Todo mundo já recebeu um telefonema às 21 horas de um final de domingo oferecendo qualquer mercadoria ou serviço pelo qual não tem o mínimo interesse. A primeira atitude é se irritar e xingar o outro lado da linha. Mas, poucos sabem que o telemarketing é extremamente estressante para o infeliz ou a infeliz que nele trabalha. É uma máquina do grande sistema do comércio que, além do transtorno que gera às vítimas dos amaldiçoados telefonemas, faz outras vítimas muito mais fatais: os trabalhadores no serviço de telemarketing.
A remuneração da imensa maioria é de um miserável salário mínimo. O piso profissional, quando existe, é alguns tostões acima do mínimo. Mas o pior está por vir. As condições de trabalho são parecidas com aquelas do início da Revolução Industrial, no começo do século XIX. Só para ter uma idéia: em muitas empresas não há como ir ao banheiro. É preciso esperar que um coringa, que quase nunca aparece, se digne a passar por perto para que, então, se tenha este direito.
Por trabalharem em ritmo alucinante, estão sujeitos à LER. O nível de tensão por ter que responder o mais rápido possível a um cliente irritado e impaciente é enorme. E a cadeira contrária a qualquer norma ergonômica, na qual são condenados a ficar presos por longas seis horas, dentro de uma baia? E como ficam a voz, a garganta, as cordas vocais e os ouvidos? De acordo com médicos ouvidos pelos sindicatos de trabalhadores, em dois anos, o trabalhador vira um trapo. Sua saúde está condenada e nunca mais terá uma vida saudável.
Agora, há uma pergunta inevitável a ser feita e respondida. Há alguma necessidade desta atividade produtiva ser assim? Não dá para contornar e superar estas situações que destroem vidas e sonhos de milhares de jovens? Estes trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, hoje, já beiram os dois milhões. Para ser mais exatos: são um milhão e oitocentos mil.
As informações contidas nesta coluna foram fornecidas pelos Sindicatos de Telefônicos do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul. Para ler mais sobre o assunto, leia o livro Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual, organizado por Ricardo Antunes (Unicamp) e Ruy Braga (USP); e o artigo de Leandro Uchoas para o Brasil de Fato.