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  • Decalques de três arquiteturas
    Texto publicado em 16 de Junho de 2009 -

    por Alessandro Atanes *
     
     

    Há algumas semanas, recebi de Diniz Gonçalves Júnior seu livro de poemas Decalques. Para os dois leitores que costumam acompanhar o Porto Literário, a cadência da poesia de Diniz soa muito próxima àquela dos versos de Alberto Martins, principalmente os poemas de Cais. Mas ao invés da paisagem portuária e litorânea deste, Diniz prefere espaços menores, tendo como um dos temas principais a arquitetura de prédios da cidade de Santos.

     

    O acesso do poeta ao tema ocorre por meio da memória do autor, paulistano com passagens por Santos. Assim, nesta abordagem inicial de seu livro, a coluna destaca alguns poemas em que se destaca a arquitetura dos espaços internos dos prédios da cidade, nos quais os corredores, as pastilhas das paredes e a vista a partir do apartamento acabam configurando a matéria-prima de peças como Edifício Parque Verde Mar, do arquiteto Artacho Jurado:

     

    desenho matizado em cores fortes
    ligação entre espaços amplos, do portal aos
    jardins de paisagens
    no teto carrosséis, figuras geométricas
    giracéu salpicado de horizontes

     

    Os vãos e as curvas da arquitetura de Artacho Jurado, em foto

    da capa do livro sobre o arquiteto, de Rui Eduardo Debs Franco

     

    O arquiteto é lembrado nominalmente no poema Artacho Jurado:

     

    o desenho
    brinca nos vãos
    cor que veste o
    espaço esquadro
    aéreo de latitudes
    moderno no traço de
    tinta ordem que desafia
    a geometria invento
    solando improvisos uma
    respiração do mar

     

    Desenho, esquadro, vãos, geometria desafiada e improvisos de uma respiração marítima traduzem de forma poética as impressões de qualquer santista ou turista que passe em frente a edifícios como o Enseada ou o Nosso Mar, ambos na orla da Cidade.

     

    Esse narrador algo turista, algo santista não poderia deixar de descrever outros edifícios marcantes, desta vez porque públicos, como o aquário na Ponta da Praia ou o cassino do Monte Serrat. O lar do saudoso leão-marinho Macaé, dos pingüins e do lobo-marinho Macaezinho é narrado como se fosse uma visita ao aquário, com sensações e objetos se sucedendo por um corredor do início ao fim do passeio:

     

    Aquário Municipal
    espaço vítrico tingido azul profundo coral peixe
    areia move moinho
    empurra ar sentido aquático medusa sereia
    plástica fundo água espelho
    silêncio bolhas nado vida vaga netuno mito
    tridente alga

     

    Em Monte Serrat, o poema se desenvolve pela relação do local com a urbanidade e a paisagem:

     

    a letra de Itororó inicia a escada
    traça sua geografia cortando
    a vila que lembra Noel insolação
    na manha atlântica avista a capela
    e o cassino desativado entre vitrais
    do salão panorama de mapas
    e mirantes diluídos em 360º

     

    Antes de seu livro, lançado em 2008, Diniz tem publicado suas poesias nas revistas Cult, Poesia Hoje e Zunái, entre outras. O blog do autor é o Desmemórias. Contatos pelo correio eletrônico dinizjunior71@yahoo.com.br.

     

    * Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.
    alessandroatanes@correios.net.br
    Enviado por Suzete Carvalho em 20/06/2009  (São Paulo)
    Site: www.novaeleusis.blogspot.com
    Excelente resenha. Tenho o livro e tenho acompanhado também o trabalho do poeta Diniz Gonçalves Júnior em seu blog desmemorias, em cujos poemas percebo uma capacidade especial para metaforizar situações cotidianas. É o caso da expressão "respirar é um ato de coragem" que adotei como título (com autorização do autor) em crônica publicada em meu blog www.novaeleusis.blogspot.com Ficaria honrada com sua visita e a de seus leitores e os convido a postar comentários-críticos e sugestões para que possa aprimorar o trabalho cultural transdisciplinar que venho desenvolvendo. Cumprimentos.
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