A Primeira Guerra Mundial é o pano de fundo da ação de 1919, romance do americano do Norte John dos Passos publicado em 1932. A edição em posse do colunista, da Abril Cultural, traz uma tradução para o português de Portugal.


I

Deixado para trás pelo comando de um navio nas docas de Buenos Aires, o personagem Joe Williams inicia sua passagem pelo romance comprando um documento falsificado que o identificaria como funcionário de uma agência marítima.

Mesmo com suas últimas quatro libras aplicadas na compra do papel, Joe está aliviado com a possibilidade de voltar aos Estados Unidos em pouco tempo. O destino final da viagem em que voltaria a trabalhar é Liverpool, Inglaterra, com uma passagem pelo Caribe:

 

"Vinte e cinco dias de mar, a bordo do Argyle, de Clasgow, capitão Thompson, carregamento de couros, picando a ferrugem das estruturas, cobrindo de zarcão chapas de aço a ferver, assado ao sol, pintando a chaminé de manhã à noite, arfando e balouçando na pesada e monótona ondulação; percevejos nos beliches do fétido castelo da proa, uma mixórdia imunda por comida, com batatas cheias de olhos e feijões podres, baratas esmagadas em cima da mesa, mas uma golada de sumo de limão todos os dias, de acordo com os regulamentos, depois o calor doentio e chuvoso e a Trinidad toda azul no nevoeiro no meio do mar purpurino.


Ao atravessarem a Boca começou a chover e as ilhas sufocadas pela folhagem verde dos fetos tornaram-se cinzentas sob o aguaceiro. Quando por fim o barco encostou ao cais de Port of Spain, estavam todos encharcados de chuva e suor".

 

O trabalho de Joe é muito parecido com o que José Severino de Jesus fazia nas oficinas da Mortona, no Navios Iluminados, romance de Ranulpho Prata, que fala aqui do porto de Santos:

 

"Na hora do ponto, estava firme na oficina. Os martelos novamente a funcionar, os carvões das forjas acenderam-se, reapareceram todos os ruídos da faina.

(...)

Quando o casco do rebocador ficou limpo da grossa camada de sujeira, mestre Guimarães ordenou outro serviço: trocar as chapas de aço estragadas, as que a ferrugem inutilizou completamente".

 

II

Em St. Luce, Joe acompanha do convés do Argyle um embarque de bananas feito por mulheres estivadoras:

 

"Era já escuro quando encostaram ao cais das bananas e colocaram duas pranchas e desembarcaram o pequeno guindaste para arriar os cachos do porão. Na cais havia uma multidão de mulheres de cor que riam, soltavam gritinhos e atiravam gracejos à tripulação; negros altos e possantes observavam a cena, ociosos. As mulheres transportavam carga. Passado um bocado, começaram a subir por uma das pranchas carregando cada uma delas com um pesado cacho; algumas eram negras já velhas, mas havia também mulatas, muito novas e bonitas (...). Quando uma mulher chegava ao cimo da prancha, dois negros enormes tiravam-lhe delicadamente o cacho dos ombros, o capataz dava-lhe uma folha de papel e ela descia a correr pela outra prancha de novo para o cais".

 

Navios Iluminados também trás uma algazarra parecida durante o trabalho da turma 65, onde Severino passa a trabalhar na estiva:

 

"As duas fileiras de trabalhadores, a que ia carregada e a que vinha de mãos limpas, estavam sempre a trocar gracejos, chalaças e indiretas, bulindo uns com os outros.

- Portuga, unha de fome.

- Saí daí, cabeça chata.

- Mussolini dos infernos, por que não vai pra tua terra?

- Olha a catinga do negro.

- Amarelo do olho torto, afirma as pernas.

- Boca de bagre.

- Chupa peito.

- Feijoada.

Severino reparou que eles andavam devagar, num passinho miúdo e preguiçoso. Pareciam viajantes que vinham de longe. Só espertavam quando o Malhado gritava:

- Toca pra frente, toca pra frente!"

 

III

O título do romance – 1919 – e a data de sua publicação – 1932 – têm algo em comum. Formam as duas pontas do período entre a Primeira (1914-1917) e a Segunda (1939-1945) Guerras Mundiais. Esse apontamento na verdade é uma deixa para dar espaço ao historiador britânico Eric J. Hobsbawn que, em A era dos extremos, diz acreditar que os historiadores do futuro verão o que chamamos de duas guerras como dois momentos do mesmo conflito.


Ele aponta uma série de eventos belicosos ocorridos por todo o planeta durante o “entreguerras”, com destaque para a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), onde nazistas e os futuros aliados ensaiavam seus primeiros confrontos.


Continuamos a acompanhar a viagem de Joe até Liverpool na próxima semana.

 

 

Referências:

John dos Passos. 1919. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

 

Ranulpho Prata. Navios Iluminados. Coleção Brasilis. São Paulo: Scritta/Página Aberta/Prefeitura Municipal de Santos, 1996.

 

Eric Hobsbawn. A Era dos Extremos. O breve século XX: 1914-1989. 2ª edição, São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

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