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Logo no início de “Un paseo por la literatura”, prosa poética de 1994 em que o autor enumera sonhos, Bolaño descreve a condição “sudaca”. É também uma das primeiras aparições da figura do detetive em sua obra:

2. Pela metade ficamos, pai, nem cozidos nem crus, perdidos na grandeza deste lixão interminável, errando e nos equivocando, matando e pedindo perdão, maníacos depressivos em teu sonho, pai, teu sonho que não tinha limites e que desentranhamos mil vezes e depois mil vezes mais, como detetives sul-americanos perdidos em um labirinto de vidro e barro, viajando sob a chuva, vendo filmes onde apareciam velhos gritando “tornado!”, “tornado!”, olhando as coisas pela última vez, mas sem vê-las, como espectros, como sapos no fundo de um poço, pai, perdidos na miséria de teu sonho utópico, perdidos na variedade de tuas vozes e de teus abismos, maníacos depressivos na inabarcável sala do Inferno onde é cozido teu Humor.

O lixão interminável também é uma metáfora latino-americana. É só lembrarmos o lixão do romance póstumo “2666”, El Chile, no qual, entre outros lugares, são encontrados corpos de mulheres assassinadas. No mesmo livro, Chile, o país e por extensão toda a América Latina, é assim descrito:

a carnificina de Patricio Lynch, os intermináveis naufrágios de Esmeralda, o deserto de Atacama e as vacas pastando, as bolsas Guggenheim, os políticos socialistas falando bem da política econômica da ditadura militar, as esquinas onde se vendiam empanadas fritas e mote con huesillos para beber, o fantasma do Muro de Berlim que ondulava nas imóveis bandeiras vermelhas, os maus tratos familiares, as putas de bom coração, as casas baratas, o que no Chile chamavam ressentimento e Amalfitano chamava loucura.

Do registro ficcional para o das ciências humanas, essa geografia da diáspora é levada em conta pelo professor e pesquisador Néstor García Canclini, ele mesmo um argentino que deixou seu país durante a ditadura e hoje dá aulas na Universidad Autónoma Metropolitana, na Cidade do México. Em “Latino-americanos à procura de um lugar neste século” (ensaio escrito nos primeiros anos do século XXI e publicado em 2008), ele faz a seguinte consideração:

Um ponto de partida deste ensaio é atentar àquilo que na globalização não aceita o nome de mercado. A variedade de transformações não econômicas salta aos olhos quando vemos as diversas razões pelas quais médicos argentinos e físicos brasileiros vão pesquisar nos EUA, psicanalistas e empregadas domésticas vão para a Espanha, ou camponeses, mecânicos e operários do México e da Colômbia, que ganham mais do que nos seus países, mas menos do que seus novos vizinhos na Califórnia, em Chicago ou Madri. No último ano do século XX, o número de pessoas que deixaram o Uruguai igualou o das pessoas que nasceram no país. Vivem nos EUA, na Europa ou em outras nações latino-americanas 15% dos equatorianos e aproximadamente um décimo de argentinos, colombianos, cubanos, mexicanos e salvadorenhos. A América Latina não está completa na América Latina. Sua imagem é desenvolvida por espelhos dispersos no arquipélago das migrações.

“A América Latina não está completa na América Latina”. Belo fio a ser puxado desde dentro da obra de Bolaño. A ver.  

Referências
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 (1ª ed. 2002).

Roberto Bolaño. Un paseo por la literatura. In: Tres. Barcelona, Espanha: Acantilado, 2000.

Roberto Bolaño. 2666. Barcelona, Espanha: Anagrama, 2004.

Néstor García Canclini. Horizontes: 2005-2010. In: Latino-americanos à procura de um lugar neste século. Tradução Sérgio Molina. São Paulo: Iluminuras, 2008.

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