Começo a semana com um pedido de desculpas aos colegas que atualizam o PortoGente. Uma infecção no meu computador me impediu de mandar a coluna no prazo de segunda-feira. O pedido se estende aos dois leitores que acompanham o espaço.

 

***

 

Primeiro, uma nota explicativa: os dois leitores que acompanham o Porto Literário puderam ter notado ao longo do último ano que a coluna, apesar de tratar de literatura, é escrita a partir de uma perspectiva histórica. Não é crítica literária o que se faz aqui, e sim exploração de como a literatura que tem os portos como cenário lida com os temas históricos e, em outro viés, qual é a história do desenvolvimento dos escritos de identidade portuária.

 

O olhar histórico para a obra literária permite aproximar o personagem principal do romance de identidade portuária Navios Iluminados, José Severino de Jesus, de dois dos mais famosos e pesquisados protagonistas do romance moderno brasileiro: Fabiano, de Vidas Secas, criado por Graciliano Ramos, e Macabéa, de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Mais que migrantes nordestinos fugindo da seca, são personagens que têm em comum uma inabilidade com as convenções sociais. Se Milton Hatoum disse uma vez que o personagem central do romance é aquele que busca na vida o sentido da existência, Macabéa, Fabiano e José Severino não têm que seja uma vaga idéia de como fazer isso.

 

Vidas Secas sai em 1938, um ano depois da publicação de Navios Iluminados. Cada uma a sua maneira, são realizações que não se esgotam na categoria de “denúncia social”, comum ao período; Vidas Secas é reverenciado pela linguagem que reproduz a secura do sertão, já Navios Iluminados cria o espaço-porto, elo indispensável da cadeia de transmissão da migração. O romance não nos oferece a perspectiva do agreste, nem da grande cidade industrial ou capital. A imagem urbana do romance é a do fluxo continuo de pessoas e mercadorias.

 

Já os respectivos protagonistas são homens da terra, um vaqueiro, outro lavrador. O primeiro percorre as fazendas do sertão atrás de trabalho, o segundo deixa a terra natal para fazer a vida nas Terras do Sul. Sobre o mundo desses personagens Alfredo Bosi disse o seguinte:

 

“Sem dúvida, o capital não tem pátria, e é esta uma das suas vantagens universais que o fazem tão ativo e irradiante. Mas o trabalho que ele explora tem mãe, tem pai, tem mulher e filhos, tem língua e costumes, tem música e religião. Tem uma fisionomia humana que dura enquanto pode. E como pode, já que a sua situação de raiz é sempre a de falta e dependência”.

 

A Hora da Estrela é da década de 70 e o romance realiza intervenções formais como a narração em fluxo de consciência, a ironia e a presença de um narrador comentarista. Mas nada disso impede que Macabéa, migrante nordestina que realiza serviços domésticos no Rio de Janeiro, seja colocada na mesma categoria que os outros dois.

 

Suzi Frankl Sperber, referindo-se à personagem de Lispector, descreve a vida da categoria dos personagens pobre e inábeis para a vida:

 

“De fato, a carência da Macabéa é total; porém não chama a tenção e não merece nem piedade, nem esforço de luta, já que ela é uma alienada. Está aí: a sua carência maximamente alienada, inconsciente. Macabéa é tudo que é não: é feia – mas não chama a atenção, nem pela feiúra; não é branca, não é preta, não é mulata: é ‘pardacenta’, ou ‘encardida’; é tuberculosa (assim como José Severino) – mas não sabe quais os riscos da doença; é burra – mas é datilógrafa, o que já é ter pelo menos o status de alfabetizada; é nordestina – mas vive na cidade do Rio de Janeiro; tem total inconsciência de sua condição – acha que é feliz; é delicada e fina por educação – uma educação feita pelo castigo corporal – educação que, por sua vez, não tem nada a ver com a sua condição”.

 

A inabilidade de Fabiano, por sua vez, é a da linguagem, é a da expressão, como apresenta Maria Lourdes Motter:

 

“Enquanto esse meio restrito em que vive o sertanejo exije dele aptidões necessárias à sobrevivência, como a força e a resistência física, no meio social, essa diferença é tratada como inferioridade, o qual desafia a compreensão de Fabiano, causando confusão e revolta e leva-o a um sentimento de inferioridade com relação ao homem urbano. Consciente das injustiças de que é vítima, Fabiano não se defende. Percebe que pertence a uma casta inferior cujos valores humanos, como dignidade e respeito, não são reconhecidos. Fabiano não pode compreender claramente os meios através dos quais é possível a realização do desejo de viver”.

 

Essa característica é também de José Severino: é um envergonhado no trato com os funcionários administrativos da Companhia Docas, com os diretores e com os médicos da companhia; é desajeitado quando vai tirar o retrato para os documentos de trabalho, precisa de informações para chegar à associação, morre de medo de um raio-x do exame de admissão, abandona o tratamento contra tuberculose para voltar a carregar carga na estiva.

 

Como escreveu a própria Clarice sobre sua personagem: “tão jovem e já com ferrugem”, frase que serve tanto ao estivador das cargas acima do peso quanto ao vaqueiro de pernas arqueadas.

 

 

Referências:

Ranulpho Prata. Navios Iluminados. Coleção Brasilis. São Paulo: Scritta/Página Aberta/Prefeitura Municipal de Santos, 1996.

Graciliano Ramos. Vidas Secas. 56ª edição. São Paulo: Record, 1986 (1ª edição 1938).

Clarice Lispector. A Hora da Estrela. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. São Paulo: Record/Altaya, 1996 (1ª edição 1977).

Alfredo Bosi. “Sobre Vidas Secas”; e Suzi Frankl Sperber. “Jovem com ferrugem”. In: Roberto Schwarz (organizador). Os Pobres na Literatura Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.

Maria Lourdes Motta. “Consciência lingüística de Fabiano”. In: Revista Princípios, nº 32.

Milton Hatoum. A Construção do Romance: Gênero Literário/ Foco Narrativo. Grandes Cursos Cultura. São Paulo: Cultura Marcas.   

Julia Marchetti Polinesio. O Conto e as Classes Subalternas. São Paulo: Editora ANNABLUME, 1994.

Pin It
0
0
0
s2sdefault
powered by social2s

O que você achou? Comente