindas lembranças dos comentários feios pelos meus pais.
Agradeço esta oportunidade de escrever estas linhas da memória da minha família.
Enviado por Castor Delgado Coloma em
24/11/2011 (Sao Paulo)
Minha familia, seis irmaos, nossa mae e eu, fomos e voltamos a Espanha no maravilhoso Cabo de San Roque, foi inesquecivel. No meio do Atlantico, cruzamos com o Cabo de San Vicente, ao se cruzarem, dispararam as enormes buzinas. Eu tinha entao 8/9 anos, hoje tenho 60! Nao esqueco mais.
Enviado por Daniel em
24/06/2012 (São Paulo)
Desembarcamos aqui em 03 de janeiro de 1970, vindos de Barcelona, minha mãe, eu e quatro irmãos, a bordo do Cabo San Roque. Emocionante ver a foto.
Enviado por Ronaldo Mascarenhs Franchini em
17/02/2013 (Belo Horizonte, MG)
Viajei pelo Cabo San Vicente para a Antartida em janeiro de 1974. Foi espetacular e considero a viagem de minha vida. Embarcamos em Santos e passamos por Buenos Aires, Ushuaia e também visitamos Port Stanley nas ilhas Falkland. Ficamos mais de 20 dias a bordo do navio. Hoje, infelizmente, o Cabo San Vicente já foi vendido como sucata.
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