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Texto publicado em 22/06/2012 - 12:02
A infância em um poema - continuação
por Alessandro Atanes *

Clique aqui para ler a primeira parte deste artigo.

Na parte 4, a passagem do poeta-menino-memorialista pela escola de padres onde estudavam os meninos ricos; nas partes 5 e 6, a religiosidade da família com a devoção à Nossa Senhora de Monte Serrat e o cotidiano em torno do oratório da casa, que ficava no quarto do menino; na parte 7, a vendedora de bolos que “Tinha sido mulata muito bonita / No tempo da escravidão”; na parte 8 o início da ocupação do Macuco, bairro portuário que na primeira metade do século iria abrigar a maior parte dos trabalhadores da Companhia Docas de Santos (CDS); na parte 9, a coleção de selos que o fazia sonhar com as partes do mundo e, na parte 10, as meninas do seu tempo e o final, no qual o narrador, aos 35 anos, despede-se da infância e pede serenidade na velhice.

Aos leitores do Porto Literário, a transcrição do poema na íntegra: 

I
Nasci junto do porto, ouvindo o barulho dos embarques

Os pesados carretões de café

Sacudiam as ruas, faziam tremer o meu berço.

 

Cresci junto do porto, vendo a azáfama dos embarques.

O apito triste dos cargueiros que partiam

Deixava longas ressonâncias na minha rua.

 

Brinquei de pegador entre vagões das docas,

Os grãos de café, perdidos no lajedo,

Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos.

 

As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite,

Faziam sonhar (tantas mercadorias!)

E me ensinavam a poesia do comércio.

 

Sou bem teu filho, ó, cidade marítima,

Tenho no sangue o instinto da partida,

O amor dos estrangeiros e das nações,

 

Ó, não me esqueças nunca, ó, cidade marítima,

Que eu te trago comigo por todos os climas

E o cheiro do café me dá tua presença.


II
Aquele vapor cargueiro no meio do canal
Há muito assim está, nas águas lodosas,
Como que abandonado da tripulação.
Ninguém bole nos tombadilhos silenciosos.
Um vulto branco na torre de comando
Deve ser uma roupa estendida a secar.

A bandeira murcha no mastro da popa
Tem muitas cores. Que país é aquele?

Fixo na corrente da âncora,
As marés arrastam-no um pouco todos os dias,

Ora para dentro do porto,

Ora em direção ao mar.

À noite, quem sabe, dos porões escuros
Desce para o negrume das águas
O prumo sutil dos contrabandos,
Enquanto os holofotes aduaneiros
Vagando perdidos no espaço
Fazem sinais ociosos à lua.

 

III
As grandes canoas atulhadas de peixe
Balouçam nas águas sujas da bacia.

A multidão zumbidora, pelas rampas,
Cerca os sitiantes caiçaras
Que vieram de longe, a vela e a remo, para o mercado.

Há um comércio de potes de barro, de gaiolas e de pássaros
Entre montões de laranjas e de cachos de bananas.
Voam enxames de moscas famintas sobre as cascas apodrecidas.

No barulho confuso, feito de vozes e de gritos,
As canoas balouçam sempre, querem partir...
Bem diferentes das águas sujas da bacia
São os verdes remansos do litoral
Onde ficaram as famílias dos caiçaras, nos seus ranchos,
Remendendo redes e tecendo cordas,
Enquanto passa no vento a cantiga do mar.


IV
O colégio dos padres era dos meninos ricos.
Todos os dias, a caminho do grupo escolar,
Eu passava por lá e espiava entre as grades:
Batinas pretas andavam de ronda, pelos pátios.
No quintal, entre alaridos, batiam bola.

Junto era a igreja do Sagrado Coração de Jesus.
Aos domingos, em filas compridas, como para as aulas,
Os meninos ricos iam para a missa.
Sozinho, num canto do adro, no meio do povo,
Eu sofria porque minha família era pobre,
Sem pensar que entretanto o Coração de Jesus,
Sabedor indulgente dessa mágoa infantil,
Preparava em meu coração a riqueza inefável.


V
Não me abandones, Nossa Senhora do Monte Serrat,
Devoção de minha família,
Padroeira da cidade comercial
E das tripulações em demanda do porto;
Ampara a todos os que sabemos apelar
Com os olhos presentes ou a memória aflita
Para o teu santuário no alto do morro,
Tão branco, a surgir dos bananais da encosta!


Possa eu ainda, por muitos anos, piedosamente,
No dia 8 de dezembro levar-te uma vela, no meio do povo,
Subindo a pé o monte exaustivo,
Como no tempo de minha infância,
Na ingênua adoração do mistério infalível.


VI
O oratório da nossa família, com os velhos santos
(Imagens de barro pintado, litografias amareladas)
Ficava na cômoda grande do meu quarto.
Eu via ainda mãe rezar todas as noites,
Pedindo conselhos, pedindo paciência;
Depois, passava a mão pela minha cabeça,
Dizia adeus com os olhos meigos, parecia
Que eu ia partir para alguma viagem.


A lamparina ficava no oratório velando.
Preso à cortiça, a flutuar no azeite,
O pavio dava uma luz incerta e fumarenta.
Era então, no silêncio, que das paredes voavam
Os bandos irreais de monstros confusos.
No quarto ao lado, o ressonar de minha mãe
Dizia: dorme em paz... E os santos, no oratório,
Diziam: dorme em paz – na sombra dos nichos.
E a noite (dorme em paz!) fechava enfim meus olhos.


VII
Tinha sido mulata muito bonita
No tempo da escravidão.
Sinhá Maria do Bolo vendia doces
E andava arrastada, com reumatismo.
Levava tempo para chegar.


Sinhá Maria do Bolo contava histórias,
Casos de famílias, saudades de outro tempo.
– Sinhá Maria do Bolo, qual foi a barbaridade
Da sua sinhá, no tempo da escravidão?
– Mandô rapá minha cabeça.


... Tinha sido mulata muito bonita
No tempo da escravidão.


VIII
De vez em quando naquela rua tinha um anjinho.
Nos intervalos das construções novas
Vapores de febre saíam das valas de esgoto.
Algumas antigas chácaras
Eram já um velhos Macuco
A morrer devagar ante a invasão do outro,
O Macuco dos operários, da gente modesta, das vidas penosas.


Ao cair da tarde, dos capinzais
Vinha o pio tristíssimo do sem-fim,
Enquanto dos telhados em sombra
Subia o fio da fumaça das cozinhas.
Onde se preparava o jantar da família.


IX
A minha coleção de selos, à luz da lâmpada,
Fazia sonhar com ilhas e naufrágios,
Filipinas, Tasmânia, Ceilão, Hong-Kong!
Andei à caça na Polinésia,
e fui à pesca na Terra Nova.


O Rei D. Carlos, com sobrecargas à tinta rubras,
Fazia desejar colônias portuguesas:
Angola (que lindo!), Tomor (que lindo!), Goa (que lindo!).
Da Venezuela ao Turquestão,
Da Groenlândia ao zanzibar,
Do Luxemburgo à Costa do Ouro,
Fui pajem brasileiro da Rainha Guilhermina
Na inocente aventura do mar e do mundo.


X
Chiquita, Bilu, das Dores, Senhorinha,
Onde estais vós, meninas do meu tempo?
Umas tinham cachos, outras tinham tranças...
Meninas da vizinhança, daquele tempo,
Onde estais vós, vivas ou mortas, lindas ou feias?


Chiquita pulava corda e brincava de pique,
Das Dores gostava mais de cantar de roda,
Senhorinha era rica, tinha orgulhosos laços de fita,
Bilu dizia histórias, contos de fadas,
Bilu conversava baixinho comigo,
Bilu ia casar comigo.


Nada sabeis de mim, sombra de vosso tempo,
De mim que venho cismar nas ruas de outrora
E olho com tristeza as casinhas antigas.
Nos pequenos jardins há pés de sabugueiro.
Serão os mesmos que perfumavam nossos brinquedos?
As meninas que cantam de roda e pulam na corda
(Umas têm cachos, outras têm trnaças!)
Serão vossas filhas, do vosso amor ou das vossas penas?
(Só talvez Senhorinha anda aí pelo mundo,
Cheia de joias, de laços de fita, sabe Deus como).

 

Ó minha infância, adeus, morreu toda a inocência!
Entre imagens fiéis que habitam comigo
Caminho devagar para a serenidade.
Sede os meus anjos, imagens fiéis!
Vinde voar assim, com cantigas de roda,
Vinde bater as asas, anjos do meu tempo,
Vinde cantar em voz velada ao meu ouvido
Para que com doçura eu recebe a morte.

Referência
Rui Ribeiro Couto. Santos. In: João Christiano Maldonado (org). Poesia de Santos. Santos, edição do autor, 1977.

* Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.
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