Assim como na semana anterior, Porto Literário continua navegando pelas rotas argentinas. Começamos com um visitante norte-americano que conhece a capital portenha e apontamos de volta ao porto de Santos a partir de um dos mais marcantes contos de Jorge Luis Borges.

 

I

Waldo Frank (1889-1967) fez parte do grupo de escritores dos Estados Unidos conhecido como geração perdida, do qual faziam parte Ernest Hemingway, e.e. cummings, Scott Fitzgerald e John dos Passos, sendo que este último já passou aqui pelo Porto Literário em Joe e José, mulheres no porto e a guerra.

 

Assim como Hemingway, Frank levou uma vida de aventuras. Na apresentação das impressões do escritor sobre o mundo intelectual de Buenos Aires, Christian Kupchik, organizador de La ruta argentina, conta que Frank cruzou na década de 1920 o sul dos Estados Unidos disfarçado de negro (ele não explica como), sofrendo preconceito e humilhações. Na década seguinte chegou a apanhar de mineiros em greve no estado do Kentucky. Decidido a ser o “responsável intelectual por unir o continente”, inicia em julho de 1929 uma viagem por nove países latino-americanos para realizar conferências.

 

Sai de Nova York no vapor britânico Voltaire e, depois de passar por Cuba, chega ao Rio de Janeiro, de onde parte de carro para São Paulo. Em Santos, ele volta ao modal marítimo e embarca para Buenos Aires, onde chega após uma escala em Montevidéu, no Uruguai.

 

Na Argentina trava contato e amizade com Victoria Ocampo, figura da intelectualidade portenha para qual dá a idéia de criar uma revista de literatura e discussão. Seu objetivo, com a publicação, é aproximar os Estados Unidos das nações sul-americanas de fala hispânica. É daí que Ocampo lidera o grupo que lança Sur, editada entre 1931 e 1992, revista que teria participações de Jorge Luis Borges, García Lorca, Ortega y Gasset e Alfonso Reyes, entre outros.

 

Kupchik resgata um diálogo entre os dois em que Waldo Frank dava suas razões para a empreitada: “ou desentranhamos a América oculta por mentiras. Mitos, lugares comuns e propagandas estridentes, ou as relações entre nós (Américas do Norte e Latina) irão se deteriorar cada vez mais”. É bom lembrar que em 1925, o mexicano José Vasconcelos já havia publicado A raça cósmica, em que previa a evolução da humanidade entre os povos latino-americanos, deixando de lado os irmãos do norte.

 

La ruta argentina, como registrado acima, traz as impressões de Frank sobre o clima intelectual de Buenos Aires, que Victoria Ocampo tratava de transformar em um centro cultural patrocinando viagens de escritores e músicos famosos e promovendo encontros, saraus e concertos. Tal intercâmbio intelectual pode ser medido pela atenção que Frank recebe da imprensa. O diário La Prensa convida o escritor a colaborar com o jornal quando voltasse aos Estados Unidos; La Nación, também de Buenos Aires, e jornais do Chile, da Colômbia e do Peru publicam trechos ou resumos de suas conferências.

 

Assim o escritor deixa sua impressão sobre nosso país vizinho (a tradução, perdoem, é do colunista):

 

“A terra e as águas da Argentina me recordam as do Egito; os dois territórios são fecundos como uma mulher. Em ambos, a sujeição pode se levantar até um súbito êxtase. Observei – seguro de que tinha algum sentido – a semelhança entre a expressão com que os olhos femininos olham os remotos horizontes dos pampas e a postura das esculturas egípcias”.

 

II

Já que Borges aqui foi citado, continuamos a coluna com ele, motivo para voltarmos para Santos. Um de seus contos mais conhecidos é O Aleph, do volume de mesmo nome, publicado em 1949. Aleph é o nome que se dá ao ponto do universo no qual todos os demais pontos podem ser vistos. O protagonista do conto é o próprio Borges, que se depara com um aleph no porão da casa de seu antagonista. Na enorme sucessão de objetos vistos dentro do aleph, Borges enumera até o rosto do leitor.

 

Posteriormente, ao analisar a natureza do objeto, o protagonista-narrador considera-o um falso aleph. Ele após sua hipótese em um texto do aventureiro inglês Richard Burton, que exerceu em Santos o cargo de cônsul britânico na década de 1860, época em que o porto paulista era entrada da tecnologia e capitais ingleses que construíram a Santos-Jundiaí e outras ferrovias no território paulista (processo semelhante ocorreu na Argentina).

 

Borges, como era de sua característica, inventa que Burton havia escrito sobre verdadeiros pontos nos quais todos os demais podem ser vistos. O manuscrito de Burton, continua inventando Borges, havia sido achado por Pedro Henríquez Ureña em 1942 em uma biblioteca aqui de Santos.

 

Para finalizar, lembremos que o próprio Borges voltou a ser transformado em personagem por Flávio Viegas Amoreira no conto A Penúltima Versão da Eternidade (leia Entre a Europa e Buenos Aires), no qual, em águas santistas, o navio que levava Borges à Europa cruza com outro que levava o bailarino Nijinski do velho continente para a Argentina, viagem que dá mais um nó na rede de viagens fictícias e relatos históricos entre os portos de Santos e Buenos Aires.

 

 

Referências:

 

Christian Kupchik (organizador e tradutor). La ruta argentina. Buenos Aires, Editorial Planeta Argentina, 1999.

Jorge Luis Borges. O Aleph. In: Obras Completas. Volume I. 1923-1949. São Paulo: Editora Globo, 1998.

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