Pesquisas históricas às vezes se voltam aos estudos do presente. A prática, controversa entre historiadores, é resultado das aproximações entre as ciências humanas nas últimas décadas, principalmente, no caso do presente, da antropologia e da etnologia. Talvez seja assim que se possa dar sentido histórico à disposição das padarias de nosso bairro ou da distribuição de energia elétrica pelos bairros de uma metrópole ou de subestações pelo interior do país.

 

Quem com certeza dá muito bem conta desse imbricado ponto entre todo o passado e todo o futuro são os autores de ficção. A literatura, também a filosofia, costuma permanecer atenta aos dias cotidianos.

 

N’ “O Oitavo Dia da Semana”, romance desse 2005 que já parte, Nelson de Oliveira nos leva a uma megalópole brasileira cujos habitantes mantêm fresca memória de uma guerra. É uma Rio de Janeiro apaulistanada ou uma São Paulo que desceu a Serra e tomou toda a Baixada. Essa hibridização torna o mar uma referência narrativa no oitavo dia da semana, o dia em que “o diabo tentou destruir o que Deus havia criado”. É o dia em que um apagão derruba todo o sistema de distribuição de energia entre os estados do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, além do Distrito Federal, e interfere na resolução de um drama familiar. As histórias se entrelaçam como o tecido urbano:

 

“Que rumo tomar? Telefonou para o Viveiros. Caixa Postal. Francisco tentou sair da pista em que seguiam, tornada úmida graças à chuva fina que começava a descer, chuvisco frio que além de confundir os motoristas deixava com ar de vulnerabilidade os pedestres que, na calçada, aguardavam os ônibus. Escapamentos, ronco de motores. Francisco buzinou, dezenas de outros motoristas buzinaram em resposta. O trânsito fechou-se dos dois lados. Duas muralhas corriam paralelamente, obrigando o Citroën a continuar na mesma linha canyon adentro. Mariana gritou uma frase engolada, gaguejante, que no entanto foi compreendida pelo Barbosa e principalmente pelo motorista, a quem o alerta era dirigido. Era uma ordem. Talvez a primeira ordem que a Mariana dava a ele, é, ao funcionário mais do Barbosa do que dela. Um aviso simples e direto. Se não parasse de buzinar, ela se atiraria para fora do carro”.

 

No blecaute, porém, só uma fonte sonora guia a personagem: o ruído do mar. E o drama de Mariana, tão impenetrável quanto à ausência de luz, é concluído com o narrador adotando a perspectiva do marido.

 

O registro estético é certamente diferente, mas a passagem seguinte, de “Submundo”, romance do estadunidense Don DeLillo de 1997, revela ao olhar do leitor contemporâneo, assim como na obra de Oliveira, cheiros e cores do presente em que vivemos nas ruas de nossas cidades:

 

“Um carro dá uma guinada súbita e sai da avenida e Cotter pára para deixá-lo passar. Então sente que alguma coisa mudou ao seu redor. Há uma ondulação na calçada ou no ar e um rápido relance no rosto da mulher que passa – ela desvia a vista para ver o que está acontecendo atrás dele. Cotter se vira e vê Bill vindo rápido, passos largos, braços balançando. É coisa demais por causa de uma bola de beisebol. O rosto de Bill avermelhando, o tecido lustroso das suas calças nos joelhos. Há no rosto dele uma expressão que pertence a uma pessoa totalmente diversa, um homem com outra experiência de vida, desesperado e impelido por forças.

[...].

Cotter corre de volta para a avenida ouvindo a respiração ofegante logo atrás dele. Já deixaram para trás a multidão de torcedores, aqui já é puro Harlem – basta agora chegar à esquina, onde há gente e luzes. Ele vê néon de botequim e um varal de roupas atravessando um terreno. Vê Frangos Recém-Abatidos Direto da Granja. Lê a placa, ou a apreende talvez de um só relance, e há nela algo de estranhamente completo e calmo, um gesto tranqüilizador. Duas mulheres se afastam um pouco quando ele se aproxima – olham para seu perseguidor, e Cotter repara na expressão de alerta em seus rostos, o aguçamento da atenção. Bill está perto, seus sapatos de homem de negócios batem forte no asfalto”.

 

Os personagens das duas passagens têm em comum a total atenção dos sentidos para a selva urbana. A palavra alerta, repetida nos dois trechos, serve também para descrever o ritmo deles. A audição (a buzina e o som do mar) que guia Mariana no oitavo dia da semana de Oliveira equivale no submundo de DeLillo à percepção de Cotter sobre a ondulação da calçada ou do ar.

 

Em “Submundo”, porém, DeLillo nos narra os momentos finais, os 60 minutos da última hora do sétimo dia da semana. E poucos motivos históricos poderiam melhor representá-los que a paranóia da corrida nuclear entre Estados Unidos e União Soviética desde a década de 50 do século passado até a década de 90, marcada pelo tráfico de arsenais atômicos após o colapso soviético e pelo colapso das periferias urbanas tomadas por AIDS e crack, presente em que o autor entrelaça – repito o termo – trajetórias de personagens distantes no tempo e no espaço.

 

Referências:

 

Nelson de Oliveira. O Oitavo Dia da Semana. Travessa dos Editores (citação na página 217). Curitiba; 2005.

Don DeLillo. Submundo. Companhia das Letras (citação nas pp. 49-50). São Paulo; 1999 (edição original de 1997).

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