Porto Literário tem se esforçado nas últimas semanas a traçar aproximações entre os romances Navios Iluminados (1937) e Barcelona Brasileira (2002). Por mais arbitrário que sejam os traçados, sobreler as obras com a cidade portuária de Santos como ambiente tem rendido algum assunto.


Talvez seja necessário salientar que a coluna ensaia uma resenha histórica sobre a literatura desse binômio cidade-porto. Divaga sobre os temas que são o pano de fundo das obras e arrisca alguma coisa sobre a relação dos autores com seu tempo; preocupações históricas, diria. As diferenças de gênero e estilo dos escritores aqui citados estão no olhar do colunista, mas sob lente histórica também. Lógico que as preferências e julgamentos despropositados salpicam pelas semanas, mas aqui interessa sobretudo o que faz da literatura sobre este porto ser o que é.

 

I

Buenos Aires, destino Santos. Foi uma das coisas que ficaram por dizer depois de apresentadas semana a semana as viagens de alguns dos personagens dos dois romances. Pepe Riesco (Navios Iluminados) e Ángel Blanco (Barcelona Brasileira), dois espanhóis que acabaram em Santos, foram mostrados em sua natureza política oposta. Um, estivador miserável amargando a vida de cais a cais; outro, estivador revolucionário lutando de cais a cais.


Em comum, eles traçaram um percurso literário entre Barcelona e Santos. E por isso mesmo, eles deixaram de realizar outro, até Buenos Aires, cidade que era o destino de cada um antes ao embarcarem nas naves que acabariam deixando-os aqui.


Riesco já havia sido preso em Barcelona e trabalhado no plantio de cana-de-açúcar em Cuba quando deixa Nova York com destino a Buenos Aires. Com vinte e três dólares para a passagem, só consegue lugar na embarcação como clandestino. Na altura do Rio de Janeiro é descoberto e forçado a trabalhar para o navio até o retorno aos Estados Unidos. Em Santos aproveita uma oportunidade no meio da noite, pula no estuário e por aqui fica.


Com a revolução de 1909, Blanco deixa a Espanha refugiado em um navio argentino cujo comandante era Rodolfo Paccini, amigo seu, freqüentador da bodega do pai. Blanco não é o estivador sofrido que é descoberto clandestino e foge. Pelo contrário, ao perceber que a viagem completa poderia trazer problemas a Paccini, salta em Santos, onde achava que poderia encontrar “companheiros de militância em Barcelona”.


Buenos Aires como destino imaginado dos dois personagens revela a ligação lingüística e cultural entre Espanha e Argentina. Ligação que sofre a interferência dos componentes da rede portuária – a viagem clandestina, a mudança de rota – que faz de Santos a parada final de ambos.

 

II

No conto A Penúltima Versão da Eternidade, Flávio Viegas Amoreira traz para a ficção outra relação portuária entre as cidades de Santos e Buenos Aires. Santos é a última escala de um navio da Royal Mail Company que leva o bailarino russo Nijinski a Buenos Aires, vindo da Europa. No sentido contrário, já Santos é a primeira escala da nau que leva Jorge Luis Borges da capital da Argentina para o Velho Mundo, onde passaria temporadas em Gênova e Genebra.


Na baía de Santos, em plena “hora estreita” – como escreveu Alberto Martins – os dois navios se encontram.


Santos também foi escala antes de Buenos Aires feita pelo arquiteto francês Le Corbusier, que deixou um desenho da entrada do estuário santista que pode ser conferido na reportagem Sombras sobre Santos, de Mauri Alexandrino e Ricardo Marques Silva.


Mas o destino de um dos principais nomes do modernismo era a capital portenha, onde daria conferências e para a qual desenharia projetos de urbanização. No dizer de Beatriz Sarlo, ele imagina uma “re-fundação” da cidade através de um movimento em direção ao Rio da Prata (a tradução é do colunista):

 

"Suponho me encontrar na proa do barco com todos os passageiros, tocando a terra prometida. Com esse mesmo pastel amarelo desenho cinco arranha-céus de 200 metros de altura alinhados sobre um fundo surpreendente, fluido de luz. Uma vibração amarela por todo o redor. Cada um deles aloja 30.000 empregados. Uma segunda linha de arranha-céus fica atrás, pode haver uma terceira. Na água do Rio desenho as bóias luminosas e no céu argentino, o Cruzeiro do Sul precedido de milhares de estrelas. Imagino a grande explanada ao longo do Rio, com seus restaurantes, seus cafés, todos os lugares de repouso enfim, onde o homem de Buenos Aires reconquista o direito de ver o céu, e ver o mar."

 

 

Referências:

Adelto Gonçalves. Barcelona Brasileira. São Paulo: Publisher Brasil, 2002.

 

Ranulpho Prata. Navios Iluminados. Coleção Brasilis. São Paulo: Scritta/Página Aberta/Prefeitura Municipal de Santos, 1996.

 

Flávio Viegas Amoreira. A Penúltima Versão da Eternidade. Revista Eletrônica Meiotom (http://www.meiotom.art.br/flavio6c.htm).

 

Beatriz Sarlo. Arlt: Cidade Real, Cidade Imaginária, Cidade Reformada. In: História e Literatura na América Latina (organizado por Ligia Chiappini e Flávio Wolf de Aguiar).

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