No dia 30 de julho, os principais sites de notícia do Brasil apresentaram um dado estranho: jovens de classe média foram presos acusados de cometerem sequestros relâmpagos na região do Brooklin, zona sul da cidade de São Paulo. A estranheza advém do fato de que os crimes foram cometidos por jovens de classe média e não por pobres, como é comum vermos em análises que associam os índices de criminalidade a manutenção da desigualdade social.
Em um país com grande concentração de renda, a desigualdade social pode acarretar em aumento do número de furtos, roubos, seqüestros e outros crimes contra o patrimônio. Contudo, o que falar de crimes contra o patrimônio cometidos por jovens que, aparentemente, pertencem a uma camada social que tem acesso a bens e serviços? Aqui a desigualdade social não pode ser usada como motivo, mas a ausência de valores sociais ou a mudança nos valores sociais podem bem traduzir o que vem acontecendo com a juventude.
Estamos passando por uma transição geracional. Para a geração dos meus pais as frustrações faziam parte do cotidiano e cada derrota era motivo para encarar a luta de frente. A minha geração ainda conviveu com os “nãos”, com as derrotas, mas sempre teve o apoio dos pais. A atual geração não conhece a frustração. Criados dentro de uma linha onde dizer não é levar a criança ao sofrimento, as derrotas foram aos poucos sendo “limadas” da vida destes indivíduos, que ao não conseguirem atingir suas metas, procuram outros meios para alcança-las. É neste contexto que vemos o aumento da criminalidade nesta camada social. Jovens que cresceram sem frustrações, decepções ou derrotas, consideram que tudo é possível e cabível, inclusive seqüestrar pessoas.
A questão que coloco aqui é que um novo fenômeno social configura-se no âmbito da violência. As constantes análises que ligam desigualdade social aos índices de criminalidade precisam tomar outros rumos e evidenciar que, aliada a desigualdade social, as mudanças nos valores sociais podem estar revelando uma generalização da violência, ou mesmo o simples descredenciamento de crimes como este do status de violência. Afinal, se tudo é permitido, seqüestrar seria um crime?