Com o setor energético como ponto crucial para o desenvolvimento mundial nos próximos anos, um acordo de cooperação para a produção e o desenvolvimento de biocombustíveis entre Brasil e Estados Unidos – os maiores produtores globais de etanol (álcool etílico) – deve beneficiar ambos os países e, também, todo o planeta. Essa é a avaliação de Carlos Eduardo Bueno Magano, diretor de logística da Cosan, maior processadora de cana de açúcar do mundo. Para isso, ele argumenta que será fundamental apontar uma especificação técnica única para o álcool. “Somente assim o incremento da utilização desse biocombustível, em detrimento aos combustíveis fósseis, será feito velozmente”.
Atualmente, Brasil e Estados Unidos concentram cerca de 70% da produção mundial de álcool. O número impressiona e ganha destaque pelo fato de ser cada vez maior a procura por alternativas ao petróleo e aos demais combustíveis fósseis. Alvo de diversificados protestos pelo planeta, o fenômeno do aquecimento global é, em grande parte, causado pelo demasiado uso desses combustíveis. O aumento da temperatura média no planeta tem no álcool um grande adversário, pois a substância regula a octanagem da gasolina e não altera a composição média dos gases do efeito estufa.
Magano destaca, ainda, outro fator para a intensificação do mercado de etanol: os principais produtores de petróleo são países que questionam a política, a cultura e a presença americanas, como o Iraque e a Venezuela de Hugo Chavez.
O potencial brasileiro chama cada vez mais a atenção do governo norte-americano. Tanto que na última semana o subsecretário de Estado americano para Assuntos Políticos, Nicholas Burns esteve no Brasil buscando um acordo estratégico entre os dois países na área de energia. Birns não deixa dúvidas sobre a intenção da parceria. “’’A energia tende a distorcer o poder de alguns Estados que nós achamos que têm um peso negativo no mundo. Então, quanto mais pudermos diversificar nossas fontes de energia e nos tornarmos menos dependentes do petróleo, melhor ficaremos”.
De acordo com Magano, que já ocupou a presidência do Sopesp (Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo) e foi homenageado com o prêmio Personalidade PortoGente 2005, a cooperação faz “todo sentido” na ótica dos norte-americanos. “Em geral, o Brasil vê os Estados Unidos como um líder, um exemplo a ser seguido. A presença da cultura deles aqui é forte e os valores são semelhantes, ao contrário dos países do Oriente Médio, que são inimigos naturais dos Estados Unidos. Por isso, do ponto de vista estratégico, o Brasil é o parceiro ideal”.
Ele alega, ainda, que para o Brasil essa também é “uma grande oportunidade”, pois o país sul-americano conta com um enorme potencial de áreas agriculturáveis. “Nenhum país do mundo tem tantas áreas não ocupadas como o Brasil”. A declaração de Magano é reforçada por números e constatações. Diferente dos estados Unidos e da Europa, o Brasil produz álcool a partir da cana de açúcar, matéria-prima que mais equilibra o CO2 (dióxido de carbono) no meio ambiente e ainda é mais eficiente para a produção. A plantação de cana ocupa cerca de 6 milhões de hectares no Brasil. E ainda há espaço para ela crescer. Apesar da preocupação mundial que o desmatamento da Amazônia provoca no resto do mundo, o país ainda tem 90 milhões de hectares cultiváveis, fora das áreas sensíveis.