Na coluna anterior, Porto Literário trouxe a história das obras de saneamento em Santos narrada em Os planos da cidade: as políticas de intervenção urbana em Santos – de Estevan Fuertes a Saturnino de Brito (1892-1910), obra do arquiteto Sidney Piochi Bernardini. Na ocasião, o assunto eram as diferenças políticas entre o governo estadual e municipal. Hoje, é o engenheiro e médico nascido em Porto Rico. Fuertes, cientista da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, idealizou projetos sanitários para Santos e o litoral paulista entre 1892 e 1895.

 

Alguns deles foram aproveitados, como parte do traçado de alguns dos futuros canais, já outros ficaram pelo caminho, mas apenas por terem sido imaginados mostram muito do pensamento científico da virada do século XIX para o século XX, período que Gilberto Hochman chamou de “a era do saneamento”.

 

I

Em agosto de 1893, depois de uma visita a Santos, Fuertes, de seu escritório em Nova York planeja a construção de uma estação de quarentena para o porto de Santos, a ser levantada no vilarejo de Vila Bela, que hoje chamamos de Ilha Bela, no litoral norte do Estado. O engenheiro relacionava as epidemias diretamente com as condições sanitárias das cidades portuárias. Para ele, a demora na atracação de navios permitia que os germes pudessem se incubar e, assim, espalhar ainda mais as doenças.

 

Foi com tal idéia que ele projetou então a estação de quarentena e o desinfectório. Navios infectados e suspeitos para lá iriam antes de atracar em Santos. Na estação, navios, pessoas e objetos passariam pela ação de vapores, soluções de mercúrio, biclorureto de mercúrio, hipocloruretos e fumigação com enxofre, estrutura que formaria uma verdadeira “cidade sanitária”. Bernardini descreve assim o aparato:

 

“Logo que aportava e dele desembarcavam os passageiros suspeitos ainda não infectados, o navio recebia um banho de vapores por meio das mangueiras distribuídas pelo cais. Eram vapores sulforosos e de solução de mercúrio. Já os passageiros tinham de obrigatoriamente passar pelo edifício do desinfectório. Lá desfaziam-se de todos os objetos pessoais, inclusive as suas roupas, que eram colocadas todos na estufa de desinfecção pelo vapor. Essa estufa também servia para desinfectar os objetos da própria estação, como colchões e roupas de cama. Na estufa recebiam os vapores a altas temperaturas. Uma mistura de solução mercurial e enxofre faria a desinfecção total dos objetos. Posteriormente, os passageiros seguiam para a casa de banhos, com alas separadas para homens e mulheres, e se dirigiam logo depois para as residências, localizadas à esquerda de quem chegava à estação. Os passageiros já doentes eram detidos assim que chegavam, não passavam por nenhuma dessas alas e eram logo encaminhados aos hospitais, que ficavam à direita na outra extremidade da estação”.


 

Desenho de Fuertes mostra a disposição

da “Cidade Sanitária” em Ilha Bela

 

A descrição do maquinário é digna de ficções científicas. Os cilindros da estufa de desinfecção teriam mais de nove metros de altura por dois metros e meio de diâmetro e mais um arsenal tecnológico de máquinas, bombas e mangueiras. Todo um aparato idealizado para isolar contaminados e suspeitos, uma imagem que fez o autor lembrar dos contos “As cidades e os mortos”, escritos pelo autor italiano Italo Calvino (1923-1985) para As cidades invisíveis, um de seus mais conhecidos livros, em que o viajante veneziano Marco Polo descreve as cidades do império mongol ao imperador Kublai Khan, numa verdadeira “geografia fantástica”, como diz a apresentação do livro.

 

II

No primeiro “As cidades e os mortos”, Calvino escreve sobre Melânia, cidade de diálogos entre opostos em que seus habitantes “morrem um após o outro” e substituídos são para que a conversa continue. Na segunda história da série, Marco Polo fala a Khan sobre Adelma, cidade em que todos se parecem com pessoas já mortas. No cais, o narrador se vê em uma situação que remete à cidade sanitária de Fuertes:

 

“Os descarregadores subiam as escadas em fila, curvos sob os barris e os garrafões revestidos de vime; os rostos estavam escondidos debaixo de capuzes de pano. ‘Agora tiram os capuzes e eu os reconheço’, pensava com impaciência e medo. Mas não despregava os olhos deles; por menos que eu voltasse a olhar a multidão que lotava aquelas vielas, via-me assediado por rostos imprevistos, vindos de longe, que me fixavam como se quisessem ser reconhecidos, como se me houvessem reconhecido. Pode ser também que eu lhes recordasse alguém morto. Acabara de chegar a Adelma e já era um deles, passara para o lado deles, confuso naquele vacilar de olhos, de rugas, de trejeitos”.

 

Já no quinto conto da série, conhecemos Laudômia, em que a cidade dos vivos se duplica em uma dos mortos e ainda se triplica em uma dos não nascidos. Nessa relação os cidadãos da Laudômia viva procuram na Laudômia dos mortos a explicação de suas próprias vidas.

 

III

As relações entre máquinas e controle dos corpos são comuns na literatura. Em A invenção de Morel, romance de Adolfo Bioy Casares (1914-1999), uma máquina acionada pela força das marés capta a essência das pessoas e projeta suas imagens no ambiente. Já em Na colônia penal, Franz Kafka (1883-1924) imagina uma máquina de tortura e execução de criminosos que escreve na pele do condenado a infração que cometera. Um explorador ouve uma explicação do oficial que cuida e controla o maquinário:

 

“As agulhas estão dispostas como as grades de um rastelo (fileira de dentes de ferro) e o conjunto é acionado como um rastelo, embora se limite a um só lugar e exija muito maior perícia. (...) Aqui sobre a cama coloca-se o condenado. (...) No desenhador há uma engrenagem muito gasta, ela range bastante quando está em movimento, nessa hora mal dá para entender o que se fala; aqui infelizmente é muito difícil obter peças de reposição. Muito bem: como eu disse, esta é a cama. Está totalmente coberta com uma camada de algodão; o senhor ainda vai saber qual é o objetivo dela. O condenado é posto de bruços sobre o algodão, naturalmente nu; aqui estão, para as mãos, aqui para os pés e aqui para o pescoço, as correias para segurá-lo firme. Aqui na cabeceira da cama, onde, como eu disse, o homem apóia primeiro a cabeça, existe este pequeno tampão de feltro, que pode ser regulado com a maior facilidade, a ponto de entrar bem na boca da pessoa. Seu objetivo é impedir que ela grite ou morda a língua. Evidentemente o homem é obrigado a admitir o feltro na boca, pois caso contrário as correias do pescoço quebram sua nuca”.

 

Duas verdadeiras imagens literárias das máquinas controladoras de corpos da nossa modernidade.

 

 

Referências:

 

Sidney Piochi Bernardini. Os planos da cidade: as políticas de intervenção urbana em Santos – de Estevan Fuertes a Saturnino de Brito (1892-1910).  São Carlos: Editora RiMa e Fapesp, 2006.

 

Ítalo Calvino. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 

Franz Kafka. Na colônia penal. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. 

 

Adolfo Bioy Casares. A invenção de Morel. Prefácio de Jorge Luis Borges. Coleção Prosa do Observatório (coordenação de Davi Arrigucci Jr). São Paulo: Cosac Naif, 2006.

 

Sobre A invenção de Morel:

Júlio Pimentel Pinto. A invenção de Morel, entre o Tempo e os tempos.
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