Caros leitores,
Hoje, falarei sobre as funções do supercargo.
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Quando as companhias de navegação de linha afretam um navio para reforçar sua frota, fazendo determinada linha, os armadores contratam uma pessoa para acompanhar as operações de carga e descarga e estivagem. Trata-se do Supercargo, que geralmente é um Comandante ou Imediato com larga experiência em carga geral e portos de escalas, que irá auxiliar o Comandante do navio.
No contrato de afretamento consta uma cláusula referente ao Supercargo que cuida dos interesses do Afretador, embora a responsabilidade pelo carregamento seja sempre do Comandante do navio.
Normalmente, é reservado ao Supercargo uma cabine onde possa controlar documentação da carga, fazer cálculos e descansar. Também é oferecido refeições e outras facilidades.
Geralmente, os navios afretados são tramps de construção mais barata, velocidade 15 nós e possuem coberta e pouco aparelhamento para movimentação de carga.
A palavra tramp significa vagabundo, que quer dizer navio que fica pelos mares, enquanto seus proprietários, através de corretores procuram serviços para ele na bolsa de afretamento.
Quando ainda embarcado, tive experiências com navios de carga geral e frigoríficos, posteriormente, na Cosipa, operando graneleiros e embarque de produtos siderúrgicos (chapas, bobinas de atados), operando inclusive em barcaças de navios lash.
Posteriormente, já como funcionário da Hamburg-Süd em Santos, operei navios de containers e roll-on/roll-off. Para o Supercargo, é imprescindível o idioma inglês, pois navios tramps são de bandeira e tripulações variadas, onde os mais difíceis de serem entendidos eram os chineses.
Na Hamburg-Süd, além de operar navios no Porto de Santos, tive oportunidade de atuar como Supercargo por vários anos em navios afretados no serviço de carga geral “B-Service” entre portos brasileiros e norte da Europa.
No Brasil, operei em Rio Grande, Itajaí, Paranaguá, Santos, Rio de Janeiro, Vitória, Ilhéus, Salvador e Recife, com carregamentos destinados aos portos de Le Havre, Autuérpia, Rotterdam, Bremen e Hamburgo.
Os tipos de carga mais freqüentes eram: algodão, café, cacau, fumo, celulose, alumínio, madeira, ferro cromo (granel), óleo e suco de laranja, bobinas e pallets de papel, entre outros. uidados especiais com cargas incompatíveis (fumo, cacau, café) para não serem avariadas pelo odor, tendo o cuidado de estivar em porão separado.
Cargas consideradas perigosas também requerem atenção e estivagem especial, conforme determinação IMO, bem como o limite a ser carregado.
É importante que, antes da chegada do navio ao primeiro porto para embarque, o Supercargo receba cópia da Carta de Afretamento (ou principais cláusulas), planos de capacidade e arranjo geral do navio para visualizar detalhes de equipamentos, dimensões e capacidade cúbica dos porões, aberturas das tampas e outros dados importantes.
Também, é importante receber as listas (em inglês) completas de engajamentos de todos portos de embarque fornecida pelo afretador antes do início do embarque, a fim de se fazer um planejamento inicial para que seja aprovado pelo Comandante do navio, levando-se em conta: estabilidade transversal, compasso (calados proa/popa), resistência estrutural longitudinal e qualidades marinheiras do navio.
Dependendo do formato dos porões deve-se selecionar carga pela embalagem com a finalidade de evitar avarias decorrentes dos balanços e arfagem do navio bem como quebra de estiva (espaços não utilizados pela carga). Exemplo: porão de proa (afunilado) estivar, de preferência, sacarias ou fardos.
Durante o carregamento, já nos portos de escalas, acontecem alterações cabendo ao Supercargo manter o comando do navio atualizado.
Como todo material de forração dos porões e operação da carga é fornecido pelo afretador, cabe ao Supercargo controlar os mesmos e orientar a preparação dos porões sempre acompanhado do Imediato.
Deve também estar bem informado pelo Operador Portuário sobre prontidão das cargas, e a seqüência de embarque será orientada pelo Supercargo, bem como equipamento a serem usados e requisição de mão-de-obra.
O Supercargo deve vistoriar a carga ainda nos armazéns para verificar o estado da mesma e evitar que cargas já avariadas possam embarcar.
Como Supercargo da Hamburg-Süd, operei várias classes de navios, principalmente SD-14 e Neptune com muita freqüência. Tive oportunidade de conhecer vários colegas Comandantes onde também conversávamos sobre a rotina de bordo, informações sobre portos de escala, cartas náuticas, navegação na costa do Brasil, serviços de prático, agente, etc. Toda coordenação e confecção do plano final de carregamento eram minha responsabilidade.
Sempre mantivemos contatos cordiais e profissionais com as tripulações, pois me sentia como continuação da vida do mar, bem como se fosse navio sob meu comando.