Em um perfil sobre Narciso de Andrade escrito para a revista da Academia Brasileira de Letras, Adelto Gonçalves, autor de Barcelona Brasileira, nos informa sobre uma passagem da infância de Andrade quando havia conhecido Martins Fontes, um poeta de voz fascinante, mas, que na década de 20, já era um poeta fora de moda: “nunca mais se recuperara desde que Mário de Andrade ridicularizava o seu fazer poético na revista Klaxon”.

 

Um passeio pela Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, no último final de semana, permitiu ao Porto Literário o acesso à revista bimestral do movimento modernista atrás da dica do texto de Adelto Gonçalves. O resultado substitui nesta semana a série sobre os sebos de Santos, que volta na próxima coluna.

 

O número que traz a crítica a Martins Fontes é de Dezembro-1922/Janeiro-1923, período de solidificação do movimento que despontou com a Semana de Arte Moderna de 22. Do início ao fim de um texto de um pouco mais de uma página, Mário de Andrade não poupa ironia ao comentar “Arlequinada”. “Marabá” ele deixaria para “dia de mais pachorra”.

 

Toda a crítica é construída em torno do tema desta estrofe de Martins Fontes (a grafia é a da revista):

 

“Mamam os filhos, às vezes

sem parar, sem ter canseira.

Mamam na mãi nove meses

e no Pai a vida inteira”

 

Para o escritor modernista, a musa (inspiração) do poeta santista já estava “farta, bifarta, trifarta, multifarta” e não teria se preocupado em ir adiante. Havia se tornado “atrasada, ramerrámica e pernóstica a sugar e ressugar as murchas mamas dos aludidos pégasos”. Mário de Andrade decreta como concluída a carreira poética do “doutor Fontes”. Para o crítico, só a Revista de língua quinhentista Portuguesa publicaria tais versos.

 

O autor de “Paulicéia Desvairada” e “Macunaíma” elogia a técnica de Fontes, seu conhecimento “louvável” da língua, vocabulário “extensíssimo”, espírito, instrução, mas o resultado é ultrapassado: “Mas tudo isso somado, multiplicado, não dá poesia, oh não!”. Seus versos e sonetos parnasianos, na década de 20, estavam “batidos, martelados” e suas rimas “desesperadamente esperadas”.

 

Mário de Andrade conclui a crítica com três neologismos escritos em letra maiúscula sobre a obra de fontes. Este colunista sem imaginação conseguiu apenas se aproximar do último, algo que possa ter relações com a expressão “vá de ré”:

 

“É HORDORAL, ABRENUNCIAL, E VADERETRIZ!”

 

E, em seguida:

 

“Força é pois vaiar, fiaufiauizar, batatizar, ovopodrizar nesta linhas tão alaidal mamata”.

 

É preciso dizer que Mário de Andrade bate em Martins Fontes para bater no Parnasianismo. Ao analisar a obra crítica do escritor, João Luiz Lafetá localiza sua produção dos anos 20 caracterizada pela “necessidade” de ruptura com os procedimentos literários herdados do Parnasianismo. Esses procedimentos formariam uma prisão técnica que impedia o aparecimento do real lirismo. Lafetá explica:

 

“A poética parnasiana levara a um verdadeiro fetichismo da técnica; métrica, rima, chave de ouro, cesura [nome dado a uma série de procedimentos métricos dentro do verso] obrigatória, todos os pequenos truques da versificação eram confundidos e identificados com a poesia. Sucede que tal poética tinha seus quadros muito estreitos, incapazes de abranger aspectos importantes da poesia: a ênfase exagerada no papel da técnica resultava na diminuição igualmente exagerada do valor da inspiração. Mário se insurge contra esse desequilíbrio (...).”

 

Uma das formas de se fazer isso era incluir nos próprios textos críticos as novas balizas que regiam a produção literária. Assim como no “Prefácio Interessantíssimo” à “Paulicéia Desvairada”, o uso das maiúsculas como nos neologismos contra Martins Fontes equivale ao aumento do tom de voz, como se a grafia em “caixa alta” funcionasse como uma partitura.

 

Descompasso – Lafetá indica que Mário de Andrade pesquisava a linguagem sob três aspectos “diferentes e complementares” de sua natureza: “enquanto se organiza em obra de arte (enfoque estético), enquanto expressa a vida individual (enfoque psicológico) e enquanto participante da vida social (enfoque sociológico)”. Podemos arriscar que o poeta Martins Fontes, parnasiano como o amigo Olavo Bilac (enfoque estético), andava em descompasso com o Martins Fontes de inclinações anarquistas que discursava a favor dos trabalhadores (enfoque sociológico), como retratado pelo próprio Adelto Gonçalves no protagonista de Barcelona Brasileira. Enquanto o primeiro produzia versos do século XIX, o segundo mergulhava nos embates ideológicos do século XX, que o Modernismo tão bem caracterizou.

 

Referências:

João Luiz Tafetá. “A consciência da linguagem”. In: 1930: A Crítica e o Modernismo. Coleção Espírito Crítico. São Paulo; Duas Cidades/Editora 34. 2000.

 

Obras de Martins Fontes podem ser lidas na Biblioteca da Sociedade Humanitária dos Empregados do Comércio de Santos, na Praça José Bonifácio, 59, 1º andar.

 

Colunas sobre Martins Fontes e o romance Barcelona Brasileira:

“De carro entre a cidade do porto e a cidade da praia” – 10 de outubro de 2005.

“Os tempos da ficção, da escrita e da leitura” - 15 de agosto de 2005.

“Os nomes da cidade” - 01º de agosto de 2005.
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