Para Porto Literário, o romance Navios Iluminados é uma fonte inesgotável de assuntos. O enredo da obra, publicada em 1937 por Ranulpho Prata, se concentra no bairro portuário do Macuco, mas através do expediente literário dos flash-backs, o autor mostra também o Porto de Santos como centro articulador dos movimentos migratórios dentro e fora do país. A migração interna já foi explorada neste espaço algumas vezes. Desta vez são as ramificações internacionais do porto contidas no romance que estão em destaque.

 

I

A maior parte das citações de terras estrangeiras é concentrada na apresentação do personagem Pepe Riesco, estivador, colega de turma do personagem principal José Severino de Jesus. As aventuras do espanhol pelos portos do mundo são assunto recorrente pelas ruas do Macuco. Ele havia passado por Nova York, Cuba e Barcelona, onde fora preso – o autor não nos apresenta a razão, mas a militância anarquista vem à mente.

 

A única história que Pepe gostava de contar era a de sua chegada em Santos depois de uma viagem como clandestino. Desempregado e receoso do inverno que começava a atingir Nova York, Pepe aplica seus últimos 27 dólares para conseguir um espaço nos porões do Southern Cross, transatlântico que tinha Buenos Aires como destino, objetivo também do passageiro clandestino já que tinha amigos na capital portenha e ali tinha a esperança de conseguir trabalhar novamente.

 

No porão do navio, ele encontra um colega, Walfredo Muller, um agricultor alemão empobrecido pela I Guerra Mundial:

 

“O companheiro de Riesco era um alemão a quem a guerra, além de aleijar uma perna, empobrecera, reduzindo-o de lavrador abastado da Baviera a mendigo internacional.”

 

A água e a comida dos dois companheiros se esgotam no meio da viagem, mas o desespero de dias nos porões escuros da embarcação chega ao seu cúmulo durante uma tempestade:

 

“De repente o mar zangou-se, piorando a situação. O vapor começou a jogar, as ondas quebrando-se de encontro ao casco com ruído de desmoronamento. Ventava rijo e as águas engrossavam sob o açoite da chuva. No porão meio vazio principiou a dança dos volumes que se arremessavam uns contra os outros, rangendo, chiando, atritando-se furiosamente. Pepe olhava-os, receoso de ser esmagado. Não sabia como se defender nem ao companheiro. Para o lado que se lançava, sentia os caixões em movimento, deslizando como coisa viva. O balanço era cada vez mais forte, parecendo que o vapor corcoveava, numa guinada mais violenta, um pequeno volume desprendeu-se de uma pilha de fardos e rolou sobre ele, esmagando-lhe os dedos da mão esquerda. Pepe saltou um rugido e uma praga violenta.

Enquanto fora durou o temporal, lá dentro os clandestinos sofreram até não poder mais. Foram horas infernais, inesquecíveis, as máquinas arfando, o mar a bater no costado com o lençol duro nas ondas e os volumes, que no negrume semelhavam monstros, querendo devorá-los.”

 

Os dois companheiros são descobertos no Rio de Janeiro. Muller é levado ao hospital, onde morre horas depois, e Pepe é forçado a trabalhar no navio até o retorno aos Estados Unidos. Em Santos, porém, ele salta nas águas do estuário e se refugia em uma colônia de pescadores em Bocaina. Recuperado da aventura, toma rumo para São Paulo, mas em poucas semanas voltaria a Santos, que lhe agradara mais:

 

“Depois de experimentar vários empregos, desde garçom de botequim até lixeiro da prefeitura, entrou para a Companhia (Docas de Santos, CDS), graças ao empenho de um patrício que trabalhava na seção elétrica”.

 

II

A Alemanha de Walfredo Muller volta a ser mencionada depois, quando José Severino de Jesus, já casado com Florinda, tem seus primeiros filhos, um par de gêmeos. Felício, seu melhor amigo, torna-se padrinho de um dos meninos e promete presentes do “estranja”. Quando ele consegue finalmente os brinquedos (cães de pelúcia, bonecos, palhaços, um automóvel com chofer e ajudante e um urso, brinquedos de “menino rico”), tripudia em cima dos sogros de Severino, padrinhos do outro menino:

 

“- Tenho amizades com os fabricantes na Alemanha, a quem escrevi dizendo que precisava dar um presente ao afilhado do coração. [...] E hoje, agorinha de tarde, o Monte Pacoal descarregou uma porção de caixas de brinquedos. Numa delas, vinha a minha encomenda, marcada com o meu nome para não atrapalhar. Tirei o que era meu.

[...]

- Se não gostar do produto alemão, é só dizer que escrevo pro Japão, onde também tenho amizades. Este boneco chorão veio por engano, não serve pra você que é menino macho. Dê à sua primeira namorada’”

 

É ainda por meio de Felício que novamente Buenos Aires surge no romance, mas agora como destino, não promessa. Depois de sonhar com o feitor da turma, o Malhado, Felício segue a dica e aposta no burro no jogo do bicho. O resultado são doze contos de réis, “contadinhos”. O dinheiro é todo gasto em ternos de casimira estrangeira e uma viagem no camarote do Mala Real para a Argentina. São umas das poucas passagens do livro em que não há alguém sofrendo:

 

“ – A minha cabeça se afogava no travesseiro gostoso como um colo de mulher. Dormia como um anjo. O céu deve ser bom assim. Acordava com o sol entrando pela vigia. Tocava o botão e o inglês aparecia com uma bandeja abarrotada de coisas. Devorava tudo. Todos os dias trocava de terno. Passeava no deck, de mãos nas costas, compenetrado como um burguês. Espichava-me na cadeira acolchoada e abria revistas estrangeiras, fingindo ler. Dei gorjetas como se fosse diretor da CDS”.

 

Em Buenos Aires, hospedou-se em hotel caro, alugava carro para passear com prostitutas e não deixava passar café da manhã, almoço, jantar, ceia, passeio. (“Não ficou teatro, cinema e cabaré onde não andasse”):

 

“ – Agora não posso me queixar. Tirei a minha lasca. Estou de peito lavado. Quando saltei aqui, não é mentira, tinha dois mil e seiscentos réis no bolso. De doze contos redondos!

Severino não pôde deixar de dizer, reprovador:

– Que doidice!

– Pois fique sabendo que não estou arrependido. Dou tudo por bem empregado. Se apanho outros doze contos, repetia a dose. Dois dias depois de chegado, torrei os ternos no Isaac da Senador Feijó e caí debaixo do peso, de novo.

E Felício arrematou, persuasivo:

– Agora, depois que sei do gosto, uma coisa digo a vocês: a vida de rico é boa como o diabo”.

 

Viagem clandestina, importação de brinquedos e uma viagem de transatlântico. Três matrizes narrativas, cada uma com suas doses de esperança, sonho e drama.

 

Referência:

Ranulpho Prata. Navios Iluminados. Coleção Brasilis. São Paulo/Santos: Scritta/Página Aberta/Prefeitura Municipal de Santos, 1996.

 

Navios Iluminados em Porto Literário:

As letras e a mão-de-obra no porto de Santos  21/02/2006

 

Um navio nazista no cais comunista de Santos 14/11/2005

 

Do alto do Monte Serrat 03/10/2005

 

As cartas entre Lima Barreto e Ranulpho Prata e a gênese do romance portuário 26/09/2005

 

O Brasil que cabe num porto 19/09/2005

 

Martins Fontes, de autor a personagem 25/07/2005

 

O Brasil dos imigrantes no cais de Santos 18/07/2005

 

Uma amizade que conta histórias 13/06/2005

 

As descrições de um médico escritor 30/05/2005

 

Um relato da rotina dos estivadores 23/05/2005

 

Pelo Macuco de 1930 02/05/2005

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