Apresentei o poeta peruano Javier Heraud (1942-1963) neste espaço quando Porto Literário traduziu trechos de suas “Viagens Imaginárias”. Escrevi sobre ele que “o tema das chegadas e partidas, de pessoas, de rios e de estações, atravessa sua obra poética”. Hoje, ficamos com seu primeiro livro “O rio” (1960), metáfora do percurso humano em que canta em primeira pessoa a travessia de um rio, da nascente ao mar, o que se manifesta desde o primeiro verso, “Eu sou um rio”.

O rio de Heraud desce por pedras, entre árvores, recebe as chuvas, passa por pontes, às vezes é “terno e bondoso”, outras “bravo e forte”, transborda e inunda “casas e pastos”. As partes 7 e 8 do poema narra a interação entre o rio e a vida humana.

7

Eu sou o rio que canta

ao meio-dia e aos

homens,

que canta ante suas

tumbas,

o que volta seu rosto

ante os leitos sagrados.

 

8

Eu sou o rio anoitecido.

Eu desço pelas profundas

quebradas,

pelos ignotos vilarejos

esquecidos,

pelas cidades

atestadas de público

nas vitrines.

Eu sou o rio,

agora vou pelas pradarias,

há árvores ao meu redor

cobertas de pombas,

as árvores cantam com

o rio,

as árvores cantam

com meu coração de pássaro,

os rios cantam com meus

braços.

Na nona e última parte, o rio chega ao fim da vida no mar, ou a vida chega ao fim do rio na morte.

9

Chegará a hora

em que terei que

desembocar nos

oceanos,

que mesclar minhas

águas limpas com suas

águas turvas,

que terei que

silenciar meu canto

luminoso,

que terei que calar

meus gritos furiosos ao

amanhecer de todos os dias,

que clarear meus olhos

com o mar.

O dia chegará,

e nos mares imensos

não verei mais meus campos

férteis,

não verei minhas árvores

verdes,

meu vento próximo,

meu céu claro,

meu lago escuro,

meu sol,

minhas nuvens,

não verei nada,

nada,

unicamente o

céu azul

imenso

e

tudo se dissolverá em

uma planície de água,

onde mais um canto ou um poema

serão só pequenos rios que descem,

rios caudalosos que descem para se juntar

em minhas novas águas luminosas,

em minhas novas

águas

apagadas.

Pós Escrito
Militante do Exército de Libertação Nacional do Peru, Javier Heraud morre em 15 de maio de 1963 justamente no leito de um rio, o Madre de Dios, em frente à cidade de Puerto Maldonado, baleado pelo exército.

Referência
Javier Heraud. El Río. In: Poesía Reunida. Lima, Peru: Peisa, 2010.

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