“Correspondência de Lima Barreto” reúne em dois volumes da editora Brasiliense as cartas trocadas entre o autor e diversas personalidades do mundo intelectual. O final do Tomo II traz seis páginas com a transcrição de algumas trocadas com o médico e escritor Ranulpho Prata, autor de “Navios Iluminados”, obra das mais freqüentadas pela coluna.

 

Do breve período de janeiro a julho de 1921 seis delas foram recuperadas para publicação, cinco de Prata ao autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. O fato de só haver uma tendo Lima Barreto como remetente é lamentado pelo autor do prefácio da coletânea, Antônio Noronha Santos, já que Prata, então um jovem entre 24 e 25 anos, era um grande amigo na última fase da vida de Lima Barreto, morto em novembro de 1922.

 

Algumas cartas tratam dos arranjos para a temporada que Lima Barreto faria em Mirassol, no interior de São Paulo, onde Prata clinicava. Tudo indica que os dois teriam se conhecido no Rio de Janeiro, onde o autor de “Navios Iluminados” terminou seus estudos em 1920. O assunto de outras é a circulação de correspondências e livros entre os dois e Carlos Garrido, descrito como “aquele rapaz jornalista alagoano”, a quem Lima havia mandado uma cópia de “Histórias e Sonhos”. Essa informação, em particular, nos remete à história dos livros, sua circulação e a formação de leitores.

 

A gênese de “Navios Iluminados” - Na semana anterior, foi levantada a hipótese de como o bairro do Macuco na obra de Ranulpho Prata representa todo o país devido à natureza portuária da cidade e de como ela dá forma aos fluxos migratórios dentro da nação. Para isso, comparou-se “Navios Iluminados”, de 1937, com uma obra anterior do mesmo autor, “Dentro da Vida”, de 1922.

 

Nas cartas entre os dois, trocadas no período imediatamente anterior à publicação de “Dentro da Vida”, Lima Barreto incentiva Prata a escrever o romance a partir de um conto sobre um tal Fagundes, médico que abandona a cidade para clinicar no interior. A carta de Lima Barreto é de 03 de janeiro de 1921:

 

“Li teu conto no Jornal, o qual tiveste a bondade de me dedicar. Muito obrigado. Está bom e próprio para ‘jornal’. Podias, porém, detalhar um pouco mais, entrar nas causas da transformação do doutor Fagundes, chic, elegante, um pouco pedante, no simplório ‘Seu’ Fagundes da botica e do gamão. Tente fazer um romance daí que terás feito obra curiosa. Estudarás bem a influência da roça, a adaptação à vida dela, com seus encantos e defeitos (...)”.

 

Em resposta, datada de 14 de janeiro, Ranulpho Prata avisa o amigo que vem esboçando um novo livro, cujo nome provisório era “Esculápio de província”:

“Não sei se chegarei a publicá-lo. Se voltar ao Rio, é possível que o faça, em caso contrário é tudo esquecer e tornar-me um ‘Fagundes’”.

 

É esse o enredo de “Dentro da Vida”, que sairia no ano seguinte, um médico que deixa o Rio de Janeiro para clinicar em Santa Clara, no interior de Minas Gerais.

 

Na mesma carta, temos a evidência de que Prata tinha noção de que determinadas histórias só acontecem em determinados lugares. Ao comentar a leitura de “Histórias e Sonhos”, do amigo, destaca a originalidade de Lima Barreto ao registrar “a gente e os costumes desse Rio infernal e delicioso”. Nesse momento Prata descobre qual o tipo de romance que queria escrever e sabe que só o ambiente urbano poderia lhe oferecer os subsídios para este novo tipo de história:

“Pudesse eu tornar-me um seu discípulo e fazer o mesmo aqui! Infelizmente, porém, nada posso fazer no interior, num ambiente que asfixia e mata”.

 

Assim, por exclusão e antes mesmo que Ranulpho Prata viesse a morar em Santos, vemos como começa a ser concebido o que em 1937 seria o romance “Navios Iluminados”, com seus tipos urbanos de uma cidade que retém em sua natureza portuária toda a movimentação populacional de um país que se modernizava.

 

Referência:

Lima Barreto. Correspondência. Prefácios de Antônio Noronha Santos (Tomo I) e B. Quadros (Tomo II). Editora Brasiliense, São Paulo, 1956.
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