O texto da semana poderia repetir o título da anterior (veja aqui) e ser chamado 'Sobre Literatura e História (3)', porque é exatamente a tensão entre a ficção e a realidade o fio condutor da obra do escritor argentino Juan José Saer, falecido em 2005.

 

Tendo as cidades da província de Santa Fé ao longo do Rio Paraná como cenário, a escritura de Saer, como disse o escritor e ensaísta Ricardo Piglia, “expõe em estado puro a tensão entre tradição local e cultura universal”. Tendo morado por décadas até a morte em Paris, Saer nunca deixou de localizar suas tramas de contos e romances na província onde nasceu em 1937.

 

A zona portuária de Saer surge já em sua primeira obra, “En la zona”, de 1960. A obra é dividida em duas partes: “Zona do porto” e “Mais ao centro” (traduções do colunista). O Porto de Saer não é um porto de cargas, é um porto de encontros, de vendedores que cruzam o rio, de pequenos bares e seus valentões, prostitutas e pistoleiros em mesas de jogo.

 

Mas ao contrário do porto de Piglia (o da cidade de Tigre, na província de Buenos Aires), não passam por ali fugitivos ou criminosos de alta periculosidade como os personagens de “Dinheiro Queimado”. As tensões que ocorrem em Santa Fé derivam do choque de gerações entre velhos e novos bandidos, do amor de um criminoso por uma prostituta cujo cafetão é o protetor do enamorado, das pendências entre antigos amigos. Os personagens, sempre adiante de bifurcações em suas trajetórias, procuram sobreviver sob a pressão dos códigos de conduta desse ambiente peculiar, como no conto Os amigos, que narra a trajetória de dois homens da terra:

 

“(...) logo depois haviam reconhecido gente que havia tratado com os dois antigamente, lugares percorridos pelos dois em momentos distintos, talvez recordados pelos dois de distintas maneiras, mas que, nomeados e individualizados pela palavra e pela recordação, se convocavam e se uniam com surpresa.

(...)

Assim recordava dele, agora que havia passado os cinqüenta e se sentia velho, e não fazia um ano que havia regressado à cidade depois de buscar aquele homem por todo o país, e ainda no Paraguai e em Montevidéu, pela simples razão de que havia resolvido matá-lo”.

 

Essa procura, uma espiral no tempo, traduz de certa forma a narrativa da primeira parte de “En la zona”. Passo de novo a palavra a Ricardo Piglia:

 

“Saer trabalha desde o princípio um material narrativo nitidamente localizado: a província de Santa Fé (ou mais precisamente certo trecho da costa do rio e certas ruas da cidade) é o âmbito onde se tramam histórias em que circulam e reaparecem, com variantes e mudanças de perspectivas, os mesmos personagens, as mesmas situações”.

 

É dessa variedade narrativa que o próprio Saer parece buscar seus argumentos sobre o conceito de ficção e como ela se relaciona com o real:

 

“(A ficção) não volta as costas a uma suposta realidade objetiva: muito pelo contrário, submerge em sua turbulência, desdenhando a atitude ingênua que consiste em pretender saber de antemão como essa realidade está feita. Não é uma claudicação ante tal ou qual ética da verdade, senão a busca de uma (verdade) um pouco menos rudimentar”.

 

Para Saer, a ficção não deve retratar a “verdade” com os rigores das ciências. O texto ficcional tem a função (acrescento eu, a função social) de “pôr em evidência o caráter complexo” do real, cuja retenção apenas pelo que pode ser verificado ou comprovado resultaria no seu empobrecimento e na sua redução. É a ficção um “tratamento específico do mundo, inseparável do que trata”.

 

Posição parecida foi publicada recentemente pela Folha de S. Paulo em uma entrevista feita com Julian Barnes, que deverá ter duas obras publicadas no Brasil em 2006, “Arthur & George” e “A mesa limão”:

 

“A ficção é uma forma de contar a verdade. É por isso que sou escritor de ficção: porque estou convencido de que os romances descobrem mais verdades do que ensaios, documentários de televisão e todo tipo de trabalho baseado em fatos”.

 

Outra discussão que o trabalho de Saer permite realizar é a da dicotomia entre literatura regional e literatura universal, assunto do qual a coluna se aproximou em “História regional ou história nacional – uma introdução interessante”.

 

Suas considerações sobre o assunto merecem a íntegra:

 

“Creio que a concepção de literatura regional é uma concepção pobre da literatura. Mas não porque a literatura regional não seja boa. Há escritores regionais que são lidos com muitíssimo prazer. Mas os leio para verificar coisas de que não sei, que gostaria de saber. Para me informar. (...) Não os leio para me encontrar nessa literatura. Creio que a boa literatura é vertical. Um escritor, quando constrói uma obra, ocupa o centro do universo. Se um escritor se define como regional está, de antemão, impedindo a si mesmo de tratar e observar coisas do vasto mundo que o rodeia.

(...)

O que interessa a mim principalmente é uma língua (literária) que possa falar de qualquer coisa e que tenha inflexões próprias de um lugar. Quanto à eleição de um lugar, me parece interessante falar de um lugar específico. Parece que isso cria um sistema de relações, um pequeno mundo do qual vão emergir a ‘escena’ literária (se podemos chamá-la assim), a consciência literária, a leitura.

(...)

Por último, penso que muitas regiões do mundo têm sua literatura. Paris tem sua literatura, o sul dos Estados Unidos tem sua literatura. Então, por que o litoral argentino não pode ter uma literatura?”

 

O que Juan José Saer acharia então da literatura do Porto de Santos?

 

Referências:

Juan José Saer. En la zona (1957-1960). Buenos Aires: Seix Barral, 2003 (1ª edição, 1960).

 

Juan José Saer e Ricardo Piglia. Diálogos. Centro de Publicaciones, Universidad Nacional del Litoral, Santa Fé, 1995.

 

Lourdes Gómez. “É tudo verdade”. Folha de S. Paulo, 18 de dezembro de 2005. Caderno Mais!, página 03.

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