Praticamente desativada desde os anos 70, a indústria naval brasileira encontra-se em processo de retomada das atividades. Impulsionada, desde o início do ano 2000, pelas encomendas da Petrobrás para o aumento da produção de petróleo em alto-mar, a indústria naval ocupa posição de destaque no país e está envolvida nos principais debates a respeito da atividade portuária.
Ainda assim, são muitos os desafios a serem enfrentados. O presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo da Rocha, aponta a necessidade do Governo Federal em participar com mais investimentos, por meio de uma política industrial sustentável ao setor que “é de ciclo longo de produção e, historicamente, alterna intensa demanda seguida por retração prolongada”.
Confira na entrevista a seguir as reivindicações que Ariovaldo faz para que a indústria naval se desenvolva no País, além de um balanço geral de 2006 e detalhes a respeito do mercado internacional.
PortoGente – Quais as principais reivindicações do Sinaval para que a indústria naval se desenvolva no País?
Ariovaldo da Rocha - As reivindicações do Sindicato visualizam a reconquista de algum nível de poder marítimo ao Brasil. Entre as principais prioridades de nosso setor está a integração das agências governamentais e das empresas de navegação para uma ação conjunta e estratégica de expansão logística e da indústria naval. É importante, também, a elaboração de uma política industrial sustentável ao setor, que é de ciclo longo de produção e, historicamente, alterna intensa demanda seguida por retração prolongada.
PortoGente – Faça um balanço do ano de 2006 para o setor.
Ariovaldo - A indústria naval gerou 36 mil empregos diretos este ano, com um faturamento de US$ 3 bilhões. Os novos investimentos em estaleiros elevaram o potencial de processamento de aço naval da indústria para mais de 400 mil toneladas por ano. Alguns novos empreendimentos foram construídos e são de grande relevância para o País, como o Estaleiro Rio Grande (RS), que é destinado à construção de plataforma semi-submersíveis e o Aker Promar Canal das Flechas, um novo estaleiro na Barra do Furado, entre Campos e Quissamã (RJ), para a construção de navios de apoio marítimo e que logo estará apto a construir unidades de médio porte.
PortoGente – Quais são os principais desafios da indústria naval para os próximos anos?
Ariovaldo - O primeiro desafio é atender as encomendas de plataformas e navios de apoio, acrescidas da construção dos 26 petroleiros da Transpetro. A demanda impõe enorme pressão sobre a formação de recursos humanos, o fornecimento de sistemas, navipeças e aço naval a preços competitivos. O segundo desafio é assegurar um processo sustentável de encomendas para construção de navios além de 2010, que viabilize os investimentos em novos estaleiros e ampliação dos existentes, com a diluição de custos financeiros num projeto de longo prazo.
PortoGente – Qual o principal mercado e fonte de recursos para o setor no País?
Ariovaldo - A Petrobrás prossegue como o principal mercado para a indústria naval no Brasil. O plano de negócios 2006-2010 da Petrobrás registra investimentos totais de US$ 56,4 bilhões, sendo US$ 28 bilhões no segmento de exploração e produção de petróleo e no downstream da cadeia produtiva em direção ao consumo final. Desse total, 51 % ou US$ 14,3 bilhões serão as compras previstas no Brasil. A relação de projetos que a indústria naval local ou internacional participou é extensa e prossegue com novos projetos em definição que irão demandar plataformas de produção, petroleiros aliviadores e navios de apoio marítimo (cerca de dois navios de apoio por cada nova plataforma).
PortoGente – E como a indústria naval se configura no mercado internacional?
Ariovaldo - No cenário mundial, a frota de navios mercantes está concentrada em 20 países. Os principais países que participam do mercado internacional de construção naval optam por uma relativa especialização, sendo facilmente reconhecíveis a da Coréia, especializada navios de grande porte; a de Cingapura, especializada em plataformas e navios para a indústria de petróleo offshore e a dos Estados Unidos, que focaliza a indústria militar. A maior parte dos países europeus envolveu-se em nichos de navios especiais e sofisticados. O Japão constrói toda a linha de navios e luta para aumentar a produtividade e reduzir custos. Em todos os países há forte tendência na direção de concentração na armação, produção naval, offshore e navipeças.
PortoGente – Em termos de preço e qualidade, a indústria naval brasileira já consegue competir com os demais países?
Ariovaldo - Quanto ao preço, consegue produzir navios de apoio ao preço internacional. No entanto, isso deve ser visto com cuidado. Existem necessidades de investimentos e uma curva de aprendizado para petroleiros e porta-contêineres que deve ser levada em consideração. A abundância de aço e mão-de-obra no país é determinante para assegurar algum nível de competitividade internacional da construção naval brasileira, mas é necessário que sejam feitos mais investimentos.
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