“Crime e Castigo portenho”. Assim foi chamado o ciclo formado pelos livros “Os Sete Loucos” e “Os Lança-chamas”, romances do argentino Roberto Arlt (1900-1942). A expressão está na conclusão da dissertação de mestrado “Subsolos portenhos: o intertexto Arlt-Dostoiévski, de Vitor Alexandre Ribeiro, defendida em 2007 no Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A conclusão de Ribeiro recupera a História de seu contato com os romances do autor latino-americano e a obra do escritor russo, principalmente “O homem do subsolo” e “Crime e Castigo”, que exalam um clima de paranoia (o primeiro) e de especulação em torno das consequências morais e filosóficas do crime, particularmente o assassinato (o segundo).

 

A dissertação investiga e explora (criando conhecimento em língua portuguesa sobre o assunto) uma influência já conhecida de um sobre o outro principalmente no mundo hispânico. No prólogo da edição que faz parte da coleção Letras de América de “Los siete locos” (publicado originalmente em 1929, seguido em 1931 por “Os lança-chamas”), bem, nesta edição publicada em Madri pela Mestas, Erdosain, o protagonista, é descrito como um personagem “pobre e medíocre que se move entre personagens também pobres e medíocres em uma atmosfera deprimente que lembra muito ‘Gente Pobre’, de Dostoievsky”.

 

Para completar, o próprio Arlt admitiu a influência direta em um texto autobiográfico, em tradução publicada no blog o reduto por Felipe Augusto Vicari de Carli, no qual conhecemos também uma visão do autor sobre sua própria obra em construção:

 

Me chamo Roberto Christophersen Arlt, e nasci numa noite do ano 1900, sob a conjunção dos planetas Saturno e Mercúrio. Fiz-me sozinho. Meus valores intelectuais são relativos, porque não tive tempo de me formar. Tive sempre que trabalhar e em consequência sou um improvisado ou adventício da literatura. Esta improvisação é a que faz tão interessante a figura de todos os ambiciosos que de uma forma ou de outra têm a necessidade de afirmar seu eu.

 

Creio que a vida é bonita. É preciso apenas afrontá-la com sinceridade, desentendendo-se em absoluto de tudo que não nos faz melhores, mas não por amor à virtude, senão por egoísmo, por orgulho e porque os melhores são os que dão coisas melhores.

 

Atualmente trabalho num romance que se intitulará Os sete loucos, um índice psicológico de caráteres fortes, cruéis e torcidos pelo desequilíbrio do século.

 

Minhas ideias são singelas. Creio que os homens necessitam de tiranos. O lamentável é que não existam tiranos geniais. Talvez porque para ser tirano há que ser político e, para ser político, um solene burro ou um estupendo cínico.

 

Em literatura só leio Flaubert e Dostoievski, e socialmente me interessa mais o trato dos canalhas e charlatães que o das pessoas decentes.

 

A abertura do episódio “Ingenuidade e idiotismo” (tradução minha), de “Los siete locos”, é um das dezenas de trechos em que Roberto Arlt nos revela sua herança literária:

 

O cronista desta história não se atreve a definir Erdosain, tão numerosas foram as desgraças de sua vida, que os desastres que mais tarde provocou na companhia do Astrólogo podem ser explicados pelos processos psíquicos sofridos durante seu casamento

Ainda hoje, quando releio as confissões de Erdosain, parece inverossímil que eu tenha assistido a tão sinistros progressos de impudor e angústia.
Me lembro. Durante aqueles três dias em que esteve refugiado em minha casa, lá confessou tudo.

 

Pós Escrito

Para justificar a temática “portuária” desta coluna, lembro que a São Petersburgo de Dostoievski e a Buenos Aires de Arlt são ambas portos, cidades-portas para o mundo, lugares-fronteira, espaços híbridos que favorecem a ocorrência de estilos e formas literárias de toda a parte em novas combinações.

 

Referencias:

Roberto Arlt. Los siete locos. Coleção Letras de América. Madri, Espanha: Jorge Mestas Ediciones, 2000.

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