Semana passada tracei uma imagem dos aparelhos repressivos em que seu principal combustível é a paranóia do “todos culpados até última palavra”; e exemplifiquei apontando prontuários da polícia política do Estado Novo nos anos 30 em que prosaicas reuniões sociais em Santos são acompanhadas por agentes do DEOPS.

 

I

Na ocasião indiquei que uma das reações à paranóia repressiva é a teoria da conspiração, tema recorrente da ficção atual e de uma variedade de produtos culturais e de entretenimento. E é sobre as teorias da conspiração que vai a lambança de hoje. No plural, sim, porque há contraconspirações, conspirações paralelas, cruzadas, em que em todo momento há alguém contraconspirando exatamente algo oposto ao que já havia conspirado. O rocambole parece enrolado demais, mas um exemplo que me surge é o enredo de Se um viajante numa noite de inverno, do Italo Calvino, romance de tantas reviravoltas que até o leitor acaba envolvido na trama; e não é só, transforma-se em protagonista com direito até a companheira de aventuras, a leitora, por quem se apaixona.

 

Para refinar a questão vou buscar Ricardo Piglia, de quem tinha lido uma entrevista sobre o assunto, em que empregou o termo paranóia ao se referir à sociologia das teorias de conspiração. Eu acabei escrevendo que o comportamento conspiratório é uma reação à repressão, mas não é, não: é o outro lado da mesma moeda.

 

Para o escritor e ensaísta argentino as teorias da conspiração exercem uma função narrativa nos enredos das ficções científicas, das histórias de espionagem e dos contos policiais semelhante ao que era o destino nas fábulas, nos mitos e nos dramas épicos. Assim Piglia descreve a figura do complô:

 

“(...) o sujeito não mais decifra um crime privado, mas enfrenta uma combinação multitudinária de inimigos. Nada que lembre aquela relação pessoal entre o detetive e o criminoso, que redundava numa espécie de duelo. A idéia de conspiração também tem a ver com uma dúvida que poderia ser formulada assim: como o sujeito privado vê a sociedade? Eu digo que sob a forma de um complô destinado a destruí-lo. Ou, dito de outro modo: a conspiração, a paranóia estão ligadas à percepção que o indivíduo constrói em torno do social. O complô substitui, assim, a noção trágica do destino. Lembremos que o sujeito antigo devia ler nos oráculos o caráter cifrado do seu futuro, que já estava traçado de antemão. A tragédia estabelece um elo entre aqueles que conheciam esse destino, os deuses que emitiam mensagens obscuras, e o indivíduo que as interpretava bem ou mal. Penso que hoje os deuses foram substituídos pelo complô, quer dizer, há uma organização invisível que manipula a sociedade e produz efeitos que o sujeito também procura decifrar.

 

Esses seriam os dois pólos da ficção paranóica: por um lado, é o estado do gênero policial: por outro, a maneira de a literatura nos dizer como o sujeito privado lê o político, o social.”

 

II

A ficção paranóica é um ramo contemporâneo das histórias com enredo policial ou de investigação, gênero condensado na Inglaterra por Edgar Allan Poe em contos escritos entre 1841 e 1843 e que se tornou dominante no século XX – ainda mais se incluirmos filmes, quadrinhos, desenhos adultos, e seriados, muitos seriados. Sem contar as obras da alta literatura. Tanto as do gênero quanto as que se apropriaram do formato para desenvolver diversos enredos, tudo como se o “imaginário policial” tivesse invadido o mundo moderno. 

 

Diz-se que há pessoas que consideram o policial um gênero menor, de segunda classe, mas acho que não conheço qualquer uma delas, parece uma lenda urbana. Mas se não for, as que pensassem assim mudariam de idéia ao conhecer o que disse Piglia, que em certa ocasião leu centenas de romances policiais ao realizar uma seleção de obras para uma coleção do gênero:

 

“Pois bem, por que esse gênero conseguiu tomar conta do imaginário coletivo do último século e meio? Acredito que foi por causa de seu modo de ver a sociedade a partir do crime e de estabelecer alguns vínculos: entre lei e verdade, entre dinheiro e moralidade, entre poder e corrupção. O gênero policial é um grande modo de narrar a sociedade sem fazer literatura política em sentido estrito. Aí está o outro ponto que me interessa: trata-se de uma forma que dá conta da relação entre literatura e sociedade e que permite construir ficções em sincronia com o funcionamento social.”

 

III

O gênero policial é a versão literária dos procedimentos de investigação, seguir o dinheiro para descobrir o culpado. É nas histórias policiais que as entranhas da sociedade se contorcem, se me permitem a imagem. Esse foi o procedimento que o próprio Piglia adotou em Dinheiro Queimado, romance escrito a partir da história real do roubo ao carro-forte do pagamento do funcionalismo de uma prefeitura da região metropolitana de Buenos Aires. De suborno em suborno, de informante a informante, de delação a delação, forma-se uma rede das relações neblinosas entre aparato estatal e organizações criminosas. À reconstituição do crime, a narrativa une a reconstituição do relato jornalístico produzido pelo noticiário do período, que dá forma ao personagem Emilio Renzi, repórter de um diário de Buenos Aires; e une também a narrativa oral de uma coadjuvante no conflito, a namorada de um dos integrantes da quadrilha, que o autor relata ter conhecido e ouvido sua história em uma viagem de trem, o que o fez realizar pesquisas ainda lá no final dos anos 60, quando o assalto havia ocorrido.

 

Assim, três máquinas narrativas (enredo policial, discurso jornalístico e testemunho) contribuem para a leitura, sem que a gente deixe por um segundo somente de apreciar o andamento desta grande narrativa policial. O que um repórter chamou de “mestiçagem de gêneros” podemos considerar como uma das marcas da literatura do autor de Dinheiro Queimado.

 

Referências:

Ricardo Piglia. Dinheiro Queimado. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

Italo Calvino. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

 

Entrevista com Ricardo Piglia feita por:

Maurício Montiel Figueiras. A ficção paranóica. Caderno Mais!. Folha de São Paulo. São Paulo, domingo, 15 de julho de 2003.
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