Ultimamente me sinto de alguma forma saudosista. Talvez seja a proximidade das festas de final de ano, ou mesmo o próprio ano que se finda. Enfim, seja qual for à razão, estou sentindo saudades da minha infância, da inocência perdida, das brincadeiras tranqüilas, do acordar sem preocupações. É, crescer dói!
Traz responsabilidades que nem mesmo sonhamos, deveres que nunca imaginaríamos e isso porque a criatividade infantil é ilimitada! Lembro, com saudades, da época que desejava ardentemente "crescer" (acho que de tanto desejar, esqueci), ir para a escola, como a minha irmã mais velha, ser tão bonita quanto ela (acho que me perdi em brincadeiras e esqueci de fazer isso também), depois de ter independência para ir trabalhar.
Acordava cedinho, apenas para apreciar a correria da minha mãe se preparando para mais um dia de trabalho (socorro, criança tem cada idéia!), invejava a disposição que ela tinha, queria ser como ela também, ter um emprego, ganhar o meu dinheirinho, comprar as minhas coisinhas, saber ler e poder ler todos os livros que apenas conseguia ver as figuras enquanto minha mãe, pai ou irmã liam pra mim (bem, pelo menos a esse desejo eu fui fiel). Depois, já na época de ir à escola, queria estar já no ginásio (é, eu sou da época do ginásio), queria ter seios fartos (sem comentários), queria namorar o menino mais disputado da escola.
Quando cheguei ao ginásio, aquele garoto já não me interessava mais e passei a ser tímida em relação aos garotos: não queria mais que me olhassem, queria apenas ficar quietinha com meus livros, que me levavam a viajar por terras distantes, por épocas passadas.
Logo, a realidade entrou porta adentro e fui trabalhar. E então, percebi que toda aquela "disposição" que imaginava ser inerente a minha mãe, na verdade era a necessidade existente para que pudesse nos dar conforto e amor! Mas aprendi também que o exercício do trabalho pode até não ser recompensador como deveria, mas quando feito com dignidade e amor é maravilhoso, e nos abre horizontes outros.
E em pouco tempo, já sentia falta das horas de sono não dormidas, sentia falta das horas passadas brincando com as crianças que viviam por perto, das bonecas que nem cheguei a apreciar tanto, mas que me faziam companhia, da bicicleta esquecida no quartinho dos fundos, acumulando poeira, de acompanhar a minha irmã caçula à escola, corrigir as lições de casa, brincar de fazer comida e deixar a cozinha como uma zona de guerra, de sentar no colo da minha avó e ouvi-la por horas contando "estórias", até que eu adormecesse em seus braços, ou mesmo de ficar admirando-lhe os cabelos brancos como neve e sonhar em um dia ter os meus como os dela (vai vendo como criança é ingênua, hoje gasto horrores para cobri-los).
É, estou realmente saudosista, e é um sentimento nobre em mim, é algo que me traz um sorriso largo ao rosto, pois conta muito da minha história, conta muito do que sou hoje, e agradeço todos os dias, por ter tanto do que sentir saudades.