“História dos ossos” é o novo lançamento de Alberto Martins, autor também de “Cais” (2002, ver “As imagens do cais”, coluna de 08 de agosto). “História dos Ossos” é composto por duas novelas em que as imagens poéticas de Santos e do litoral, exploradas na obra anterior, voltam para compor uma narrativa que acompanha uma situação familiar, a transferência da ossada do pai do narrador do cemitério do Paquetá, que será transformado em um pátio de contêineres, para outro lugar.

 

A ida ao cemitério desperta no narrador, que mora em São Paulo, uma série de lembranças das ruas e da cidade em sua infância. São descrições de alta formulação poética, como a que segue abaixo:

 

“Para mim, a cidade sempre fora uma faixa de areia cinza que mudava de tom em direção ao mar. No morro em frente, as letras brancas de um anúncio de leite, e ao lado dois enormes ponteiros marcavam as horas. Perto da calçada, a areia queimava os olhos e os pés, passando depois por todas as variações climáticas intermediárias: era morna e cheia de morrinhos debaixo das esteiras; dura e coberta de bitucas, ali onde os adultos riscavam as quadras de tamboréu; áspera, brilhante e fria, na beira d'água.

No grosso era areia batida que se cobria aos sábados e domingos de milhares de saquinhos  de polvilho, copos de plástico, garrafas de cerveja, brinquedos destocados, restos de jornal, vidros de loção, chaves, isqueiros, cortadores de unha, alianças e mais um sem-números de objetos que aproveitam o fim de semana para trocar de dono”.

 

Mas como esta não é uma coluna de crítica literária, mas das relações entre literatura, história e o porto de Santos, vamos destacar a propriedade que a literatura de Alberto Martins tem de apreender a realidade de forma ubíqua, em que os fatos no texto literário valem menos como registro histórico do que sua capacidade de explorar a identidade de um local. Vamos aos exemplos:

 

O motivo da narração de “História dos ossos”, a transformação do Cemitério do Paquetá – que na novela não tem nome – em um pátio de contêineres nada mais que capta as transformações urbanas que a crescente movimentação do porto de Santos causa nas cidades da Baixada Santista, como pode ser verificado na discussão da implantação desses pátios em Cubatão ou no tema da reportagem de capa da última edição do caderno mensal Porto Cidade, do Jornal da Orla.

 

A visita do narrador ao cemitério também ocasiona a descrição da degradação da área em torno do local:

 

“Um renque de sobrados se estirava do outro lado da rua. Por uma porta entreaberta viam-se pedaços de corredor e uma escada trêmula, roída de cupins, que devia subir para os quartinhos abafados, onde se apinhavam famílias inteiras e mulheres”.

 

Em “Cais”, também estão lá essas imagens que exploram as possibilidades literárias de cada local. Desde a maresia e seus efeitos no corpo e no espírito das coisas até cenas mais concretas como a do “martelo do mar” (quem não se lembra dos estragos na Ponta da Praia causados pela ressaca?) ou do perigo cotidiano das travessias nas balsas do Ferry Boat.

 

Essas observações caminham para corroborar a tese de que cada lugar gera seu próprio tipo de história, formulada pelo pesquisador italiano Franco Moretti. Em sua obra, ele mapeia como os gêneros literários se articulam com os locais em que as histórias acontecem. Entre outros exemplos ele aponta a importância da fronteira nas histórias de aventura (além da fronteira é o espaço do desconhecido e, freqüentemente, do inimigo).

 

Assim, podemos levantar a hipótese de que a literatura de Alberto Martins (mesmo que o autor não mereça a limitação dos rótulos) se forma em torno de chegadas, de partidas e de breves permanências simbolizadas pelo ataque da maresia que destrói as coisas. A imagem é do próprio Alberto Martins, na parte 6 de “Em torno da cidade”:

 

“cais

onde as coisas ancoram

onde as coisas demoram

algum tempo

antes de partir

 

lá está o morto

vivendo de uma outra vida

que só diz respeito ao corpo

 

lá estão seus ossos

pacotes bem embolados

prontos para subir a bordo

 

CAFÉ ALUMÍNIO CEVADA

SOJA CIMENTO

CARNE

 

– mas pra quê tantos guindastes

se o corpo não se move

jamais?”

 

Ou na descrição da situação do túmulo do pai do narrador em “História dos Ossos”:

“Dera infiltração no túmulo do pai.

 

O piso havia cedido e a laje de cima ameaçava tombar, travando de vez a portinhola e esmagando tudo o que se encontrava lá dentro”.   

 

Referências:

MARTINS, Alberto. História dos ossos. Editora 34, São Paulo, 2005.

MARTINS, Alberto. Cais. Editora 34, São Paulo, 2002.

MORETTI, Franco. Atlas do Romance Europeu. 1800-1900. Boitempo, São Paulo, 2003.
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