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Carlos Pimentel

 
  • Transportes

  • Nos trilhos
    Texto publicado em 27 de Julho de 2010 -

    por Carlos Pimentel Mendes *
     
     

    Imagine o leitor a quantidade de produtos que compõe a pauta de exportações brasileira. De minério de ferro a ovos. De crina de cavalo a automóveis. E uma quase infinita gama de outros produtos agro-pecuários, minerais e extrativos, digna de um país de dimensões continentais.

    Agora, olvide por um instante o minério de ferro, e tal esquecimento significa nada menos de 74,37% da movimentação total das ferrovias nacionais. Esqueça mais nove produtos, e nossos trens movimentariam apenas 9% das suas cargas atuais.

    Pois este é o tamanho da distorção na matriz de transportes brasileiras. Bem poucos tipos de carga são movimentados pelos trens, valendo a informação adicional de que, dos apenas 28 mil quilômetros da rede ferroviária nacional, 10% concentram quase todo o volume da carga transportada. E que tal considerar que, enquanto em já inúmeros países existem trens-contêineres com dupla altura, tal a quantidade a ser movimentada, no Brasil apenas 1% da carga ferroviária é conteinerizada?

    Os números oficiais (ANTT e Ilos) mostram um panorama "pré-histórico" das ferrovias nacionais, mais desanimador ainda se comparado aos números exuberantes que elas já apresentavam cem anos atrás, quando – mais que mero meio de transporte – eram consideradas indutoras do desenvolvimento nacional, sine qua non. Isto é: sem elas, não haveria desenvolvimento, assim se pensava por volta de 1910.

    Foi preciso passarem quatro gerações para que os tataranetos percebessem como seus ancestrais tinham razão. Falam agora em um plano para a partir de 1912 – perdão, 2012 – fomentar os negócios no setor, forçando para que a diferença entre a capacidade da ferrovia e as metas não atingidas seja oferecida a um novo operador logístico, além de se provocar a recuperação de ramais abandonados onde houver demanda pelo transporte.

    Se as metas estabelecidas forem as mesmas de 100 anos atrás (basta isso), as atuais operadoras estarão perdidas. Vai faltar trem para atingir aqueles números...

     

    * Carlos Pimentel Mendes é jornalista e edita o site Novo Milênio (www.novomilenio.inf.br)
    pimentel@pimentel.jor.br
    Enviado por Paulo Roberto Filomeno em 29/07/2010  (São Caetano do Sul)
    Prezado Carlos, desde que nos anos 70 foi determinado que a ferrovia deveria ser o principal meio de transporte de produtos de grande volume e baixo valor agregado (leia-se commodities agrícolas e minerais), a exuberância que você mencionou haver há 100 anos atrás desapareceu de vez. Isso causou o desaparecimento de estações, a supressão de ramais e até de grandes trechos, até no estado de SP. Para as operadoras que cruzam o estado, parece que lhes importa apenas trazer soja do MT e minério para a Cosipa. Trechos importantíssimos, como o tronco oeste da antiga Companhia Paulista e quase a totalidade do tronco da EF Sorocabana após Botucatu estão praticamente às moscas. O que mudaria este cenário seria a liberação de todas as linhas para todas as operadoras ferroviárias, ao invés das malditas áreas de concessão, onde cada operadora cuida daquele trecho como se cercando das demais. E como a unificação de bitolas é uma utopia, um plano governamental deveria impor a construção de bitola mista no trecho da MRS, que é de bitola larga, para que os trens das operadoras de bitola estreita pudessem lá circular e atingir as principais cidades do Brasil (SP, RJ e BH). A devida compensação deveria ser dada à MRS pois obviamente seus trens de bitola larga não poderiam circular nos trechos de bitola estreita. Isso seria um grande passo para uma integração ferroviária e permitiria a mudança gradual da matriz de transporte.
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