É, o título soa pomposo, mas pode ser explicado em palavras simples - apesar de sua inata complexidade. O fato é que as três últimas gerações, pelo menos, cresceram ouvindo de todos que os Estados Unidos são a meca da economia mundial, da cultura, até dos valores democráticos (ah, Grécia...). Isso até foi verdade, mas o que já não mudou nos últimos anos está mudando agora, neste Terceiro Milênio. E quem não acordar para isso corre o risco de ficar preso no atoleiro da História (eh, chavão...).
Então, comecemos analisando essas mudanças, para depois comentarmos como elas afetam a navegação e o porto santista. E, principalmente, mostrando como podemos nos preparar para enfrentarmos esses novos tempos - bem diferentes daqueles em que o "campeão da democracia" enfrentava o "Eixo do Mal"...
Todo mundo lembra que a economia japonesa despontou, após a destruição daquele país na Segunda Guerra Mundial, a partir da disposição dos nipônicos de trabalhar muito, copiando (e aperfeiçoando) produtos fabricados no Ocidente, para depois vendê-los ao mesmo bloco ocidental como novidades japonesas. Tanto sucessos tiveram que em Detroit, capital estadunidense do fabrico de carros, talvez rodem mais veículos japoneses (e de outros países) do que americanos.
O caminho que os japoneses trilharam (e os chineses também, em certa medida), é o mesmo que os estadunidenses haviam trilhado, ao aperfeiçoarem produtos de outros países e colocarem sua marca. Como a máquina fotográfica, inventada simultaneamente no Brasil e na França. A máquina de escrever, demonstrada pioneiramente por um brasileiro numa feira industrial no Recife. O relógio de pulso, que Santos Dumont criou, os suíços melhoraram e os japoneses digitalizaram. O avião, também invenção brasileira (ou vamos considerar avião aquele canguru dos irmãos Wright?). O foguete, do alemão von Braun. Certos medicamentos, pirateados das experiências de nossos indígenas por missionários que mais sabiam de botânica que de teologia). Etc.
Isso vale, acreditem, até para a cultura e o idioma. Ouvidor é um conceito português aportado em Santos em 1532 com Martim Afonso, que os suecos descobriram século e meio depois, criando seu ombudsman, e os estadunidenses reciclaram e exportaram, ao ponto de um dicionário brasileiro (que por essas e outras perdeu o conceito que tinha) abonar a palavra sueca, com a pronúncia inglesa, como parte de nosso idioma, ignorar que é sinônimo de ouvidor e ainda afirmar no verbete que se trata de uma função surgida em países avançados (que seriam então a Suécia e os Estados Unidos). O Aurélio perdeu boa oportunidade de abrir os ouvidos e fechar a boca...
Mas, voltemos ao tema principal. Os Estados Unidos conseguiram montar um poderoso esquema que, a partir da Segunda Guerra Mundial, entrou em fase de crescimento acelerado, dominando o mundo ocidental. No final do século, avançou também sobre o lado oriental, com a falência da União Soviética. E tenta, neste princípio de milênio, se consolidar nessas novas áreas, às custas das culturas orientais e árabes/islâmicas.
Enriquecendo e ganhando poder, os estadunidenses se tornaram arrogantes, desrespeitando até preceitos básicos da economia. Como quando a General Motors tentou impor ao Japão seus veículos com volante à direita (o Japão segue a forma inglesa de trânsito, em que o motorista senta à esquerda do passageiro). A empresa pagou caro pela lição que demorou a aprender.
O país - que seduzia o mundo com seu Zé Carioca e os truques de Hollywood - mudou de jogo, passou a forçar a mão, a exigir. Com isso, o mundo que simpatizava com o estilo de vida estadunidense começou a abrir os olhos, perceber as mazelas criadas pelo american way of life e a buscar alternativas mais saudáveis em termos econômicos, culturais, sociais.