O Porto de Santos na década de 70 era um local com grande oferta de trabalho aos jovens. Com a alta movimentação de navios no cais santista, ser portuário era quase garantia de um futuro promissor.
Foi no ano de 1973 que o jovem Aguinaldo Ferreira de Barros, então com 28 anos, resolveu trocar o conforto das instalações bancárias pelo cais santista. Na ocasião sua filha Regiane era recém-nascida. Filho de portuário, decidiu prestar um concurso para ingressar no Porto de Santos e conseguiu o trabalho de conferente de carga. Começaria o seu contato com o universo portuário.
Como todo jovem em início de vida familiar, vislumbrava construir um lar digno para sua esposa e filha ainda que o começo de sua rotina portuária não fosse tão amistosa. “No primeiro dia de trabalho estranhei o cheiro do cais. Voltei todo sujo de poeira para casa. No período da tarde, já estava conformado”, lembra Aguinaldo.
Alguns anos se passariam até o ex-bancário trocar o cais pelo escritório. Convidado para trabalhar na Seção de Manifesto do Porto de Santos, Aguinaldo aceitou a proposta e iniciou uma nova função de extrema importância dentro da cadeia logística. Seria responsável pela transcrição dos manifestos de carga, conhecidos como BL´s.
Era dele a tarefa de traduzir para o português o documento em que vinha discriminada toda a carga do navio que atracaria no cais santista. À época, um mesmo manifesto poderia vir escrito em até três idiomas distintos (francês, inglês e espanhol). “A pior língua era o espanhol”. Fazer a tradução na íntegra dispensava um certo tempo, porém, com a prática, Aguinaldo obteve agilidade e chegava a traduzir até 500 BL´s por dia.
Ele garante que o serviço não era tão difícil. “Se você tivesse conhecimento de umas 70, 100 palavras técnicas, você conseguia fazer a tradução. Na verdade, você aprendia trabalhando. Não dava tempo nem de levantar a cabeça”.
A rotina árdua tinha momentos de estresse, principalmente quanto ao cumprimento de prazos. A função exigia que o serviço estivesse sempre pronto antes do navio atracar.
Aguinaldo diz que mesmo exercendo a função por cerca de 10 anos não se sentia cansado do dia-a-dia. De personalidade extrovertida, fez inúmeros amigos dos quais lembra com saudades. “Foi uma época muito legal. Acabei convivendo com todo o tipo de gente, mas quando aposentei senti falta dos amigos”.