SEXTA-FEIRA
30 de Julho de 2010
Relógio Mundial
boletim: 
arquivo: 
Dia-a-DiaBlog
> Argentina restringe caminhões brasileiros em Buenos Aires
> Empresários do agronegócio querem valorização do próximo presidente
Sua Opinião
Em Debate
 Colunas
Carlos Pimentel
O Brasil
nos trilhos
Transporte Modal
Canal do Reno ao Danúbio (3)
Ponto a Porto
Parte II - Os dez mandamentos
Hermann Marx
O novo IDH
do Brasil
Debate Sindical
Telemarketing pode matar
Porto Literário
O Dia
do escritor
Porto-Cidade
Retângulo com três retas
Recordar
Navios italianos e novela Esperança
Alto Astral
S.C.A. inaugura loja em Santos
Voz do Povo
Em que páginas você mais gosta de navegar no PortoGente?
Notícias e reportagens
Serviços
Editorial e opinião
Colunas
» VOTAR » RESULTADOS
Google
 

Porto Literário

 
  • Construção civil

  • Operários-artistas no Guarany
    Texto publicado em 09 de Dezembro de 2008 -

    por Alessandro Atanes *
     
     

    A reinauguração do Teatro Guarany no último 07 de dezembro é uma data que oferece a chance de uma pequena reflexão histórica.

     

    Tudo começa com um artigo do escritor Flávio Viegas Amoreira, publicado recentemente no jornal A Tribuna e na Revista Pausa, em que faz um elogio público ao arquiteto, artista plástico e professor Paulo Von Poser, responsável pelo projeto e execução da pintura dos tetos da platéia e do foyer do teatro que abriu suas portas no mesmo 07 de dezembro, só que de há 126 anos atrás.

     

    No texto de Flávio Amoreira (Paulo Von Poser, um mestre no Guarany) encontramos indícios para apresentar o papel dos trabalhadores da construção civil na edificação do Guarany e de outros prédios levantados na cidade nos anos seguintes. Ali, o escritor trata o arquiteto por “artesão da poesia em concretude” e “operário de estruturas visceralmente regulares” (usando expressão de Claude Lévi-Strauss). A frase chave da composição é a seguinte: “No Guarany, sem ser hiperbólico, suas noites [as de Paulo Von Poser] passadas sobre andaimes são dignas dum Michelangelo dos trópicos”.

     

    Operário, artesão, andaime e, principalmente, a referência a Michelangelo remetem a um tempo em que não havia as distinções entre técnico, artesão e artista que mais tarde seriam definidas na modernidade. Reportagem assinada por Elcira Nuñez y Nuñez na mesma A Tribuna no próprio dia 07 revela traços do volume de trabalho pesado de Von Poser e sua equipe: os 14,55 metros por 9,20 metros de área do desenho no teto da platéia, os 27 galões da base acrílica, os quatro galões de cola neutra, as 170 latas de verniz e “muito crayon francês”.

     

    Ao assinalar os papéis do projetista e dos pedreiros, o título da reportagem (Um trabalho de operários e artistas) traz implícito, assim como na imagem de Michelangelo, o tempo, ainda recente, em que ao invés de “operários e artistas” dizia-se “operários artistas”. Esse tempo é a década de 1910, quando os operários da construção civil formavam a categoria melhor organizada e com os melhores ganhos da cidade (a ascensão dos estivadores como grupo líder do movimento sindical só se daria na década de 1930). Quem mostra isso é o historiador Fernando Teixeira da Silva em Operários sem patrões: os trabalhadores da cidade de Santos no entreguerras:

     

    Eram operários qualificados que se consideravam “artistas”, termo adotado na época pelos próprios pedreiros, canteiros, pintores, frentistas, estucadores, marmoristas, ladrilheiros, carpinteiros e outros.

    (...)

    O ofício do pedreiro ocupava uma posição estratégica, exigindo do profissional a leitura das indicações dos desenhos traçados para as construções e a perícia no manejo de esquadros, prumos, níveis e outras ferramentas manuais que, em inúmeros casos, lhes pertencia. Em seguida, encontrava-se em situação de centralidade o ofício de carpinteiro que, além do domínio do conhecimento de desenho, detinha noções de geometria e cálculo matemático.

    (...)

    Os pintores, por sua vez, não deixavam de ser operários qualificados, pois a arte das composições, mistura e tonalidades das tintas podia ser exercida até mesmo de modo secreto a fim de preservar seus segredos profissionais; além disso, podiam desenvolver habilidades estéticas utilizadas na decoração e em jogos visuais.

    (...)

    Muitos desses “artistas” valorizavam, assim, os estudos de desenho geométrico, conhecimentos de modelagem e escultura, fundando em seus sindicatos e na Federação Operária Local diversos cursos. O orgulho em torno da qualificação profissional estava estampado na bandeira da União de Artes, Ofícios e Anexos (UAOA), em 1919: “toda vermelha com as iniciais pretas, levando ao centro um esquadro e um compasso como símbolos das Artes e Ofícios”.

     

    O historiador conta ainda na primeira parte do livro o momento de inflexão da força dos trabalhadores do setor a partir de 1914, com a carestia provocada pela eclosão da I Guerra Mundial e, logo em seguida, com os avanços técnicos que permitiram às empresas construtoras impor o pré-fabricado ao artesanal, a exemplo do que fez a Companhia Construtora de Santos de Roberto Simonsen, e, já no final da década, em 1918, com a prefeitura instituindo um novo Código de Posturas em que tira responsabilidade (e poder) dos mestres de obras em favor de arquitetos e, principalmente, engenheiros, profissão sobre a qual se depositava o impulso de construção da Nação.

     

    A labuta de Von Poser, que chegou a dormir no teatro, ainda que em um momento bem diferente, aponta para o resgate da cultura material dos que põem a mão na massa. Não esqueçamos de quem foram os braços que levantaram o Guarany, o Coliseu, a Bolsa do Café, a Frontaria Azulejada...

     

    Referências

    Flávio Viegas Amoreira. Paulo Von Poser, um mestre no Guarany. Revista Pausa: 03/12/2008 (http://revistapausa.blogspot.com/2008/12/paulo-von-poser-um-mestre-no-guarany.html).

     

    Elcira Nuñez y Nuñez. Um trabalho de operários e artistas. Galeria. Santos: A Tribuna, 07/12/2008.

     

    Fernando Teixeira da Silva. Operários sem patrões: os trabalhadores da cidade de Santos no entreguerras. Campinas: Unicamp, 2003.

     

    * Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.
    alessandroatanes@correios.net.br
    Enviado por Paulo von Poser em 08/01/2009  (São Paulo -Santos)
    Caro Alessandro , Obrigado por esta bela relação e percepção destes aspectos do ( meu) trabalho que nem sempre são valorizados no "circuito das artes" . Realmente apesar de ser arquiteto , nunca tive um contato tão íntimo com uma obra e seu cotidiano , e posso te afirmar ter sido este contato com os trabalhadores lá uma grande inspiração e descoberta para mim. Mesmo hoje ainda é admirável o grau de conhecimento natural destes operários e aproximar as artes foi uma experiência concreta no teatro . Logo que cheguei pude colocar como uma primeira ação , a música ( em um antigo e potente amplificador ) a ópera para os pedreiros e as paredes originais do teatro , e a emoção do reencontro foi indescritível ... assim a música nos acompanhou até o final em diversas formas e sons variados , entre a música guarani o jazz e a serra elétrica ... Além disto disto em várias situações um simples comentário ou pergunta de um dos trabalhadores passantes me ajudava em muitas das minhas dúvidas e e indagações durante o processo criativo . Arte é também um fazer coletivo, uma ação concreta e neste trabalho meu maior aprendizado foi a dimensão social da obra de arte . Assim o considero uma homenagem a cidade e todos que participaram de sua construção e renovação , suas musas e artistas operários , e também ao povo Guarani . Assim espero que o teatro continue exercendo esta sua vocação histórica e que todos que forem lá sintam este apelo criativo e transformador ! Atenciosamente P.v.P
    (1)
     
     
     
    27/07 |  2:24 
      Dia do escritor
    20/07 |  2:27 
      Vicente de Carvalho e Quentin Tarantino
    13/07 |  1:09 
      Pagu e Italo Calvino
    06/07 |  4:17 
      Pagu e Vicente de Carvalho
    29/06 |  4:02 
      Poesia e desterro
     
     
     

     
    RSS PortoGente Siga o PortoGente no Twitter
     
     
     
     
     
     
         
     www.portogente.com.br © Todos os direitos reservados