Nas análises das estruturas narrativas é comum os pensadores dividirem a natureza das ações de acordo com o espaço em que elas ocorrem. Os espaços basicamente representam as situações de apresentação inicial da trama, do desenvolvimento do conflito e o do retorno da jornada, os famosos começo, meio e fim. Do formalista russo Vladimir Propp, passando pelo estudioso dos mitos Joseph Campbell e chegando ao consultor de roteiros para os estúdios Disney Christopher Vogler, percebe-se como contamos sempre as mesmas histórias. A graça da literatura está no arranjo que o talento de cada escritor consegue dar aos componentes básicos de cada uma.

 

I

Vogler, em A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores, divide a coisa simplesmente em uma oposição binária: o “mundo comum” e “mundo mágico”, nos quais interagem sete arquétipos básicos, modelos míticos que compõem os personagens, sendo eles o herói, o mentor, o guardião, o arauto, o camaleão, a sombra e o pícaro (as definições não valem só para as histórias de ação; numa comédia romântica, os dois enamorados é que são os heróis, por exemplo).

 

Os arquétipos, explica o autor, não precisam de um determinado personagem para se manifestar, seus atributos surgem de acordo com as necessidades narrativas e podem ser personificados por qualquer personagem (um mentor, por exemplo, pode ser o portador de uma notícia – arquétipo do arauto – ou um confronto inicial pode garantir um aliado para o combate final, e por aí afora). Propp acrescenta o “espaço do doador” ao “espaço inicial” e ao “outro reino”. O espaço do doador geralmente é relacionado ao mentor, é onde o herói consegue repor as forças ou receber um ensinamento ou instrumento poderoso. Nos filmes de 007, é aquele laboratório em que o agente com licença para matar é apresentado às geringonças eletrônicas e armas que o livram dos oponentes.

 

O porto de Santos traz em sua própria natureza a capacidade de se transformar em qualquer dos espaços narrativos apontados acima.

 

II

O cais de Santos é o “mundo comum”, por exemplo, para os versos do poema “Porto”, de Roldão Mendes Rosa:

 

“Por que

este amor ao cais

se o que espero

não viaja?

 

Por que esta espera

no cais?

 

Por que

este amor aos navios

que apitam e partem

se não quero

partir em nenhum?

  

Eu descendente de adeuses

vejo lenços que acenam

na paisagem sem lenços.

 

Ou este porto

pouso de âncoras

timidamente se disfarça

no homem que sou?”

 

Para o narrador das estrofes acima, o porto é um “pouso de âncoras”, metáfora da imobilidade, do desejo que as coisas permaneçam como estão, de não partir com carga nenhuma. É um narrador que, nos termos de Vogler, não será nunca herói porque se recusa a embarcar, que não atende ao chamado da aventura que o levaria para o “mundo mágico”. A análise por este ponto de vista acaba gerando um conflito com o que o próprio Porto Literário escreveu sobre o poema no ano passado, quando a recusa do narrador foi identificada como uma “nostalgia da partida”.

 

III

O espaço do doador talvez seja ao que mais o porto se assemelha. É o local da transição, do transbordo, das trocas, ou simplesmente onde os navios se reabastecem ou passam por reparos antes da retomada da jornada. Outro poeta, Alberto Martins, nos deu em dois trechos a seguir de “Em torno da cidade” a descrição do porto como espaço do doador:

 

“cais
onde as coisas ancoram
onde as coisas demoram
algum tempo
antes de partir”

Ou ainda:

 

“cidade na qual
o dia é comércio
do mar à terra
da terra ao mar”

 

IV

O porto como o “mundo mágico” ou o “outro reino” é o porto do romance Navios Iluminados, para o qual se dirigem migrantes nordestinos e imigrantes portugueses e espanhóis depois de deixarem o “mundo comum” da Terra Natal. Para estes personagens o cais de Santos é um local de provações, de luta pela sobrevivência, de conquista de um bom emprego. Para o personagem principal, José Severino de Jesus, as coisas acabam muito mal, o que revela seu caráter de herói trágico (a categoria é uma das subdivisões que Vogler aplica aos arquétipos).

 

Outro romance que mostra o porto da mesma forma é Agonia na noite, de Jorge Amado. Nesse caso, o outro reino não se dá pela natureza dos protagonistas. O autor não nos fala nada sobre as origens do estivador Doroteu e de sua amada Inácia. É a chegada de um navio nazista ao cais que transforma o pacato mundo comum no “outro reino”:

 

“O apito de um cargueiro entrando no porto cortou a música do samba do negro Doroteu, o passo da dança de sua negra Inácia. O vulto negro do barco surgia lentamente, e eles todos, doqueiros, marinheiros, ensacadores, passantes e a negra Antônia que vendia doces, o fitaram e ficaram sérios de repente. O negro Doroteu largou sua gaita mágica, era um conhecedor profundo das bandeiras, sabia distingui-las todas umas das outras. Confirmou o receio dos demais quando seus olhos distinguiram antes de todos, na popa do cargueiro agora perpendicular a eles nas manobras para fundear, o odiado trapo, a bandeira imunda, o estandarte abjeto”.

 

Colaboram para a dramaticidade da cena o apito do cargueiro e o reconhecimento da bandeira nazista, manifestações do arquétipo do arauto que anunciam o conflito. A partir daí, só cabe aos estivadores a luta política e ideológica para impor novamente a identidade comunista do porto de Santos e transformar o cais novamente no “mundo comum”.

 

V

No espaço mágico é que o herói e seus acompanhantes devem passar pelo conflito final (o exemplo de Vogler é o de Dorothy quando fica cara a cara com o Mágico de Oz). Nessa situação, de passagem pelo último limiar, o porto de Santos pode ser enquadrado a partir destes três poemas de chegada que tem o porto por motivo: “Chegada em Santos”, de Blaise Cendrars, o homônimo “Chegada em Santos”, de Elizabeth Bishop, e “Santos revisitada”, de Pablo Neruda.

 

Nos três poemas, o herói é o próprio narrador prestes a completar sua jornada. Como já escrevi em outra ocasião, Cendrars veio ao Brasil para se encontrar com os modernistas em São Paulo; Bishop, após o desembarque, rumou direto para o interior e, posteriormente, mudou-se para Petrópolis, no Rio de Janeiro. Neruda, militante comunista, costumava vir ao Brasil para encontros políticos e conferências. Os três poemas acabam antes da viagem de cada um dos poetas, o que só reforça o caráter de corredor internacional do porto santista, mas também indica que o cais santista foi o palco do clímax da jornada narrativa de cada um de seus autores.

Referências:

 

Christopher Vogler. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores. Tradução e prefácio de Ana Maria Machado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
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