Pablo Neruda (1904-1973), poeta chileno Nobel de Literatura de 1971, passou algumas vezes por Santos. No primeiro verso de seu poema “Santos Revisitado (1927-1967)”, do livro “A Barcarola” (1967), muito lido neste Porto Literário, ele escreveu: “Santos! É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos”, referindo-se às datas do título.

Em uma edição de “A Barcarola”, publicada em Buenos Aires em 2004 pela editora Debolsillo, que encontrei no último domingo, o editor Hernán Loyola escreve nas notas que há uma crônica de Neruda sobre a primeira passagem por Santos, “Imagem Viajante”, publicada no livro póstumo “Para nascer nasci”, de 1978. Abaixo, publico uma tradução a partir da edição da Seix Barral, de Barcelona, do mesmo ano. A crônica abre o caderno 2 do livro, com textos de viagem publicados originalmente no jornal La Nación, de Santiago, em 1927.

Isso faz alguns dias. O imenso Brasil saltou em cima do barco.

Desde cedo, a baía de Santos foi cinzenta, e depois, as coisas emanaram sua luz natural, o céu se fez azul. Então, a margem apareceu na cor de milhares de bananas, aconteceram as canoas repletas de laranjas, pequenos macacos se balançavam ante os olhos e de um extremo ao outro do navio chiavam com estrépito os papagaios.

Fantástica terra. De sua entranha silenciosa, nem uma advertência: os maciços de luz verde e sombria, o horizonte vegetal e tórrido, sua extensão, cruzada, secreta, de cipós gigantescos enchendo a distância em uma circunstância de silencio misterioso. Mas as barcas rangem desaninhadas de caixotes: café, tabaco, frutas por enormes milhares e o odor joga uma das narinas para a terra.

Quarenta anos depois, no poema, o forte cheiro do porto lembrava “uma axila do Brasil calorento”, ou caloroso, na tradução de Olga Savary. Na parte II do poema, todo essa imagem seria reelaborada:

II

Aquele Santos de um dia de junho, de quarenta anos menos,

volta a mim com um triste cheiro de tempo e bananeira,

com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,

e uma raivosa chuva quente sobre o sol.

Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,

feridas pululantes da terra. Adeus

noções! Aprendi o calor

como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:

aprendi os meses da monção e a insensata

fragrância da manga de Mandalay (penetrante

como flecha veloz de marfim e bochecha),

e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,

obscuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.

Pós Escrito
Tanto “A Barcarola” como “Para nascer nasci” estão publicados em português. O primeiro pela L&PM, com a tradução de Olga Savary, e o segundo em várias edições desde a década de 80.

Pós escrito 2
No próximo domingo, às 18 horas, no Sesc Santos, “Santos Revisistado (1927-1967)” e outros poemas que passaram pelo Porto Literário serão apresentados no recital “Rota Literária”, em que duas atrizes apresentam um passeio poético pelo porto de Santos com versos também de Elizabeth Bishop, Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Rui Ribeiro Couto, Roldão Mendes Rosa, Narciso de Andrade, Alberto Martins, Flávio Viegas Amoreira, Madô Martins e Ademir Demarchi, muitos dos quais transformados em canções. O recital acontece no auditório e a entrada é gratuita.

Pablo Neruda. La Barcarola. Edição e notas de Hernán Loyola. Prólogo de María Grabriela Mizraje. Buenos Aires: Debolsillo, 2004 (1ª edição 1967).

Pablo Neruda. Para nacer he nacido. Barcelona, Espanha: Seix Barral, 1978.

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