Estamos cá outra vez para falar das relações humanas, falar da vida. Em todas as suas contradições. Com convergências. E discordâncias também. A polêmica faz parte da vida. Não a polêmica agressiva ou gratuita, que existe para ela mesma, mas aquela que serve para criarmos a reflexão e o debate de idéias. Foi com esse espírito que entrevistei Sonia Coelho, integrante da SOF – Sempreviva Organização Feminista – e também da Marcha Mundial das Mulheres.
A SOF é uma organização não-governamental em funcionamento desde 1963, com sede em São Paulo (www.sof.org.br). Seu objetivo explícito é o de difundir o feminismo e criar laços de articulação com setores da sociedade que lutam pela ampliação da cidadania e pela igualdade entre homens e mulheres. Já a Marcha Mundial das Mulheres é um movimento feminista internacional de luta contra a pobreza e a violência sexista. Sua primeira etapa foi uma campanha entre 8 de março e 17 de outubro de 2000. Aderiram à Marcha seis mil grupos de 159 países e territórios.
Sonia Coelho participa de vários atos e manifestações no Brasil e pelo mundo afora. Decididamente é uma mulher comprometida com a causa feminista e não tem papas na língua (que bom!). Nesta entrevista, fala com todas as letras que os homens são machistas, mas que “existe machista esclarecido”. Ela discorda da visão, também machista, de que a mulher é machista. Na condição de oprimida, “a mulher reproduz a ideologia machista”, mas isso não faz da mulher um ser machista.

Com certeza não queremos tornar essa entrevista a “última palavra” sobre os males da nossa sociedade no que se refere aos antagonismos sociais (impostos, e não naturais) entre homens e mulheres. Não queremos concordar com tudo, muito menos discordar de todas as idéias de Sonia. Acredito que muito há o que se falar (e fazer). Muitas reflexões se tornam (ainda) necessárias. Mas a marcha já foi iniciada.
Debate Sindical – Sônia, os dirigentes sindicais, nas programações de 8 de Março, costumam fazer discursos bem avançados, muitos até na linha feminista e de igualdade entre os sexos. Esses discursos refletem a realidade do movimento sindical em relação à mulher?
Sonia Coelho - Não refletem a realidade. As mulheres têm mais dificuldades de estar nas direções, de ser profissionalizadas pelos sindicatos e de incorporar as questões relativas à discriminação das mulheres no trabalho. No 8 de março é comum os homens quererem fazer discursos bonitos. Melhor seria deixarem para as mulheres fazerem o discurso no 8 de março e eles apoiarem ao longo do ano as reivindicações das mulheres. Como fazer atividades no sindicato que não tenham somente a lógica masculina, mas que tenham horários e creche que facilitam a participação das mulheres; ter nos acordos coletivos de trabalho a reivindicação por igualdade salarial entre homens e mulheres; colocar na pauta de negociação a questão da violência /assédio sexual; a pressão que sofrem com ritmos de trabalho acelerados, enfim há muitas coisas que os homens podem concretamente apoiar as mulheres, porque discurso bonito as mulheres não precisam, elas mesmas fazem.
Debate Sindical – Alguns homens acreditam que a mulher não tem mais espaço no movimento sindical, assim como em outros segmentos da sociedade, porque ela não vai atrás do que quer. Esse discurso é verdadeiro?
Sonia Coelho - As poucas mudanças que houve na vida das mulheres ao longo da história foram fruto exclusivo da lutas das mulheres, assim como as mulheres também sempre estiveram a frente das grandes lutas da classe trabalhadora, há que se lembrar a organização sindical foi inventada por uma mulher. As mulheres sempre lutaram para incorporar suas reivindicações nas pautas sindicais . Os sindicalistas sempre viram as mulheres com a visão conservadora de que as mulheres estão ocupando um espaço que não é delas. No início do século passado, quando o sindicalismo começou se organizar no Brasil, embora as mulheres fossem grande parte da classe trabalhadora, elas eram tão rechaçadas pelos homens nos sindicatos que propuseram criar sindicatos femininos.
Na década de 1970, com o aumento da força de trabalho feminino, houve também um significativo aumento das mulheres sindicalizadas que era superior ao aumento da sua participação no mercado de trabalho.
Uma estratégia que as mulheres construíram para sua auto-organização e para intervir na correlação de forças nos sindicatos foi, a partir de 1986, formar comissões ou secretarias de mulheres nas centrais e sindicatos. A partir da experiência que elas vinham desenvolvendo com encontros de mulheres de várias categorias somando-se a relação e a participação no movimento feminista, isto contribuiu para dar visibilidade às reivindicações das mulheres no mercado de trabalho, assim como enfrentar a reprodução do machismo dentro dos sindicatos . Como dizia Beth Lobo, “a classe trabalhadora tem dois sexos”, portanto, a luta sindical deve refletir o interesse de todas e todos, assim como a discriminação que as mulheres sofrem no mercado de trabalho deve ser enfrentado pelo conjunto, não é apenas tarefa das mulheres.
Debate Sindical – O movimento sindical brasileiro é machista? Manter uma, duas ou mais mulheres na direção sindical significa que o machismo acabou nessa organização?
Sonia Coelho - Em nossa sociedade existe uma ideologia machista que é dominante e de alguma forma a maioria dos movimentos seja sindical, popular ou em partidos políticos, reproduzem essa ideologia. A lógica capitalista patriarcal coloca o espaço público da política e das grandes decisões como espaço prioritário dos homens e para as mulheres o espaço doméstico da casa.
Essa lógica traz benefícios para os homens e mais lucro aos capitalistas. Embora sejam também explorados, (os homens) ganham mais que as mulheres, não fazem trabalho doméstico, têm seu tempo todo disponível para dedicar-se a si e à sua vida profissional, não sofrem violência doméstica.
Já as mulheres vão para o mercado de trabalho marcadas pela sua condição de responsável pelo cuidado da família. Dessa condição, ocorre que muitas vezes a mulher pode ser demitida se um filho fica doente, se ela não tem vaga na creche para deixar a criança, se ela está grávida. Além disso, as mulheres estão ocupando os trabalhos menos qualificados, mais cansativos, mais rotativos, sofrem mais pressão e assédio sexual e ganham em média 30 % menos que os homens.
Com isso, as mulheres enfrentam mais obstáculos para se organizar, seja pela sobrecarga de trabalho, e muitas vezes quando estão na política se sentem como se estivessem ocupando um lugar que não é seu. As cotas, nesse sentido, é uma política afirmativa que cumpre um papel importante de criar condições para as mulheres ocuparem espaços de decisões. Relato de mulheres trabalhadoras rurais do norte do Brasil explica que se não fossem pelas cotas muito dificilmente elas teriam saído da roça para serem hoje dirigentes de seus sindicatos e federações.
Debate Sindical – A mulher age com intolerância na defesa das suas convicções feministas?
Sonia Coelho - As mulheres agem com persistência e indignação. O movimento feminista é um movimento que tem resistido ao longo da história com uma perspectiva de mundo com igualdade para todas e todos, sem discriminação de sexo, raça/etnia, orientação sexual. Um mundo onde as pessoas possam ser livres, solidárias e que vivam sem violência. Um mundo onde o cuidado com as pessoas, a educação das crianças, o trabalho doméstico possam ser compartilhados entre homens e mulheres e pela sociedade.
O movimento feminista também é visto por alguns setores da esquerda como um movimento que divide a classe trabalhadora, porque eles não conseguem compreender que a auto-organização das mulheres ao invés de dividir qualifica e faz avançar a luta da classe trabalhadora .
A burguesia também constantemente tenta desqualificar o movimento feminista porque ela sabe que a auto-organização das mulheres balança os pilares do capitalismo. Para o capital, é importante que as mulheres permaneçam fazendo o trabalho doméstico e de cuidado gratuitamente. A mulher reproduz a mão-de-obra, faz todo o trabalho de reprodução da vida e o capitalismo tenta justificar como se esse trabalho fosse natural. Isso teria de ser incorporado à massa salarial. O Estado teria de aumentar seus custos como ter escolas em tempo integral para todas as crianças, restaurantes e lavanderias coletivas, políticas píblicas integrais para cuidar de doentes, idosos portadores de deficiência e toda uma reestrutruração do tempo de mulheres e homens .
Debate Sindical – Quando a mulher é machista?
Sonia Coelho - Os homens são machistas porque têm poder na sociedade e exercem esse poder sobre as mulheres. Na condição de oprimida, o que as mulheres fazem é reproduzir a ideologia machista que é dominante na sociedade e que de alguma forma todas as pessoas incorporam ao longo da vida. A sociedade capitalista é toda estruturada de forma a reproduzir essa ideologia, portanto, erramos feio quando dizemos que as mulheres são culpadas pelo machismo. Essa é mais uma das formas de desprestigiar as mulheres e responsabiliza-las pela discriminação. Os homens ganham com o machismo porque eles exercem domínio sobre a sexualidade das mulheres, sobre o tempo das mulheres enquanto garantem para si mais tempo de lazer e ócio, exercem a violência contra as mulheres, ocupam a maioria dos espaços de poder, trabalham menos que as mulheres e ganham mais. Sendo assim as mulheres não têm como ser machistas.
Debate Sindical – Existe o homem que não é machista?
Sonia Coelho - Não. Existe machista esclarecido. Existem homens que, individualmente, podem não exercer o machismo, mas os homens, de alguma maneira, se beneficiam com a desigualdade das mulheres na sociedade.
Debate Sindical – Como se faz a melhor luta por um outro mundo é possível? É opondo a luta do homem e da mulher?
Sonia Coelho - A melhor luta pode ser aquela de todos os sujeitos e que possamos fortalecer nos processos de transformação, sejam as mulheres, as pessoas negras, indígenas, as pessoas discriminadas pela orientação sexual e outras.
Debate Sindical – Qual a programação da Marcha Mundial das Mulheres para o próximo Dia Internacional da Mulher?
Sonia Coelho - Em todo o Brasil, a Marcha Mundial das Mulheres está na organização das manifestações do 8 de março, levando os temas da valorização do salário mínimo, contra a violência a mulher, contra a mercantilização do corpo das mulheres e pela legalização do aborto. Em São Paulo será organizada uma manifestação Estadual com concentração às 14 horas na Avenida Paulista, seguida de passeata até a Praça Ramos.
Debate Sindical – Quais os avanços da luta feminista no Brasil?
Sonia Coelho - Se olharmos ao longo da história, as mulheres lutaram pelo voto, pela educação, por licença maternidade, por aposentadoria e licença maternidade para trabalhadoras rurais, ou seja, há uma série de itens que poderíamos citar como conquista ou avanço. Por outro lado, vivemos um momento de muito retrocesso na sociedade e de avanço do conservadorismo que atinge toda a classe trabalhadora. Em relação às mulheres somam-se outros fatores, como maioria do trabalho sem direitos, diminuição das políticas públicas, aumento da prostituição e do turismo sexual e imposição de padrões de beleza para as mulheres.
Do ponto de vista da organização do movimento feminista tem sido um grande avanço a incorporação de diversos setores no feminismo como: mulheres negras, trabalhadoras rurais, indígenas, e, mais recentemente, a construção da Marcha Mundial das Mulheres, que é um movimento internacional em aliança com os movimentos anti-globalização. A Marcha Mundial das Mulheres tem como eixo central a luta contra a pobreza e a violência sexista. Em 2005, a Marcha realizou uma ação mundial: viagem da carta das mulheres para a humanidade (valores expressos na carta: igualdade, solidariedade, liberdade, justiça e paz ), envolvendo mais de 53 países dos vários continentes.
Agradecemos a Sonia Coelho pela sua dedicação à luta pela igualdade entre homens e mulheres. Semana que vem tem mais mulheres no Debate Sindical. Visitando livros das muitas mulheres maravilhosas do nosso País encontramos preciosidades e sentimentos dos mais puros, que nos colocam frente a frente às muitas mulheres que já fomos, somos e seremos. Hoje ficamos com Adélia Prado e sua “Moça na cama”.
Moça na cama
Adélia Prado
Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.