Aproveitando o mote da série sobre a Operação Unitas, “Diário de Bordo”, sob responsabilidade da colega de PortoGente Cláudia Dominguez, o Porto Literário desta semana deixa um pouco a ficção de lado para dar vez a um comentário sobre o “Diário da Navegação”, diário de bordo escrito por Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso de Sousa e imediato na expedição exploratória enviada às terras brasileiras por Dom João III, rei de Portugal, que resultaria na fundação da Vila de São Vicente.

 

O diário é datado de 03 de dezembro de 1530 a 22 de janeiro de 1532, quando Pero Lopes relata a decisão de Martim Afonso de distribuir as terras da Ilha de “Sam Vicente” entre os integrantes da expedição e dar início à ocupação portuguesa.

 

Nesse período, a expedição de Martim Afonso, constituída por uma esquadra formada pelas naus Capitania, S. Miguel, S. Vicente, Rosa e Princesa, cruzou o Atlântico com 400 homens para explorar terras ainda desconhecidas por parte dos europeus. Da Ilha de Fernando de Noronha à Bacia do Prata, Pero Lopes relata uma série de aventuras: tempestades, contatos com nativos, encontros com desterrados e busca de suprimentos para a tripulação.

 

No espírito da Operação Unitas – um exercício de guerra –, vamos destacar o confronto marítimo entre a esquadra portuguesa e navios franceses que contrabandeavam pau-brasil. O confronto entre as naves se deu entre 31 de janeiro e dois de fevereiro de 1531, na altura do Cabo de Santo Agostinho, hoje município do estado de Pernambuco.

 

Pero Lopes relata que no início da manhã, durante o “quarto d’alva” (período entre 04 e 08 horas) do dia 31, os portugueses avistam uma nau e, a “todas velas”, vão ao seu encontro. Martim Afonso manda quatro naus da esquadra a cercarem (“dous navios na volta do norte, - na volta em que a nao ia, e outros dous na volta do sul”).

 

Sem opção de navegação, os franceses se voltam em direção à costa e, após serem alvo de um tiro de canhão, deixam a nau e, de batel (embarcação menor, usada para pesca pelas tripulações), fogem para a terra firme. Parte da tripulação da nau “Princeza” (com z no português da época) segue os adversários, mas estes já estavam metidos “pela terra adentro”. Capturada, a nau francesa “tinha muita artelheria e polvora, e estava toda abarrotada de brasil”. Retomando o rumo para descer a costa brasileira, a esquadra encontra ainda outra embarcação francesa carregada que é também tomada pelos portugueses.

 

No dia seguinte, 01º de fevereiro, logo ao romper da alva, a esquadra portuguesa consegue contato visual com outra nau invasora – lembremos que o Tratado de Tordesilhas, de 1494, dividia a América entre espanhóis e portugueses. Novamente, os franceses tentam fugir a “todalas velas”, mas são alcançados pela nau de Pero Lopes por volta de uma da tarde. Só que desta vez a iniciativa é dos franceses, que atiram duas vezes. A batalha é longa e o texto é no original para dar mais sabor:

 

“Este dia hûa hora de sol, cheguei á nao, e primeiro que lhe tirasse, me tirou dous tiros: antes que fosse noite lhe tirei tres tiros de camelo, e tres vezes toda a outra artelheria: e de noite carregou tanto o vento lessueste, que nam pude jogar senam artelheria meuda: e com ella pellejamos toda a noite.”

 

A batalha acaba por falta de pólvora para a artilharia francesa. Apesar da vitória, os estragos são grandes. Pero Lopes relata o resultado de 32 tiros dados pelo inimigo: aparelhos quebrados e todas as velas rompidas, “com a artelheria meuda lhe ferimos seis homês: na caravela me nam mataram nem feriram nenhum homem, deque dei muitas graças ao senhor Deus”.

 

Em “História Concisa do Brasil”, o historiador Boris Fausto destaca que a maior ameaça à posse do Brasil por Portugal vinha dos franceses:

 

“A França não reconhecia os tratados de partilha do mundo, sustentando o princípio do uti possidetis, segundo o qual era possuidor de uma área quem efetivamente a ocupasse. Os franceses entraram no comércio do pau-brasil e praticaram a pirataria, ao longo de uma costa demasiado extensa para que pudesse ser guarnecida pelas patrulhas portuguesas”.

 

E, em seguida:

 

Considerações políticas levaram a Coroa portuguesa à convicção de que era necessário colonizar a nova terra. A expedição de Martim Afonso de Sousa (1530-1533) representou um momento de transição entre o velho e o novo período. Tinha por objetivo patrulhar a costa, estabelecer uma colônia [...] (São Vicente, 1532) e explorar a terra tendo em vista a necessidade de sua efetiva ocupação”.

 

Na próxima semana, o Porto Literário inicia uma série de reportagens sobre sebos de Santos, com curiosidades sobre seus acervos e o que oferecem de mais interessante aos leitores.

 

Até lá.

 

Referências:

Pero Lopes de Sousa. Diário da Navegação. In: Cadernos de História. Volume I. Direção de Brasil Bandecchi. São Paulo; Editora Parma, 1979.

 

Boris Fausto. História Concisa do Brasil. 2ª Edição. São Paulo; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Edusp; 2002.
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