Apesar de nem aparecer no texto, Santos é porto da onde parte um “soberbo três mastros brasileiro inteiramente branco, admiravelmente limpo e luzidio”, navio que no conto “O Horla” (2ª versão, 1887), de Guy de Maupassant, acaba por levar um horrível ser até as margens do Sena, onde passa a assombrar o protagonista da trama. Lemos em seu diário a passagem da embarcação em frente à sua residência.
Acostumado ao tráfego já comum de bandeiras internacionais em rotas que chegavam à capital da França, ele só se dá conta ao ler semanas depois, já tomado pela presença do horla, uma reportagem em uma revista científica sobre uma epidemia de loucura na província de São Paulo. Então ele liga seu caso ao navio: “Eu o achei tão lindo, tão branco, tão alegre! O ser estava ali, vindo de lá, de onde sua raça nascera! E ele me viu! Ele viu a minha casa branca também; e saltou do navio para a margem. Oh! Meu Deus!” (leia mais aqui).
Além do três-mastros, no final do século XIX as ferrovias e o motor a vapor dos navios propiciaram viagens cada vez mais práticas e rápidas ao redor do mundo. Durante todo o período colonial até a década de 1880, cerca de 15 milhões de europeus migraram para o continente americano. Aí ocorre um salto. Nos 45 anos seguintes, até 1915, mais de 30 milhões de pessoas da Europa chegam às Américas, como compara o professor de História Herbert S. Klein, da Universidade de Columbia.
Nesse contexto de expansão do transporte, os trapiches e pontes sobre as praias da cidade colonial acabam por serem substituídos pelo concreto do cais dos armazéns de 1 a 8. O porto garante seu lugar nas principais rotas internacionais. É o exemplo que Klein usa em seu artigo “Migração internacional na História das Américas”, publicado no livro “Fazer a América”, organizado pelo historiador Boris Fausto:
O grande número de viagens marítimas também garantia contato constante e relativamente imediato com todas as nações americanas do Atlântico. Para citar um único exemplo, no período posterior a 1880, partiam do porto de Santos, no Brasil, vários navios por semana com destino aos principais portos europeus do Mediterrâneo e até do Atlântico Norte, e todos tinham a capacidade de transportar na terceira classe várias centenas ou mesmo milhares de imigrantes.
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