Ofício que não é profissão, a literatura sempre permitiu aos seus realizadores o exercício de outras atividades: Cervantes foi até espião, Machado de Assis, funcionário do Ministério da Agricultura, Carlos Drummond de Andrade, do Ministério da Educação, entre outros exemplos. Quando essa “elasticidade” é completada por um quadro social propício, a própria baldeação do escritor de ocupação a ocupação torna-se uma referência da época.

 

Tal caso é o de Vicente de Carvalho, o poeta do mar, no epíteto criado por Euclydes da Cunha no prefácio de “Poemas e canções”, livro de Carvalho publicado em 1908. Quem o descreveu foi a historiadora Ana Luiza Martins no ensaio “Vicente de Carvalho: poeta do mar e cidadão da República”, em que traça um paralelo entre a vida do poeta e o desenvolvimento da cidade.

 

Vicente Augusto de Carvalho nasce em 05 de abril de 1866. Descende de militares pelo lado do pai e, pelo lado materno, de uma linhagem de cidadãos ligados à administração da colônia. Desta forma, os Carvalho ficam de fora da urbanização burguesa pela qual passaria a cidade nos anos seguintes ao seu nascimento, fato ilustrado pela mudança da família do bairro dos Quatro Cantos, exatamente onde foi erguida a Bolsa do Café, para os Quartéis, onde hoje fica a Rua Xavier da Silveira, onde o jovem Vicente cresce bem próximo aos trapiches da cidade antiga, o que lhe permitiu “longas tardes de pescaria”. Ainda na primeira infância do escritor, em 1869, a demolição do Outeiro de Santa Catarina, marco inicial da vila colonial, abre o debate em torno das questões de habitação, saneamento e o novo porto. A partir daí, a cidade cresce:

 

“Desencadeava-se a otimização das comunicações gerada pela ferrovia e a intensificação do comércio exportador, determinantes da inserção de Santos no processo de modernização material. Como decorrência, sobrevieram o novo cais, a construção de armazéns, o proliferar de firmas comerciais – da casa comissária à casa exportadora, em geral de capital estrangeiro –, a instalação de bancos, a construção de abrigos para a população imigrante e, também, a multiplicação de ‘cortiços’”.

 

Essas transformações permitiram que, aos 11 anos, com o primário concluído, Vicente de Carvalho ocupasse seu primeiro emprego, no consulado alemão. Na adolescência, sobe a serra para estudar na capital, no Seminário Episcopal, logo trocado pelos colégios Norton e Mamede. Aos 16 anos, conquista a maioridade legal e parte para o Largo de São Francisco, onde freqüenta, entre 1882 e 1886, a Faculdade de Direito. São os anos em que acompanha e toma parte no debate sobre o fim da escravidão e a passagem do império para a república, representada pela troca dos trapiches da infância pelo moderno cais da mocidade.

 

“Vivenciara os flagelos da febre amarela e da varíola; assistira à demolição agressiva do cenário de sua infância, quando se eliminaram gradativamente os marcos históricos da cidade colonial para rasgar novas avenidas, contemporâneas de sua mocidade. Tinha vinte e um anos em 1887 quando se iniciou a abertura das avenidas Ana Costa e Conselheiro Nébias. Com vinte e três anos assistiu à demolição da ponte do trapiche “Brazil”, na curva do Paquetá, em fevereiro de 1889, fato considerado tão importante que um fotógrafo foi chamado para documentá-lo”.

 

As oportunidades criadas pelas transformações sociais pelas quais passam o país e a cidade naqueles anos faz de Vicente de Carvalho um homem de “atuação múltipla”: jornalista, político, advogado, juiz, fazendeiro, concessionário de serviço de transporte, muitas foram as ocupações do poeta.

 

Homem de seu tempo, Vicente de Carvalho, além do debate, participou ativamente das transformações em curso. A historiadora registra sua atuação como Secretário do Interior do Primeiro Governo Constitucional do Estado, nomeado por Cerqueira César em 26 de novembro de 1892. Criou programas de alfabetização, as escolas superiores de Engenharia e Agricultura, lançou as bases do Hospital de Isolamento do Instituto Bacteriológico e reuniu o quadro de cientistas estrangeiros responsável pelo programa sanitário implantado na cidade. Chegou até a enviar carta a Pasteur reclamando seus préstimos para a formação do Instituto. Organizou o serviço sanitário estadual.

 

Apesar de tudo isso, sua poesia nunca deixou o porto. A visão do mar era sua musa, como vemos nestes trechos do poema “Palavras ao mar”:

 

“Mar, belo mar selvagem

Das nossas praias solitárias! Tigre

A que as brisas da terra o sono embalam,

A que o vento do largo eriça o pelo!

Junto com a espuma com que as praias bordas,

Pelo marulho acalenta, à sombra

Das palmeiras que arfando se debruçam

Na beirada das ondas – a minha alma

Abriu-se para a vida como se abre

A flor da murta para o sol do estio

(...)

Ouço-te às vezes, revoltado e brusco,

Escondido, fantástico, atirando

Pela sombra das noites sem estrelas

A blasfêmia colérica das ondas...

(...)

Nem visses nem sentisses

A tua solidão sentindo e vendo

A larga terra engalanada em pompas

Que te provocam para repelir-te;

Nem, buscando a ventura que arfa em roda,

A onda elevasses para a ver tombando,

- Beijo que se desfaz sem ter vivido,

Triste flor que já brota desfolhada...

 

Mar, belo mar selvagem!

O olhar que te olha só te vê rolando

A esmeralda das ondas, debruada

Da leve fímbria de irisada espuma...

Eu adivinho mais: eu sinto... ou sonho

Um coração chagado de desejos

Latejando, batendo, restrugindo

Pelos fundos abismos de teu peito.

 (...)

Ninguém entende, embora,

Esse vago clamor, marulho ou versos,

Que sai da tua solidão nas praias,

Que sai da minha solidão na vida...

Que importa? Vibre no ar, acorde os ecos

E embale-nos a nós que o murmuramos...

Versos, marulhos! Amargos confidentes

Do mesmo sonho que sonhamos ambos!”

 

Vicente de Carvalho reuniu o lírico e o prático em sua vida. Modernizador da cidade, não deixou nunca de ver o mar selvagem onde ia pescar a partir dos trapiches de sua infância. Nicanor Ortiz, em 1937, num texto de apresentação de “Palavras ao mar” aos leitores de “Flamma”, revista mensal editada na cidade, colocou de outra forma essa comunhão:

 

“E por que soube ser homem e poeta, juiz e esposo, pai e amigo, deixou à sua cidade o patrimônio moral das suas canções e dos seus poemas”.

 

Referências:

Ana Luiz Martins. Vicente de Carvalho: poeta do mar e cidadão da República. Revista USP; São Paulo, nº 41, pp. 134-151, março/maio 1999.

 

Os trechos de “Palavras ao mar” são uma atualização ortográfica do poema, publicado na edição de janeiro de 1937 de Flamma, onde também se encontra o texto de Nicanor Ortiz.
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