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  • Doença social

  • A literatura da maresia
    Texto publicado em 11 de Novembro de 2008 -

    por Alessandro Atanes *
     
     

    Ao contrário da História, que abarca as transformações sociais causadas pela humanidade ao longo do tempo, o material da Geografia é o o próprio mundo, imutável, ou, pelo menos, que muda muito pouco no transcorrer das eras. Veremos hoje como o registro literário descreve em dois momentos diferentes o clima de Santos. Comecemos com A carne, de Júlio Ribeiro, publicado em 1888, em que o clima de Santos é descrito em uma carta escrita por um dos personagens no verão de 1887 e enviada daqui para uma fazenda no interior de São Paulo:

     

    Os dias são horríveis: se não há chuva, o que é raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto de se poderem fritar ovos sobre as pedras das calçadas. Mas ainda há coisa mais horrível do que os dias, são as noites. A atmosfera queda-se, morre. Olha-se para as flâmulas dos navios, imóveis; para os leques das palmeiras, imóveis. A gente a asfixiar no ar irrespirável e morto, parece-se com os mamouths [mamutes] que se encontram inteiros nos gelos da Sibéria, ou com esses insetos mumificados, há milhares de anos, na transparência dourada do âmbar amarelo. É uma situação aflita, desespera, tira a coragem, dá vontade de chorar, lembra os horrores da Treva de Byron.

    (...)

     As suas casas são quase todas construídas de alvenaria, com soleiras e portadas de granito lavrado.

    O ar, salitroso pelas emanações marinhas, ataca, rói, carcome a pedra. Não há ver aí superfícies lisas: tudo é áspero, caraquento, semi-decomposto.

    Sobre grande parte dos telhados viceja uma vegetação aérea, forte, vivaz, gloriosa.

    Vista do mar, do estuário, a cidade é negra: black town lhe chamam os ingleses.

     

    Esse clima e a morfologia da cidade, naquela época de várzeas e alagados, formam o caldo em que a falta de sanidade das condições sociais se multiplicaria no final do século XIX em epidemias e mortandade (o historiador Luiz Henrique dos Santos Blume conta que a cidade passou por calamidades públicas em 1889, 1891, 1892, 1893 e 1895).

     

    Quase 120 anos depois, dois livros de poesia voltam a usar a atmosfera da cidade como matéria-prima literária. Em 2002, Alberto Martins, publica o seguinte poema no livro Cais:

     

    Esboço de estuário

     

    Entre a serra
    e o mar
    a maré avança
    escalando buracos
    cavando rochedos
    os sinos da igreja
    a casa do Concelho
    se alastrando

    – via mangue –
    até o Centro.

    Daí a ferida:
    fosso que não fecha
    e divide a cidade em
    bairros-de-água
    bairros-de-terra.

    Daí este esboço
    que carrego:

    canal cheio de dragas
    margens enferrujadas
    sórdido estuário!
    – mas aberto para o mar
    e seus cardumes.

     

    Esse tom de pedra se desfazendo, sendo tomada pelo mar ou pelo clima, se repete em diversos outros poemas do livro, como nos versos finais de Noturno da Baixada:

     

    Triste cidade litorânea!
    meus olhos mal te distinguem
    do mar da terra da lama.

     

    Ou como a descrição do casco de um navio chegando ao porto em Da Ponta da Praia:

     


    É úmido. Está coberto
    de cracas e a ferrugem
    que rói as chapas
    rói a carga
    é visível
    da Ponta da Praia
    a olho nu.

     

    Ou ainda como na primeira parte de Em torno da cidade:

     

    no meio da encosta
    rente ao rio
    que baixa da serra
    ou volta do mar.

    Pedaço de terra
    alugado alagado
    ao pé do morro
    que assinala
    sua reles condição
    de baixada.

     

    Em 2005, o tema do litoral “salitroso” volta em Escorbuto – Cantos da Costa, de Flávio Viegas Amoreira, em que o tema, além de emprestar nome ao título, contamina a forma, como uma inflamação da linguagem, algo que cai bem ao estilo regurgitativo do autor:

     

    II – Atlântico sem rumo
    teleológico é o caralho! esbirros sem escoras
    nademos a rota-serpente travejamentos
    mandrágora marinha: dá e tira
    concede castiga mordisca
    mastrotação mediumáximo
    lira geral, sou livrencantos
    livre ser fora de mim, abcerto
    harmonia rendilhada com a massa difusa
    do cosmo na música brumosa
    macete pluviométrico inconstente
    CHOVENOMAR desperdício estarmundo
    CHOVENOMAR acontece
    POEMASPONJA recolhos reunimentos
    meus poros são olhos! pontos focados
    pés castos
    costados dobradiços
    jazz aqui poensia: ex-boçamento

     

    Queimar, esbrasear, quedar-se, morrer, asfixiar, desesperar, roer, carcomer, castigar, mal distinguir, mordiscar são alguns dos verbos usados pelos três autores. Entre expressões e adjetivos, podemos enumerar, entre outros: horrível, imóvel, aflita, horrores, salitroso, áspero, caraquento, semi-decomposto, mangue,  bairros-de-água, bairros-de-terra, triste, lama, alagado, reles condição, sem rumo, sem escoras, rota-serpente, massa difusa.

     

    Mas para o que apontam estes vocábulos usados em poesia para a compreensão de nossa cidade?

     

    Arrisco que, da longa duração da Geografia – que ainda carcome as pedras e as placas – talvez estes textos ficcionais apontem para a História, que clama ainda por uma ação da sociedade local que não pôde impedir que as calamidades públicas do século XIX se revestissem hoje com as cores (ou falta de) dos maiores índices de tuberculose do Estado de São Paulo.

     

    Referências

    Júlio Ribeiro. A Carne. São Paulo: Editora Saber, 1975 (1ª edição 1888).

     

    Alberto Martins. Cais. São Paulo: Editora 34, 2002.

     

    Flávio Viegas Amoreira. Escorbuto – Cantos da Costa. Editora 7Letras: Rio de Janeiro, 2005.

     

    * Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.
    alessandroatanes@correios.net.br
     
     
     
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